EUA e China estendem trégua comercial até janeiro, mas pressão por mais compras agrícolas continua
Estados Unidos e China concordaram em estender por mais dois meses a trégua comercial entre os dois países, dando mais tempo para as negociações entre as duas maiores economias do mundo enquanto permanecem divergências sobre comércio, terras raras, tecnologia e agricultura.
O acordo atual, que venceria em 10 de novembro, passa a vigorar até 10 de janeiro de 2027, segundo anunciou o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent. A extensão foi acertada enquanto o presidente chinês, Xi Jinping, desembarcava em Washington para sua primeira visita de Estado aos Estados Unidos em 11 anos.
Xi foi recebido pessoalmente pelo presidente Donald Trump na Base Conjunta Andrews, nos arredores da capital americana. Os dois líderes terão nesta quinta-feira (24) as principais reuniões da visita, seguidas por um jantar de Estado na Casa Branca.
Foto: Al Drago/Bloomberg
A extensão reduz o risco imediato de uma nova escalada comercial, mas não representa um acordo definitivo entre Washington e Pequim. Ao contrário, o prazo relativamente curto indica que questões importantes continuam sem solução e mantém pressão sobre os dois países para avançarem nas negociações.
Bessent afirmou que ainda não sabe se será possível alcançar um acordo comercial mais amplo ou se os dois países acabarão apenas renovando novamente os termos atuais. Segundo o secretário, existem compromissos assumidos anteriormente pela China cujo cumprimento não ocorreu da maneira esperada pelos Estados Unidos.
A trégua original foi acertada por Trump e Xi em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025, suspendendo tarifas elevadas e algumas restrições envolvendo minerais críticos, tecnologia e taxas sobre navios chineses nos portos americanos.
"Considerando a relação bilateral de forma mais ampla, nenhum dos lados pode se dar ao luxo de mais turbulências neste momento”, disse Zhao Hai, vice-presidente do Instituto Chinês de Hong Kong, um centro de estudos afiliado à Academia Chinesa de Ciências Sociais, um grupo de pesquisa governamental em Pequim à Bloomberg. “Especialmente uma escalada ainda maior que resultaria em uma situação em que todos perderiam".
AGRO AINDA TEM AVANÇO INSUFICIENTE
As compras agrícolas estão entre os pontos que Washington pretende avançar durante a visita de Xi. Segundo a agência internacional de notícias Bloomberg, a China está aproximadamente na metade do compromisso de comprar 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos neste ano. O governo americano também considera lento o avanço de outro compromisso chinês de adquirir cerca de US$ 17 bilhões adicionais em produtos agrícolas americanos.
Bessent afirmou nesta quarta-feira que os Estados Unidos estão incentivando a China a acelerar essas compras. O secretário sinalizou ainda que novos anúncios envolvendo aquisições agrícolas podem ocorrer durante a visita de Xi.
Para o mercado de grãos, portanto, a extensão da trégua tira da mesa, por enquanto, o risco de uma nova escalada tarifária, mas não resolve a principal questão para a soja que será o entendimento do tamanho efetivo da demanda chinesa pelo produto americano.
Esse ponto interessa diretamente ao Brasil. A China é o principal destino da soja brasileira, e novos compromissos de compras nos Estados Unidos podem alterar a disputa entre as duas origens pelo mercado chinês, com reflexos sobre Chicago, prêmios e preços nos portos brasileiros.
Ainda assim, não há qualquer ameaça real à demanda chinesa pela soja brasileira. A nação asiática ainda depende fortemente da oleaginosa do Brasil e o país é o único com oferta suficiente para atendê-los adequadamente, com ritmo e fluxo, além de atender também à sua demanda interna. Nos Estados Unidos, mesmo com uma safra ligeiramente maior, a distância ainda é grande e os estoques já são ajustados.
TRÉGUA COMPRA TEMPO, MAS NÃO RESOLVE DIFERENÇAS
Além da agricultura, permanecem divergências importantes envolvendo o fornecimento chinês de terras raras, restrições americanas à tecnologia, inteligência artificial e Taiwan. A extensão por apenas dois meses também ficou abaixo dos três a seis meses que autoridades americanas haviam mencionado anteriormente como possibilidade. Segundo a Bloomberg, a China buscava um prazo mais longo.
O novo vencimento, porém, cria espaço para novas negociações e possíveis encontros entre Trump e Xi ainda neste ano, incluindo reuniões previstas durante cúpulas internacionais em Shenzhen e Miami.
“A cúpula está produzindo uma estabilização controlada”, disse Han Lin, diretor da Asia Group para a China à Bloomberg, acrescentando que a prorrogação da trégua atendeu às baixas expectativas de ambos os lados antes do encontro. “Se Trump e Xi se encontrarem novamente em novembro ou dezembro, talvez o objetivo seja guardar o melhor para o final.”
Com informações da Bloomberg e da Reuters Internacional