O sabor amargo da crise que ainda não passou

Publicado em 14/06/2010 07:44 429 exibições
Sol a pino. Centenas de homens batem-papo, jogam bola ou buscam sombra para descansar. O ritmo na divisa entre Mossoró, no Rio Grande do Norte, e Icapuí, no Ceará, parece preguiçoso. Mas ali, na mesma fazenda em que há clima de “happy hour”, outro grupo se divide para colocar a mão na massa, produzindo mudas, preparando a terra e dando conta do cultivo do melão, considerado ouro nos dois estados. A fruta vai encher milhares de conteineres a partir de agosto, no início de mais uma safra. O movimento na linha de produção deverá aumentar de maneira gradativa, mas não, porém, com a velocidade que o setor esperava.

Cerca de um ano após se deparar com os efeitos mais perversos da crise, a fruticultura não só do Rio Grande do Norte, mas do Brasil, atravessa um período ainda difícil, de lenta retomada e de muitas pedras no caminho. Com 70% das exportações destinadas à Europa, o setor sofre com a crise que continua retraindo o consumo em importantes países importadores e com a desvalorização não só do Euro, mas também do Dólar e da Libra, usados para fechar negócios com os clientes de fora. Perdendo força diante do Real, as moedas estrangeiras significam, para quem exporta, faturar menos com as vendas no mercado internacional. “A crise se agravou”, diz o presidente do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), Jean-Paul Gayet, sem prever quando ocorrerá a tão sonhada retomada.

A recuperação do mercado tem sido retardada pela crise que eclodiu este ano na Grécia. “Os governos estão emprestando dinheiro uns aos outros, a moeda está desvalorizada e o europeu é muito conservador. A qualquer sinal de crise, ele para de gastar e isso afeta o consumo”, observa Wagner Stancampiano, responsável pela área de captação, compras e relacionamento com fornecedores da empresa alemã Port International, que importa frutas para fornecer a grandes redes de supermercados e a centrais de abastecimento da Alemanha e de outros países europeus. Na prática, o que ocorre é que o cenário de recessão faz o consumidor viajar menos e gastar menos em restaurantes, por exemplo. Com a queda da demanda, frutas como o melão, inseridas nos cardápios europeus, ficam no prejuízo, explica Naji Harb, que presta serviços ao Sebrae por meio da Pillar Consultoria, especializada na área de comércio exterior.

Custos

Enquanto isso, no campo, onde essas frutas são produzidas, os custos de produção, incluindo mão-de-obra, embalagens, energia e produtos como fertilizantes e defensivos, já acumulam alta próxima aos 12% em 2010, calcula o diretor da Cooperativa dos Fruticultores da Bacia Potiguar (Coopyfrutas), que reune 28 empresas e produtores de Mossoró e Baraúna, Francisco Vieira da Costa. “Os produtores estão perdendo rentabilidade, poder de investimento e ficando endividados. Então chega um período em que não conseguem mais repor essas dívidas e fecham. Isso tem acontecido com pequenas, médias e grandes empresas e produtores da região. Nos últimos dois anos, pelo menos oito produtores fecharam as portas’’, afirma.

Outro problema que poderá atrapalhar o setor este ano é o clima. O baixo volume de chuvas que caiu no Rio Grande do Norte aumenta o risco de incidência de pragas e de doenças como mosca branca e mosca minadora. “Com a redução pluviométrica, a vegetação nativa vai secar mais cedo. Com isso, aumenta o risco de desenvolvimento dessas pragas e de elas atingirem o melão”, frisa o diretor da Cooperativa. Com o risco iminente, a tendência é que haja mais gastos com defensivos e que caiam a qualidade e a produtividade nas lavouras, de acordo com o que estima.

Incentivos fiscais podem ajudar a levantar o setor

Segundo o presidente do Comitê Executivo de Fitossanidade (Coex), que reúne exportadores, fiscaliza e monitora a mosca da fruta nas áreas voltadas à exportação do RN, Wilson Galdino, a produção de melão no estado caiu cerca de 12% em 2009. “Queremos ao menos recuperar isso este ano”, diz. A queda, em parte, pode ser explicada pela migração de produtores para áreas do Ceará, onde recebem uma série de incentivos do governo para produzir e exportar. O governo do Rio Grande do Norte está, porém, reagindo ao movimento. "O governo tem consciência da importância da fruticultura na economia e não tem poupado esforços para fortalecer o setor’’, diz o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Francisco de Paula Segundo.

Uma das ações de incentivo ao setor foi a assinatura do decreto 21.675, em maio deste ano, que isenta em 100% o ICMS dos fretes rodoviários destinados ao mercado exterior e reduz em 40% o ICMS dos fretes rodoviários das mercadorias que abastecem o mercado interno, no transporte de frutas frescas e de minerais. O decreto produz efeitos para o setor desde o dia 1 de junho. “Com esse incentivo, o governo do estado não tem dúvida que a atividade vai ganhar competitividade e poderá ter preços ainda melhores na hora de negociar’’.

O superintendente do Sebrae RN, Zeca Melo, ressaltou, na abertura da Expofruit, encerrada sexta-feira em Mossoró, a necessidade de concessão de incentivos ao setor, em que, no estado, predominam pequenos produtores. Ele também disse que é preciso encontrar formas de inovar e incorporar tecnologia aos produtos e processos, diversificar a produção e os destinos dela. “Um trabalho que estamos fazendo é apresentar aos importadores um outro estado. Que, além do melão, tem mamão, manga, banana e outros produtos de qualidade’’, diz Naji Harb.

Tentando apagar um rastro de perda

A crise que atinge o mercado internacional desde o segundo semestre de 2008 pegou em cheio empresas como a Nolem e a Del Monte Fresh Fruit, gigantes que suspenderam a produção de melão que concentravam no Nordeste e deixaram um rastro de perdas ainda não apagado completamete por outros produtores. Segundo Francisco Vieira da Costa, da Coopyfrutas, a Nolem respondia por 30% da produção de Mossoró. A empresa fechou as portas há cerca de um ano e, até agora, apenas 18% da lacuna que abriu foi preenchida. “O problema é que as empresas estavam descaptalizadas, sem dinheiro para investir e produzir a quantidade de melão que era necessária”, diz. A fazenda de 2.700 hectares vai, porém, voltar a produzir.

A área foi arrendada por R$ 1,5 milhão pela Agrícola Famosa, maior produtora nacional de melão, e deverá começar o plantio no começo de julho. “Deveremos plantar de 800 a 1 mil hectares. Não podemos plantar mais porque o mercado consumidor não está favorável a esse volume”, diz o sócio-diretor da companhia, Luiz Roberto Barcelos. “É nos momentos de recessão que você tem que investir, para estar preparado para quando a coisa melhora. Acreditamos que o mercado vai melhorar. Por isso fechamos o negócio’’, acrescenta, explicando que o contrato de arrendamento é de um ano, mas que prevê prorrogação por mais dois. Ao final desse período, a intenção é fazer a aquisição definitiva da fazenda.

Mas, para colocá-la em operação, a empresa deverá investir outros cerca de R$ 500 mil. O dinheiro servirá para revitalizar a estrutura, parada desde o ano 2009. Nesta primeira safra, a ideia é produzir em torno de mil conteineres de melão pele de sapo, o equivalente a 20 mil toneladas da fruta. A expectativa é, porém, aumentar a produção e a área de cultivo de maneira gradual. O foco será o mercado da Espanha.

Para a safra que vai de agosto deste ano a março de 2011, Barcelos diz ter programado o plantio de 4.300 hectares, a geração de 4.500 empregos – dos quais 1 mil na fazenda arrendada da Nolem - e exportar, no total, 6 mil conteineres, com contratos fechados em cerca de US$ 65 milhões. O volume deverá representar 70% de todo o melão que o Brasil vai exportar no período.

Divisa

Atualmente, a empresa divide a produção metade a metade em áreas do Ceará e do Rio Grande do Norte. Na divisa com Mossoró, na fazenda matriz, o plantio começou há cerca de duas semanas, segundo o gerente comercial, Andrei Mamede. O ciclo de produção dura cerca de 70 dias. É tempo suficiente para que a fruta embarque na safra 2010/2011.

Dos 7 mil hectares da propriedade, 30% estão no município potiguar. O restante, em Icapuí. É de lá, da fazenda matriz, que sairão 50% de todo o melão que a Agrícola Famosa vai comercializar para Holanda, Espanha e Inglaterra. “Cerca de 85% do volume produzido será exportado”, diz o executivo. Para dar conta da demanda, 450 pessoas já trabalham na produção. No pico da safra, em dezembro, o número deverá ter subido para mais de 2 mil.

Desemprego também afeta o setor

A Del Monte, cuja produção da fruta era cultivada exclusivamente no Ceará, decidiu não plantar este ano, devido ao enfraquecimento do dólar e a questões de mercado que envolvem queda de preços e de consumo nos países importadores. Segundo o presidente do Coex, Wilson Galdino, no pico da safra, a empresa gerava cerca de 3.500 empregos só com a cultura do melão. Cerca de 30% dessa mão-de-obra, diz ele, era oriunda de Mossoró. “E provavelmente essa mão de obra não será absorvida por outras empresas, pelo menos não este ano. Com certeza vamos ter um pouco de desemprego no setor’’, continua. Dos funcionário demitidos da Nolem, cerca de 3 mil, segundo informações extra-oficiais, pelo menos mil serão absorvidos pela Agrícola Famosa este ano. “Ao longo dos próximos anos esperamos voltar ao nível de emprego que a fazenda tinha antes de ser paralisada’’, adianta Luiz Roberto Barcelos, da Agrícola.

Dados compilados pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), mostram que, no Rio Grande do Norte, só o pólo Açu-Mossoró concentrava 8.423 trabalhadores, doz quais 80,86% ou 6.811 estavam empregados no setor da fruticultura. Segundo o supervisor técnico do órgão, Melquisedec Moreira, em 1999, essa participação era 79,8% e caiu para 73% em 2003, por exemplo. Os números fazem parte da RAIS, do Ministério do Trabalho e Emprego e apontam três municípios como destaque no estoque de empregos formais: Mossoró, Baraúna e Ipanguaçú. “Em 2008, 51,3% dos empregos formais da fruta concentravam-se em Mossoró, 21,7% em Baraúna e 16,5% em Ipanguaçu”, detalha Moreira. O estoque de emprego formal na fruta do pólo leva em consideração o cultivo de banana, melão, melancia, goiaba, mamaão, limão, acerola, uva, entre outras culturas. O piso salarial da categoria é atualmente o salário mínimo, R$ 510.

Na Coopyfrutas, cujos cooperados têm, juntos, 1.200 hectares de melão e melancia, há perspectiva de aumento nas contratações deste ano: “Talvez aumente o número, em virtude do crescimento do mercado interno. Hoje, há em torno de 1 mil empregados diretos e 3 mil indiretos pelos participantes da Cooperativa’’.

Em 2009, a Coopyfrutas exportou 21 mil pallets de melão, ou 21 mil toneladas. A expectativa para este ano é pelo menos manter esse número. Cerca de 25% do volume produzido, ou cerca de 6 mil toneladas da fruta, é comercializado no mercado interno. Com a crise no mercado internacional e a demanda crescente no Brasil, essa participação tem avançado. Para se ter ideia, em 2008, 18% da produção, apenas, ficava no país.

Bate-papo
Jean-Paul Gayet, presidente do Ibraf

Que caminhos as empresas devem tomar em tempos de crise?
Existem caminhos, não digo de salvação, mas que permitem continuar vivendo e crescendo. Creio que nesse panorama meio pessimista, as empresas devem se concentrar em um objetivo: fazer por onde ter mais lucro, aumentando a qualidade da produção, e não pensar apenas em volume. Isso se consegue com variedades mais aprimoradas, imprindo mais gosto, sabor e aroma à fruta. Se o consumidor percebe que o melão é gostoso vai voltar a comprar. Se, pelo contrário, fica decepcionado, não gostou da primeira compra que fez, é capaz de ficar a safra inteira sem comprar de novo. Outro ponto é que há necessidade de se ter um canal de comercialização adequado.

Os produtores erram em apostar principalmente no mercado europeu, em vez de diversificar os destinos?
Se a aposta principalmente nesse mercado persistisse, sim, seria um erro. Mas, já existe um esforço para desenvolver mercado na América do Norte (nos Estados Unidos e no Canadá), para abrir as portas do mercado asiático e para chegar ao Oriente Médio, principalmente aos Emirados. Não sei porque esse mercado não foi abordado ainda pelo pessoal do melão, mas outras frutas já chegaram lá. Investir um pouco mais no mercado da América do Norte me parece uma boa saída no momento. Para as duas próximas safras, me parece que o dólar, em relação ao euro, vai estar num patamar melhor. Nos países da Ásia do Sudeste enfrentamos ainda um bloqueio.

Que bloqueio é esse?
Barreiras fitossanitárias, que não estão resolvidas. É preciso que seja feito um acordo de governo a governo. Não temos nehhuma exportação de melão para a Ásia.

Há espaço no exterior para outras frutas, além do melão?
De maneira geral, salvo alguma outra exceção pequena, não há mais espaço disponivel. Está tudo tomado. Mas existe a possibilidade de tomar um lugar, lutando para isso com variedades melhores, com agressividade comercial, com meios de desbancar quem não está fornecendo a contento. Mas o melão ainda é uma excelente oportunidade. Até porque existe na região conhecimento tecnológico da cultura e da pós colheita, por exemplo, que não existe em lugar nenhum. Essa é uma vantagem enorme.

Fonte:
Tribuna do Norte

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