Rússia faz alerta nuclear à Otan em meio ao aumento das tensões no Báltico

Publicado em 30/09/2026 18:31

Por Lili Bayer e Mark Trevelyan

BRUXELAS, 30 Set (Reuters) - A Rússia advertiu a aliança militar ocidental Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de que estaria pronta a recorrer a armas nucleares caso a aliança ocidental tentasse isolar Kaliningrado, um enclave russo que faz fronteira com o Mar Báltico.

Em um documento enviado à Otan e ao qual a Reuters teve acesso, Moscou acusou a aliança de seguir um “caminho perigoso e imprudente” que acarreta “altos riscos de eclodir um conflito armado direto”.

O documento afirma que isso inclui a possibilidade “de ataques russos contra centros de tomada de decisão nos países membros da aliança logo no início do conflito”.

“A Rússia estará pronta para utilizar todo o arsenal de forças e recursos à sua disposição, incluindo armas nucleares, a fim de defender seu território caso os países da Otan empreendam qualquer tentativa destinada a isolar a região de Kaliningrado do restante do país”, dizia o texto.

O alerta destacou a preocupação urgente de Moscou com o que apresentou como uma crescente ameaça da Otan a Kaliningrado, um território russo fortemente militarizado, situado entre a Polônia e a Lituânia e ligeiramente maior que o Estado americano de Connecticut.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, em um comentário no site do ministério, citou declarações de dignitários de países da Otan que, segundo ela, demonstravam "russofobia" e uma prontidão para entrar em guerra com Moscou.

Essas autoridades, escreveu Zakharova, "precisam ser trazidas de volta à realidade. Esperamos que nossos alertas sejam ouvidos por aqueles a quem se dirigem."

"Se a Europa atacar a Rússia, será um tipo de guerra completamente diferente -- uma guerra muito curta."

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, disse que a aliança respondeu à mensagem da Rússia declarando: "Somos uma aliança defensiva. E parem com as ameaças nucleares. Isso é absolutamente inaceitável e não ajuda em nada."

Em sua resposta ao documento russo, vista pela Reuters, a Otan também afirmou que nenhum de seus "exercícios ou atividades representa uma ameaça ao território da Federação Russa".

"Apelamos à Federação Russa para que cesse a sua invasão em larga escala e sem provocação da Ucrânia. Instamos a Federação Russa a abster-se de comportamentos cada vez mais imprudentes para com os Aliados e a cessar a sua retórica nuclear irresponsável", afirmou.

Questionado se o risco de uso de armas nucleares contra os países bálticos era agora real, Rutte disse em uma conferência de Defesa em Bruxelas, organizada pela emissora Euronews: "Não, não é. Putin sabe que nunca poderá vencer a Otan, então não levo isso tão a sério."

RISCO DE CÁLCULO INCORRETO

Nikolai Sokov, analista nuclear radicado em Viena e ex-diplomata russo, avaliou que está se tornando cada vez mais difícil para os países ocidentais continuarem intensificando seu apoio à Ucrânia sem entrar em confronto direto com Moscou.

Ele disse que o alerta russo pode indicar que a ala mais linha-dura está ganhando influência no debate sobre como responder às ações do Ocidente -- que incluem o fornecimento de armas a Kiev, novas sanções contra Moscou, interceptações de navios russos, exercícios militares frequentes e voos de inteligência perto de Kaliningrado.

"Eles (a Rússia) esperam mais ações, incluindo um bloqueio do Mar Báltico, um pouco abaixo do nível de guerra nos cálculos europeus, mas para eles isso será uma guerra aberta. Vejo um risco de erro de cálculo dos dois lados", disse Sokov.

Em uma entrevista online, ele disse que a Rússia e a Europa estão em rota de colisão e que os dois lados precisam de cautela e planejamento.

Mas em vez disso, avaliou, os europeus estão exercendo “pressão por todos os lados”, e a Rússia está fazendo um alerta sério de que essa postura envolve riscos muito elevados, acrescentou Sokov.

"GUERRA HÍBRIDA"

Além do alerta feito em caráter privado, embaixadas russas em pelo menos três países europeus divulgaram declarações nos últimos três dias acusando a Otan de aumentar as tensões por meio de exercícios militares e de planejar cenários envolvendo Kaliningrado.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, descreveu essas medidas como lembretes diplomáticos para "os exaltados na Europa".

As relações, já tensas desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, pioraram drasticamente neste ano, com governos europeus acusando Moscou de intensificar uma "guerra híbrida" no continente por meio de atos como sabotagem e incêndio criminoso.

A Rússia nega as acusações e rejeita as repetidas declarações de políticos ocidentais de que estaria se preparando para um possível ataque militar contra um país membro da Otan.

Um alto funcionário da defesa europeia disse: "Esta é a primeira vez desde a Guerra Fria que a Rússia nos ameaça desta forma. Portanto, isto é sério."

Fonte: Reuters

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