Acordo monetário global é visto com ceticismo

Publicado em 11/04/2011 08:10 165 exibições
O hotel de Bretton Woods, sede do histórico acordo de 1944, viveu momentos de nostalgia com um encontro com cerca de 300 economistas nesse fim de semana. Eles discutiram, entre outras coisas, as chances de um novo acordo monetário internacional para corrigir o desequilíbrio cambial entre China, EUA e resto do mundo, que muitos acreditam ter causado a grave crise dos últimos três anos.

Atrasado para uma reunião em 1944, o chefe da delegação inglesa, o economista John Maynard Keynes, teve um pequeno ataque cardíaco depois de subir correndo uma escada, contou o historiador oficial do Fundo Monetário Internacional (FMI), James Boughton. Uma famosa bailarina se misturou aos mais de 700 delegados de 44 países e quem estava hospedado embaixo de quarto dela podia ouvir seus passos de dança. Jornais locais noticiaram, com certo tom de insinuação, que moças bonitas da região foram contratadas para trabalhar como secretárias.

Em julho de 1944, Bretton Woods foi escolhida para sediar as três semanas que culminaram no acordo que criou o FMI e o Banco Mundial porque o calor é insuportável em Washington no verão. Até hoje o hotel Mount Washington, construído no início do século passado nessa estação de esqui no estado de New Hampshire, vive um pouco da fama daquele encontro.

Em conversa com o Valor, o economista da Universidade de Berkeley, Barry Eichengreen, estudioso de sistemas monetários internacionais, conta que veio ao hotel pela primeira vez em 1992, num encontro sobre a história de Bretton Woods. "Havia placas que diziam onde ficou a delegação de cada país", relatou Eichengreen. Hoje, elas já foram removidas, incluindo a do Brasil, mas é possível conhecer a sala em que o acordo foi assinado e visitar o auditório em que ocorreram as principais reuniões.

O bilionário George Soros, que ganhou muito dinheiro quando era conhecido como um megaespeculador e que apoia causas filantrópicas e políticas, bancou o grosso das despesas do encontro desse fim de semana, que reuniu personalidades como Paul Volcker, Joseph Stiglitz e Gordon Brown. Depois da crise, Soros fundou o Instituto para um Novo Pensamento Econômico (Inet, na sigla em inglês) e, desde então, vem seguindo os passos de Keynes. No ano passado, a reunião foi no King's College, na Universidade de Cambridge, casa do economista inglês.

"Um novo acordo é urgente", disse o professor Robert Skidelsky, da Universidade de Warwick, autor da mais completa biografia de Keynes. "Fico imaginando se será preciso uma nova crise para termos uma nova reforma."

Boughton, o historiador do FMI, pondera que essa não é primeira vez que alguém advoga um Bretton Woods 2. "Políticos de todas a tendências já pediram, de Ronald Reagan a François Mitterrand, e mais recentemente de Gordon Brown a Nicolas Sarkozy."

Bretton Woods desperta saudades porque é associado com um período de estabilidade financeira e prosperidade econômica que durou por quase três décadas. O arranjo, negociado ao final da Segunda Guerra Mundial, criou um sistema monetário praticamente fixo, em que as moedas oscilavam numa banda de 1% em torno do dólar. E a moeda americana, por sua vez, estava ancorada numa certa quantidade de ouro. Controles pesados de capitais eram a ferramenta básica para garantir o funcionamento do sistema.

Alguns ironizaram o clima de nostalgia. "Estamos aqui celebrando um acordo que desabou espetacularmente há 40 anos", disse num dos painéis o colunista Martin Wolf, do "Financial Times", referindo-se ao colapso do sistema em fins de 1971.

"Não saímos de Bretton Woods porque uma turma de economistas convenceu todo mundo de que o sistema de câmbio fixo era uma má ideia e que a mobilidade de capital era melhor", disse o economista Larry Summers, ex-conselheiro econômico do presidente americano, Barack Obama. "Deixamos Bretton Woods porque o sistema entrou em colapso, havia contradições internas que ninguém conseguiu superar."

Muitos responsabilizam os EUA pelo fim do sistema, ao deixar de honrar a paridade com o ouro. Outros atribuem a culpa à França, que em fins dos anos 60 pôs em prática uma estratégia de acumular ouro, contribuindo para a inflação do preço do metal e tornando ais difícil para os EUA honrar o sistema.

Para defensores de um novo Bretton Woods, como Skidelsky, é preciso um acordo monetário internacional porque os desequilíbrios cambiais foram a principal causa da crise econômica recente, com altos déficits comerciais nos EUA espelhados em grandes superávits na China. Economias em expansão com taxas de câmbio flutuantes, como o Brasil, sofrem agora com grandes fluxos de capitais.

Alguns economistas apostam nos Direitos Especiais de Saque (DES) do FMI como a nova moeda de reserva internacional. "O DES não é uma moeda, é na verdade uma cesta de moedas, mas pode ser útil como um arcabouço para uma maior cooperação internacional na administração das moedas", disse Soros. De certa forma, a proposta se inspira em Keynes, que propôs em Bretton Woods uma moeda supranacional, o bancor, mas foi derrotado pelos americanos, que emplacaram o dólar como coração do sistema.

Eichengreen é cético sobre as chances de o DES virar uma moeda de fato e de ser aceita em transações privadas. Uma questão importante é como o dinheiro seria emitido quando houvesse uma grande crise. "O Fed injetou US$ 120 bilhões no sistema por meio de swaps após a quebra do Lehman Brothers", disse, referindo-se à quebra do banco em fins de 2008 que jogou a economia mundial no fundo do poço. "Os defensores do DES deixariam o [presidente do FMI Dominique] Strauss-Kahn fazer isso num fim de semana?"

Fonte:
Valor Online

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