Mendonça abriu inquérito contra Flávio por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão em caso "Dark Horse"

Publicado em 11/09/2026 10:29

 

Por Ricardo Brito e Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA, 11 Set (Reuters) - O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou em julho a abertura de inquérito para investigar o candidato a presidente e senador Flávio Bolsonaro (PL) por supostos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no caso dos repasses feitos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme "Dark Horse", a cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo decisão tornada pública nesta sexta-feira.

A determinação de Mendonça, que foi revelada na íntegra com a derrubada do sigilo das apurações do Banco Master atendendo a pedido do presidente do STF, Edson Fachin, foi requerida pela Polícia Federal, que defendia o aprofundamento das investigações, e teve o aval da Procuradoria-Geral da República.

"Nessa perspectiva, considerando os termos da representação da Polícia Federal e a concordância da Procuradoria-Geral da República, autorizo... a instauração de procedimento investigatório... para apuração da hipótese criminal delineada pela autoridade policial", disse Mendonça, no despacho de duas páginas.

Procurada, a assessoria de Flávio Bolsonaro não respondeu de imediato a pedido de comentário.

Em diversas manifestações públicas, Flávio Bolsonaro negou quaisquer irregularidades e disse que seu pedido a Vorcaro foi por um financiamento privado, sem qualquer tipo de contrapartida.

Os detalhes desta investigação aberta em julho não são de conhecimento porque o caso segue sob sigilo. Na época da abertura de inquérito, em julho, a Reuters havia noticiado a determinação de Mendonça, mas não tinha detalhes das alegações para a investigação contra o presidenciável.

A representação de 16 páginas da PF do dia 8 de julho, tornada pública nesta sexta-feira, detalha os indícios de participação de Flávio Bolsonaro na "viabilização e cobrança dos aportes" a Daniel Vorcaro para financiamento da produção do filme.

O documento relata uma série de tratativas entre o senador e o banqueiro e pessoas ligadas a ele desde ao menos dezembro de 2024 até 16 de novembro de 2025, às vésperas da primeira fase da Operação Compliance Zero que levou à prisão pela primeira vez de Vorcaro.

Nessa ocasião, Flávio Bolsonaro tentou contato com Vorcaro e, posteriormente, encaminhou mensagem afirmando: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, segundo degravação de áudio citada na representação.

"Tais elementos indicam que o Senador Flávio Nantes Bolsonaro não aparece apenas como terceiro mencionado em comunicações de outras pessoas, mas como interlocutor direto de Daniel Vorcaro em tratativas relacionadas ao financiamento da produção, inclusive com cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento do andamento das gravações", disse a PF na representação.

O caso do apoio de Vorcaro a Flávio sobre o filme foi revelado em reportagem em maio do site Intercept Brasil.

O documento da PF informa que foi localizado nas comunicações extraídas do aparelho celular de Vorcaro um contrato que previa "investimento total de US$24.000.000,00, correspondente, à época, a aproximadamente R$ 134 milhões" --confirmando dados reportados pelo Intercept Brasil.

Segundo a PF, a dinâmica recomenda o aprofundamento das investigações para esclarecer, entre outras questões, a origem dos recursos destinados a financiar o filme, a utilização de empresas como intermediária dos pagamentos, beneficiários finais dos valores remetidos ao exterior, e o papel efetivamente exercido por Flávio Bolsonaro e outras sete pessoas na "estruturação, cobrança, execução e destinação dos aportes".

Uma outra linha sob investigação, segundo fontes da PF, é se parte dos recursos para financiar o filme teriam sido desviados e usados para bancar a estadia do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio e filho de Jair Bolsonaro que atualmente mora nos Estados Unidos.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, se manifestou a favor do pedido da PF de abertura de inquérito e realização dessas diligências, além de defender a análise de eventuais propostas legislativas apresentadas por Flávio Bolsonaro que poderiam ser de interesse do Banco Master e de empresas ligadas a Daniel Vorcaro.

(Edição de Eduardo Simões e Isabel Versiani)

Fonte: Reuters

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