Risco sistêmico derruba bolsas e dá força ao dólar

Publicado em 19/08/2011 09:02 330 exibições
A aversão ao risco voltou a dominar os mercados locais e externos. Os investidores ainda procuram o real motivo para tal degradação de humor, enquanto analistas repetiam o mantra dos últimos dias: baixo crescimento e problemas na zona do euro.

Mereceu destaque no noticiário da quinta-feira a informação do "The Wall Street Journal" de que o Federal Reserve (Fed), banco central americano, intensificou o monitoramento de unidades de bancos europeus que operam nos Estados Unidos.

A informação atingiu em cheio as ações do setor financeiro no mundo tudo, por trazer o risco sistêmico de volta à cena.

Segundo o diretor da Pioneer Corretora, João Medeiros, esses ruídos podem levar a uma situação muito ruim. A base do sistema financeiro é a confiança e, quando se começa a duvidar da saúde de alguma instituição, o processo pode ser irreversível.

Um banco começa a não emprestar dinheiro para o “Banco X”, pois ouviu que ele estava com algum problema. Um agente conta isso para outro e está feito o estrago.

“É assim que começa o que vimos em 2008. Esses ruídos podem causar um transtorno violento”, disse Medeiros.

Captando bem os solavancos do dia, o VIX, que mede a volatilidade das opções na bolsa americana e é visto com um termômetro do medo do mercado, disparou 35%, para 42,67 pontos.

Enquanto o VIX disparava, as bolsas e as commodities afundavam e o dólar subia.

Em Wall Street, o Dow Jones voltou a oscilar mais de 400 pontos no dia. Ontem, o índice caiu 3,68% (419 pontos), para 10.990 pontos. O S&P 500 teve baixa de 4,46%, para 1.140 pontos, e o Nasdaq perdeu 5,22%, a 2.380 pontos.

No mercado de matérias-primas, o barril de petróleo do tipo WTI afundou 5,9%, para US$ 82,38. O índice de commodities CRB recuou 2,32%.

Além do VIX e do dólar, quem ganha na incerteza é o ouro, que fez nova máxima história a US$ 1.822 a onça em Nova York, ao subir 1,6%. No mês, o metal precioso já ganhou mais de 10%.

Bovespa

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) não escapou de tamanha desconfiança externa e teve forte queda. Mas se serve de consolo, fechou longe das mínimas do dia.

Depois de cair mais de 5%, compras no fim no pregão reduziram as perdas do Ibovespa a 3,52%. O índice fechou apontando 53.134 pontos. O volume ficou em R$ 6,93 bilhões.

Com esse tombo, a bolsa brasileira passou a apontar queda de 0,63% na semana. Em agosto, o Ibovespa deve 9,7%.

O papel ON da Vale foi o que mais pesou na queda da bolsa brasileira, com perda de 4,96%, a R$ 38,30. A negociação com os papéis da mineradora responderam por 19% de todo o giro financeiro da bolsa.

"Foi um dia em que papéis de empresas ligadas a commodities caíram em vários mercados, e aqui não poderia ser diferente. E o mesmo é válido para as ações dos bancos, que acompanharam a queda", observou Fausto Gouveia, economista da Legan Asset Management.

Câmbio

A volta da aversão ao risco resultou em firme demanda por dólar - que, apesar dos problemas que afligem a economia americana, continua como “porto seguro” em momentos de incerteza.

A demanda ocorre também por falta de opção. O euro, que seria uma alternativa, está enredado com a crise da dívida soberana. O franco suíço, que vinha ganhando força como “moeda de proteção”, perdeu fôlego conforme o governo passou a atuar para conter sua valorização. O mesmo vale para o iene que, ainda assim, tem leve alta contra o dólar.

Por aqui, o dólar comercial encerrou o dia apontando para cima, mas não teve força para retomar a linha de R$ 1,60. Depois de saltar 1,76% e fazer máxima a R$ 1,613, as compras perderam força nos instantes finais do pregão e a moeda encerrou o dia a R$ 1,599 - ainda assim, alta de 0,88%. Na semana, no entanto, a divisa cai 0,74%.

O real perdeu bem menos do que outros pares emergentes, como o dólar australiano, o rand sul-africano e o dólar canadense.

Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), o dólar pronto teve valorização de 1,53%, para R$ 1,609. O volume negociado no dia somou US$ 228,75 milhões, contra US$ 17,25 milhões na quarta-feira.

Também na BM&F, o dólar para setembro operava com alta de 0,72%, a R$ 1,6065, antes do ajuste final, mas o contrato chegou a R$ 1,618 (ganho de 1,44%).

No câmbio externo, o Dollar Index, que mede o desempenho da divisa americana ante uma cesta de moedas, subiu 0,54%, a 74,19 pontos. O euro caiu cerca de 0,60%, para US$ 1,434.

Na visão do diretor-executivo da NGO Corretora, Sidnei Moura Nehme, o mercado parece “cair na real” quanto às perspectivas de baixo crescimento nas economias desenvolvidas.

Voltando o foco para o mercado local, Nehme avalia que está bem claro que o real vai funcionar de acordo com as regras do mercado flutuante, refletindo os movimentos externos.

Para Nehme, o real está bem defendido pelas reservas internacionais que ultrapassam US$ 350 bilhões e pela política fiscal que, frente ao que se vê no mercado externo, está muito melhor.

Por esses motivos, o especialista não vê motivo para uma explosão no preço do dólar. A taxa deve continuar orbitando a linha de R$ 1,60.

O ponto de incerteza, segundo Nehme, vem das posições dos investidores estrangeiros no mercado futuro. O não residente tem um estoque vendido em cupom cambial (DDI – juro em dólar) de US$ 14,608 bilhões.

Tal posição ganha com a alta da taxa de juros no mercado local. No entanto, os contratos de juros futuros já sugerem corte acentuado na Selic, embora as análises mais fundamentais descartem redução de juros  em breve, em função da inflação.

A questão aqui é como se dará a reversão dessa posição caso o país entre, mesmo, em um ciclo de redução de taxa de juros.

Juros Futuros

O mercado de juros não para nem para respirar. O movimento é unidirecional e cada vez com mais força para baixo. Tudo bem que a situação externa é bastante incerta e que o crescimento global e local será menor, mas tamanha movimentação nos juros futuros foge completamente à racionalidade.

Segundo o sócio-gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi, a estrutura a termo sugere corte de juros em outubro, dezembro, janeiro, março e abril.

“Não dá para acreditar nisso. De fato, o movimento está exagerado, mas também não dá para ficar na frente do trem”, disse o gestor, apontando que por mais que seja tentador montar uma posição contrária a esse movimento, o risco, por ora, não compensa.

Segundo Petrassi e outros agentes de mercado, cresce a percepção de que o mercado de juros é a melhor opção de hegde (proteção) contra uma degradação ainda maior de cenário. O investidor quer garantir uma taxa no mercado prefixado para se proteger da queda da bolsa e da alta do dólar.

No mercado externo o movimento foi o mesmo. O temor com uma recessão derrubou as taxas dos papéis americanos de 10 anos para mínimas históricas, abaixo de 2%.

Antes do ajuste final de posições na BM&F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em setembro de 2011 subia 0,01 ponto percentual, a 12,39%. Outubro de 2011 apontava queda de 0,04 ponto, a 12,33%. Novembro de 2011 marcava 12,28%, também baixa de 0,04 ponto. Janeiro de 2012 projetava 12,11%, queda de 0,14 pontos. E julho de 2012 devolvia 0,20 ponto, a 11,77%.

Entre os contratos mais longos, janeiro de 2013, o mais líquido do dia,  apontava baixa de 0,24 ponto, a 11,49%. Esse contrato abriu o mês em 12,70%. Janeiro de 2014 registrava desvalorização de 0,20 ponto, a 11,45%. Janeiro de 2015 tinha queda de 0,17 ponto, a 11,48%. Janeiro de 2016 caía 0,15 ponto, a 11,49%. E janeiro de 2017 projetava 11,47%, perda de 0,14 ponto.

Até as 16h10, foram negociados 2.557.600 contratos, equivalentes a R$ 227,08 bilhões (US$ 143,45 bilhões), alta de 66% sobre o registrado no pregão anterior. O vencimento janeiro de 2013 foi o mais negociado, com 646.600 contratos, equivalentes a R$ 55,70 bilhões (US$ 35,19 bilhões).

Fonte:
Valor Online

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