Drones ucranianos atingem centro de dados da Rússia para minar avanço da IA
Por Elena Fabrichnaya e Gleb Bryanski
MOSCOU, 14 Out (Reuters) - Drones ucranianos atacaram o maior centro de dados da Rússia nesta quarta-feira, como parte de uma série de ações que parecem ter como alvo a ambição de Moscou de desenvolver capacidades de IA comparáveis às dos EUA e da China.
O ataque ao centro de dados de Balakovo, de propriedade do Sberbank -- o maior banco e empresa de tecnologia do país --, ocorreu após três ataques na semana passada a centros de dados pertencentes ao grupo de tecnologia russo Yandex.
“Confirmamos que o centro de processamento de dados foi atacado. Ao mesmo tempo, todos os sistemas e serviços do Sberbank estão operando normalmente e sem interrupções”, disse o primeiro vice-presidente executivo do Sberbank, Alexander Vedyakhin, a repórteres.
A agência de notícias estatal russa RIA Novosti informou em 2024 que o centro do Sberbank atingido nesta quarta-feira abrigaria o maior supercomputador da Rússia, cuja entrada em operação está prevista para 2027.
Os centros de dados da Yandex, atingidos anteriormente, abrigavam todos os três supercomputadores em operação da empresa. Nem a Yandex nem o Sberbank informaram se os supercomputadores, usados para treinar os modelos de IA, foram danificados nos ataques ucranianos.
Juntamente com a Yandex, sua principal rival no mercado interno, o Sberbank é o principal desenvolvedor de inteligência artificial da Rússia. O mercado interno é dividido entre o modelo GigaChat, do Sberbank, e o YandexGPT.
DIFICULDADES NA COMPRA DE CHIPS
Ambas as empresas investiram pesadamente no desenvolvimento de seus modelos, mas estão até nove meses atrás dos líderes globais nos EUA e na China, de acordo com as próprias estimativas do Sberbank, em parte devido às sanções ocidentais que impedem o acesso da Rússia a hardware mais avançado.
“Fica claro quais são as dificuldades que enfrentamos na aquisição de unidades de processamento gráfico modernas. Tanto nós quanto a Yandex sofremos com isso”, afirmou o presidente-executivo do Sberbank, German Gref, em 29 de setembro, apontando isso como a principal razão pela qual a Rússia está atrás dos EUA e da China em IA.
O Sberbank está em negociações para comprar chips de fabricantes chineses, mas, em entrevista à Reuters em 3 de junho, Vedyakhin afirmou que o monopólio da fabricante norte-americana de chips Nvidia sobre sua plataforma de software CUDA -- que se tornou um padrão do setor de IA -- é um problema ainda maior.
A Yandex havia afirmado anteriormente que seus supercomputadores operavam com chips Nvidia A100, um modelo lançado em 2020 e, desde então, substituído pelos chips H100, mais modernos.
O Sberbank possui dois supercomputadores em funcionamento. O mais avançado, chamado Christofari Neo, ocupa a 167ª posição na lista Top 500 dos mais potentes do mundo. Ele está localizado em Moscou e é baseado em chips Nvidia A100.
O supercomputador Chervonenkis, o mais avançado da Yandex, ocupa a 101ª posição na mesma lista.
O especialista em TI Mikhail Klimarev disse à Reuters que a substituição dos chips pode levar muito tempo devido às sanções ocidentais, enquanto danos aos supercomputadores poderiam atrasar o setor russo de IA, que já sofre com as sanções.
“O equipamento está sendo importado, mas isso é feito a um custo elevado, por vias indiretas. Primeiro, é preciso negociar para que alguém esteja disposto a vendê-lo e não tenha medo das sanções”, disse.
PROTEGER OS ATIVOS
Alguns comentaristas compararam a ausência de relatos de interrupções no Sberbank, controlado pelo Estado, com a situação da Yandex -- cujas unidades de táxi e entrega de comida relataram interrupções --, afirmando que isso demonstrava que os centros do Sberbank estão mais bem protegidos.
“Este é um ótimo exemplo do que um empresário pode fazer para proteger seus ativos”, escreveu o blogueiro militar Alexander Kots. De acordo com um decreto de agosto do presidente Vladimir Putin, o Estado pode assumir a administração de instalações mal protegidas.
O local do Sberbank fica próximo à usina nuclear de Balakovo, que o centro de dados utiliza como fonte de energia, e à usina hidrelétrica de Saratov. Não foram relatados danos a nenhuma das duas usinas em decorrência do ataque.
A Ucrânia afirma estar respondendo aos ataques russos aos seus próprios centros de dados. Ambos os países têm atacado refinarias, usinas de energia, portos e empresas de comércio eletrônico um do outro.
O Ministério do Desenvolvimento Digital da Rússia informou nesta semana que está em negociações com as forças armadas sobre a proteção dos centros de dados, enquanto alguns parlamentares pediram que eles fossem transferidos para instalações subterrâneas, onde o hardware ficaria fora do alcance de drones.
(Reportagem adicional de Gleb Stolyarov; redação de Gleb Bryanski)