Soja: Com clima prejudicando conclusão da safra, produtor tem que estar atento à oportunidade do mercado

Publicado em 16/02/2026 16:44
Brandalizze Consulting estima perdas podendo chegar a 8 mi de t com chuvas no MT e seca no RS

A semana com o mercado global da soja esvaziado de notícias. Nesta segunda-feira, 16 de fevereiro, é Carnaval no Brasil, a Bolsa de Chicago ficou fechada em função do feriado do Dia do Presidente, e na China começaram as festividades do Ano Novo Lunar, o mais importante feriado da nação asiática. Para os produtores de soja, porém, os trabalhos continuam e algumas preocupações permanecem no radar. 

Segundo Vlamir Brandalizze, consultor de mercado da Brandalizze Consulting, a safra 2025/26 do Brasil já sinaliza perdas de, aproximadamente, oito milhões de toneladas, podendo totalizar entre 175 e 177 milhões de toneladas, em relação ao seu potencial inicial, com algumas consultorias estimando, anteriormente, até 182 milhões de toneladas. O excesso de chuvas no Brasil Central e, principalmente, o tempo seco e muito quente no Rio Grande do Sul provoca essa consolidação das perdas. 

E assim, o mercado vai olhando para o real tamanho da oferta que não só o Brasil, mas toda a América do Sul, deverá entregar nesta temporada, ajustando-se a ela e dividindo suas atenções com a demanda. Neste cenário, como explica Brandalizze, os preços poderiam se aproximar dos US$ 12,00 por bushel, e entrariam em um ambiente onde voltar aos US$ 10,00 seria bastante inviável, em sua análise. 

"A US$ 10 o produtor americano não vende, o brasileiro - com esse dólar abaixo de R$ 5,20 - vê a soja perto dos R$ 90,00 (por saca) em algumas partes do Brasil e também não vende, ou seja, teríamos que ver uma melhora dos prêmios. Mas, prêmios com os portos lotados como estão de navios esperando é difícil acontecer nos próximos 60/70 dias", detalha o consultor. 

Brandalizze orienta, portanto, que o produtor busque aproveitar os atuais momentos do mercado para que avance com sua comercialização, tal qual o ambiente registrado na última semana. Os preços nos portos voltaram a se aproximar dos R$ 130,00 por saca nos últimos dias, motivados pelos ganhos na CBOT - que foram maiores do que a pressão sobre os prêmios - e estimularam um avanço considerável de novos negócios, após semanas do mercado bastante travado, com valores que, em diversas partes do Brasil, não permitiam a geração de margens, deixando muitos sojicultores no prejuízo. 

"Em Chicago, se beliscar nos US$ 12,00 nas posições julho e agosto também tem que garantir, porque é a posição contra a queda. Nós temos que apostar contra a queda porque o mercado não tem um viés de corrida altista de curto prazo, e aí, nas próximas semanas, já temos que verificar essa questão do inverno rigoroso nos EUA que pode trazer um impacto para as posições de 2027. Então, temos que ficar de olho porque podemos ter uma melhoria nas cotações de 2027 e o mercado dá oportunidades para o produtor garantir essas posições em dólares", explica. 

Os negócios na Bolsa de Chicago serão retomados nesta terça-feira, dia 17, mas ainda sem novas notícias ou negócios vindos da China. O feriado tem duração de uma semana e os traders estarão atentos, inclusive, a como os dias serão por lá da ótica do consumo para usar o período como um termômetro para a economia do país asiático, maior importador de soja do mundo. 

ENQUANTO ISSO, E O PRODUTOR?

Com perdas estimadas pela Brandalizze Consulting de cinco milhões de toneladas na safra de soja do Rio Grande do Sul pela seca e de três milhões no Mato Grosso pelas chuvas em excesso, o produtor tem redobrado a cautela na hora de avançar com seus negócios e com os trabalhos de campo neste momento. 

Na região de Confresa, no Mato Grosso, os produtores receberam dois dias de sol, tempo mais quente, possibilitando o avanço da colheita em todas as áreas onde era possível, como relata Rafael Antoniolli, produtor rural. Mas, as precipitações voltaram, tem chovido todos os dias - mesmo que de forma mais espaçada - o que ainda impede que a colheita evolua como deveria e também que o plantio da segunda safra de milho se dê na melhor janela. 

Na região de Matupá, o cenário é semelhante. O sol apareceu, a chuva deu uma ligeira trégua e o produtor avançou para tirar o que pudesse de soja do campo. "Mas, o produtor se animou com o sol, a colheita avançou, e agora há filas nos armazéns e falta caminhão para toda essa soja", afirma Daniela Campestrini, produtora na região. 

Assim, a comercialização ainda se registra em índices menores do que a do ano passado e se comparada à média dos últimos anos. Afinal, o mercado ainda se mostra um tanto incerto, com variáveis voláteis, outra a se definir, o que deixa o produtor ainda reticente no avanço das vendas. 

Sobre a valorização do preços da soja no Brasil, como se deu na última semana, o diretor da Pátria Agronegócios, Cristiano Palavro, afirmou não acreditar que esta seja uma tendência bastante clara e definida, mas afirma se tratar de uma oportunidade consolidada. 

"A colheita está meio engasgada, não tem tanta oferta assim neste momento, está chovendo muito (no Brasil Central), com produtores que não estão conseguindo tirar soja do campo. Daqui a 20 dias já teremos uma realidade diferente. São muitas outras regiões que têm capacidade de colheita. Por isso acho que isso ainda não é uma tendência, mas um momento. Então, acho que o comportamento do mercado não é ainda uma virada de tendência, mas uma oportunidade para quem vinha com poucos negócios ampliar isso e se proteger um pouco mais", diz. 

Os últimos números da Pátria mostram que o Brasil já colheu 22,3% de sua área total cultivada com soja, acima dos 16,78% do ano passado e da média dos últimos 5 anos, de 18,40%.

"A colheita perdeu ritmo em meio a chuvas excessivas no centro-norte brasileiro. Percentual colhido ainda supera a média dos últimos 5 anos, porém, o volume colhido na semana foi menor do que nas semanas anteriores. Relatos de produtividade apontam resultados abaixo do esperado em regiões importantes, como no MT, PR, GO, TO e MS", traz o reporte semanal da consultoria. 

Por: Carla Mendes | Instagram @jornalistacarlamendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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