Índia prioriza alimentação enquanto El Niño prejudica ambições relacionadas ao etanol
Por Rajendra Jadhav
MUMBAI, 4 Nov (Reuters) - A iniciativa da Índia de substituir o petróleo importado por biocombustível produzido no país enfrenta um revés, já que as chuvas de monção, as mais fracas em mais de uma década, afetaram as safras de milho e cana-de-açúcar, forçando Nova Délhi a priorizar a segurança alimentar em detrimento da produção de etanol.
A proporção de etanol na gasolina indiana deve cair abaixo da meta oficial de 20% no ano de abastecimento que começou este mês, afirmam especialistas do setor, revertendo os ganhos obtidos depois que o governo atingiu essa meta cerca de cinco anos antes do previsto.
Uma queda sustentada no uso de etanol prejudicaria um dos principais programas de segurança energética do primeiro-ministro Narendra Modi e deixaria a Índia mais dependente do petróleo importado em um momento de volatilidade nos preços da energia, em meio à persistente incerteza geopolítica.
A iniciativa E20 economizou quase 2 trilhões de rúpias (US$ 21,1 bilhões) em custos de importação de petróleo desde que Modi assumiu o poder em 2014, segundo dados do governo, com uma economia anual estimada em 430 bilhões de rúpias com a taxa de mistura de 20% de etanol.
No entanto, um forte El Niño este ano reduziu as chuvas de monção na Índia em quase 13% em relação aos níveis normais, e as preocupações com a escassez de produtos agrícolas fizeram com que os preços do milho e do açúcar disparassem cerca de 40%, atingindo níveis recordes, enquanto o arroz -- outra matéria-prima que pode ser usada para a produção de etanol -- subiu 20%. A inflação dos alimentos no varejo acelerou para 7,74% em setembro, ante 5,97% no mês anterior.
A escassez de matérias-primas pode reduzir a taxa de mistura de etanol da Índia para cerca de 15% no atual ano de abastecimento, em comparação com os 20% do período anterior, disse G.K. Sood, presidente da empresa de agronegócio KN Agri Resources e um dos principais especialistas em política alimentar da Índia.
"A Índia é o país mais populoso do mundo, portanto, os alimentos devem ter prioridade sobre o combustível, ainda mais em um ano de seca", disse ele.
Os amplos estoques de arroz da Índia oferecem uma alternativa ao açúcar e ao milho, mas que seria cara para o governo, que vende o grão aos produtores de etanol por cerca de metade do preço que paga para comprá-lo e armazená-lo.
Um porta-voz do governo não respondeu a um pedido de comentário da Reuters.
DESTILARIAS SOB PRESSÃO
A redução da mistura pressionaria os produtores que contraíram empréstimos vultosos para expandir a capacidade para cerca de 20 bilhões de litros por ano, antecipando o aumento da demanda por etanol, o que resultou em um excesso de capacidade significativo.
Quatro produtores, que falaram sob condição de anonimato, disseram à Reuters que esperam que a mistura caia para 15% a 17% no atual ano de abastecimento, com a magnitude da queda dependendo em grande parte dos preços do milho.
A inflação dos alimentos é um tema politicamente delicado, já que vários Estados devem realizar eleições para as assembleias legislativas no início de 2027, incluindo Uttar Pradesh, o mais populoso do país.
Modi sofreu um revés no estado -- um termômetro da política nacional -- nas eleições gerais de 2024, com os partidos da oposição conquistando mais cadeiras do que seu Partido Bharatiya Janata.
A iniciativa E20 não está isenta de controvérsias, com motoristas e algumas montadoras expressando preocupações quanto à eficiência de combustível e ao desgaste do motor. A reação negativa da população levou o governo a enfatizar que não havia planos de aumentar a proporção para mais de 20%.
Nova Délhi quadruplicou a mistura de etanol ao longo de seis anos para atingir sua meta, auxiliada por sucessivas monções favoráveis.
No entanto, no mês passado, o governo sinalizou uma mudança nas prioridades ao orientar as empresas petrolíferas a não adquirirem etanol produzido a partir de matérias-primas à base de açúcar para a nova temporada de abastecimento.
Além disso, reduziu o preço de compra do etanol à base de milho de 71,86 rúpias para 68,86 rúpias por litro no mesmo mês, pressionando as margens das destilarias e restringindo o uso da safra.
Os produtores de etanol têm recorrido cada vez mais a grãos danificados para produzir o biocombustível, o que gerou preocupações quanto à disponibilidade de ração animal, afirmou C.K. Jain, presidente da Associação dos Fabricantes de Etanol a partir de Grãos.
A produção de milho deve cair em até 15% em relação ao recorde deste ano, de 55 milhões de toneladas métricas, segundo estimativas do setor.
Preços recordes normalmente seriam um atrativo, mas "é improvável que a área plantada no inverno aumente", disse Harish Galipelli, diretor da ILA Commodities Pvt Ltd, uma corretora com sede em Hyderabad.
"Os agricultores afetados pela seca em vários estados simplesmente não têm água suficiente para plantar milho."