Líderes da UE iniciam cúpula em meio a disputas sobre preços de energia e gastos

Publicado em 15/10/2026 11:16

 

Por Philip Blenkinsop e Kate Abnett

BRUXELAS, 15 Out (Reuters) - A União Europeia deu início nesta quinta-feira a uma cúpula que colocou em destaque as disputas sobre como conter a alta vertiginosa dos preços de energia, elaborar um orçamento para manter o bloco competitivo e frear o aumento das exportações da China, apontadas como responsáveis pela perda de empregos.

Os líderes dos 27 países membros da UE se reuniram em Bruxelas após terem fechado um acordo com Pequim para limitar as importações de carros híbridos da China, um primeiro passo para reduzir o déficit comercial de bens do bloco, que atingiu 360 bilhões de euros em 2025.

A cúpula ocorre em um momento de grande ansiedade econômica, com os picos nos preços dos combustíveis em função da guerra no Oriente Médio colocando governos na defensiva e empresas em dificuldades, enquanto a Europa busca reforçar suas defesas e apoiar a Ucrânia.

O tempo também está se esgotando para uma série de eleições na Europa nos próximos meses, incluindo a da França em abril, que poderia levar a líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, à presidência, com a promessa de reduzir drasticamente a contribuição de seu país para o orçamento da UE.

Com queda nas pesquisas de opinião em seu país, o chanceler alemão Friedrich Merz disse a repórteres que as posições dos negociadores ainda estão muito distantes em relação ao orçamento, o que colocou contribuintes líquidos, como a Alemanha, contra beneficiários líquidos. A proposta mais recente garantiria subsídios para agricultores e regiões, o que, segundo críticos, desvia recursos de áreas mais urgentes para acompanhar os EUA e a China.

“Estamos, portanto, diante de negociações muito, muito difíceis”, disse Merz.

ATIVOS RUSSOS CONGELADOS

Merz também rejeitou categoricamente uma proposta dos Estados Unidos, divulgada pelo Financial Times, para que os países europeus descongelassem alguns ativos soberanos russos imobilizados após a invasão da Ucrânia. A ideia seria transferi-los para um veículo supervisionado por Washington, na tentativa de reativar as negociações de paz, informou o FT, citando fontes a par do assunto.

“Esses são ativos que estão congelados na Europa e devem permanecer congelados na Europa. Isso é assunto nosso, e somos nós que decidimos sobre isso”, disse Merz.

Embora a França também seja um contribuinte líquido para o orçamento da UE, suas autoridades alertaram que um foco exclusivo em cortes de gastos seria contraproducente, prejudicando medidas que visavam tornar o bloco mais competitivo.

“Podemos ver claramente que os cortes por si só não resolvem a equação”, disse um funcionário.

O rascunho das conclusões da cúpula indica que os líderes querem que a Comissão continue as negociações com Pequim, ao mesmo tempo em que faz pleno uso das medidas de defesa comercial da UE e adiciona novos instrumentos comerciais para proteger ainda mais o bloco.

“Esses desequilíbrios não se limitam a um único setor. Não temos muito tempo, pois a cada mês que passa, milhares de empregos são perdidos”, disse um diplomata sênior da UE.

Pequim afirmou que dar ênfase à questão dos desequilíbrios econômicos é uma desculpa para promover o protecionismo e exercer pressão e restrições sobre a China.

“Não temos medidas suficientes para combater práticas desleais; também não investimos o suficiente em nossa própria competitividade e inovação. O novo orçamento da UE precisará estar preparado para isso”, disse a repórteres o primeiro-ministro holandês, Rob Jetten.

MUDANÇA DE POSIÇÃO DA ALEMANHA

As propostas franco-alemãs divulgadas na semana passada também devem ser o foco das discussões. As duas maiores economias da UE afirmaram que há uma necessidade urgente de medidas para lidar com as importações de produtos químicos e PET -- o plástico amplamente utilizado em embalagens -- e pediram medidas para retaliar rapidamente países que prejudiquem o bloco.

O documento marca uma guinada acentuada para a Alemanha, que há apenas dois anos era a crítica mais veemente às tarifas antissubvenções da UE sobre veículos elétricos chineses.

Vários países da UE também colocaram os altos preços da energia na pauta.

Um ponto de discórdia é o desejo de países como a República Tcheca e a Itália de enfraquecer ou suspender o Sistema de Comércio de Emissões da UE, uma regulamentação que obriga usinas de energia e indústrias a comprar licenças de CO₂ quando poluem.

Os primeiros-ministros da Finlândia, da Suécia e da Dinamarca rebateram em uma carta elogiando o sistema como um impulsionador da segurança energética, ao ajudar a Europa a reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados. Eles alertaram que “qualquer enfraquecimento” prejudicaria os investimentos em indústrias limpas.

Um dos principais temas desta sexta-feira serão os desafios enfrentados pela Ucrânia, com a presença prevista do presidente Volodymyr Zelenskiy em um momento em que Kiev está em desacordo com os EUA quanto ao compartilhamento de informações de inteligência.

Espera-se que os líderes discutam as necessidades de financiamento da Ucrânia para 2027, com o primeiro-ministro da Letônia, Andris Kulbergs, comparando o custo para cada cidadão ao preço de uma cerveja.

“É uma cerveja a menos por europeu por ano. Podemos arcar com isso. Mas a Ucrânia precisa disso agora”, afirmou.

(Reportagem de Philip Blenkinsop, Kate Abnett, Andrew Gray, Julia Payne, Amina Ismail, Lili Bayer, Andreas Rinke, Michel Rose, Victoria Waldersee, Bart H. Meijer e Ludwig Burger; redação de Philip Blenkinsop e Matthias Williams)

Fonte: Reuters

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