Cientistas conseguem seqüenciar genoma da soja

Publicado em 29/12/2008 13:54 1440 exibições
Pesquisadores conseguiram enfim fazer o seqüenciamento genético do grão da soja (Glycine max) . Esta é uma espécie alimentícia importante para seres humanos e animais, rica em óleos e proteínas. Mas é como insumo na produção de biodiesel - um combustível produzido por meio de alterações que tornam o óleo vegetal capaz de acionar motores a diesel - que o produto atraiu a atenção do Instituto Unificado do Genoma, parte do Departamento da Energia dos Estados Unidos, em Walnut Creek, Califórnia.

Os cientistas do instituto e instituições coligadas divulgaram uma visão preliminar do genoma completo em 8 de dezembro, na Conferência Internacional de Genômica das Leguminosas, em Puerto Vallarta, México. O seqüenciamento levou três anos, em um projeto que teve custos da ordem de US$ 20 milhões, incluída toda a pesquisa inicial, informaram os cientistas responsáveis.

O seqüenciamento da soja foi precedido pelo do arroz, realizado em 2005, e deve ser seguido pelo do trigo e do milho, que estão em desenvolvimento. Os genomas de muitas plantas alimentícias são muito grandes e apresentam forte duplicação - o que serve de motivo para que os especialistas em biologia vegetal trabalhem com genomas mais simples como o da Arabidosis thaliana, uma planta semelhante à mostarda, como modelo. Muitos outros genomas vegetais contêm traços de hibridizações de espécies, que podem causar confusão, e de eventos de duplicação, nos quais todo o genoma de uma planta é copiado e as duas espécies resultantes depois se separam no curso dos labirintos evolutivos.

Problema duplo

"A soja se duplicou cerca de 10 milhões de anos atrás, pouco mais ou menos", disse Dan Rokhsar, do instituto, um dos líderes do projeto, "mas se você observar cuidadosamente, encontrará indícios de pelo menos mais dois eventos de duplicação". O resultado será que cada gene do genoma do vegetal em questão tenha três primos muito semelhantes, o que fez com que muitos biólogos vegetais reagissem com ceticismo diante da proposta de que a soja fosse seqüenciada, utilizando a abordagem de "espingarda" da qual Craig Venter foi pioneiro.

Nesse método, o genoma é dividido em fragmentos cada um dos quais com cerca de 700 pares básicos de comprimento. Estes fragmentos são seqüenciados, e depois o genoma inteiro é remontado como se fosse um quebra-cabeças. Com todos os genes semelhantes que existem por aí, disse Rokhsar, "é como se estivéssemos falando de dois quebra-cabeças bastante parecidos cujas peças tivessem se misturado".

Randy Shoemaker, que trabalha para o Departamento da Agricultura dos Estados Unidos, em Iowa, um dos líderes do projeto de pesquisa sobre a soja, agora está tendo de engolir seu ceticismo. Ele foi citado em 2000 uma reportagem da Nature que previa que a soja jamais poderia ser seqüenciada, em parte devido à sua complexidade.

A despeito de todas essas dúvidas, "o projeto foi realizado de maneira relativamente fácil", disse Gary Stacey, da Universidade do Missouri em Columbia, outros dos líderes da equipe. A seqüência foi verificada em comparação com genes de soja previamente conhecidos, e de acordo com Rokhsar pelo menos 98% deles estão presentes no genoma seqüenciado.

Safra lucrativa

A seqüência genética será usada pelos projetistas de biocombustíveis e pelos agricultores como ferramenta que permitirá modificar a soja de maneira a seguir suas especificações. "Agora somos capazes de identificar todos os genes envolvidos na síntese do óleo, na semente", diz Stacey, o que deve ajudar a estimular a produção petroleira. E, como enfatiza Rokhsar, o processo também tornará a produção de soja mais eficiente. "O ideal seria conseguir uma forma de plantar que não use água nem fertilizante, e na pior terra imaginável".

Os agricultores que cultivam soja para alimentação humana ou ração animal podem desejar usar as informações sobre o genoma da planta de maneira a desenvolver variedades de maior rendimento ou com maior teor de proteínas.

O Conselho da Soja dos Estados Unidos, uma organização agrícola bancada por um pequeno tributo arrecadado sobre toda soja vendida no mercado norte-americano, financiou alguns trabalhos iniciais que "atraíram a atenção do Instituto Unificado do Genoma", de acordo com Rick Stern, um agricultor que cultiva soja em Cream Ridge, Nova Jersey e preside o comitê de produção do conselho. "No momento, o tempo de desenvolvimento de uma nova variedade é de 15 a 20 anos. Com o genoma decifrado, esperamos poder reduzir o prazo para entre cinco e sete anos", disse.

Os marcadores que identificam genes desejados pelos cientistas podem ser utilizados para localizar as plantas que contêm esses genes sem que seja necessário esperar que amadureçam. Ou a biotecnologia pode permitir a inserção direta dos genes mais procurados diretamente nas células de uma planta.

A área mundial de produção de soja é de cerca de 95 milhões de hectares e fica concentrada nas Américas, embora a origem da planta seja a Ásia. A produção mundial de soja cresceu em mais de 200% ao longo dos 30 últimos anos, de acordo com a Associação Européia de Pesquisa de Grãos Legumináceos, sediada em Paris.
Tags:
Fonte:
Agrolink

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

Ao continuar com o cadastro, você concorda com nosso Termo de Privacidade e Consentimento e a Política de Privacidade.

0 comentário