Soja: Farelo despenca em Chicago, mas dólar e prêmios seguram preços no Brasil

Publicado em 18/09/2026 16:58

Os preços da soja encerraram a sexta-feira (18) com perdas expressivas na Bolsa de Chicago, pressionados principalmente pela forte realização de lucros no farelo. Depois de recuar quase 20 pontos durante o pregão, o contrato novembro terminou o dia com baixa de 16,25 pontos, cotado a US$ 13,03 por bushel. Apesar da queda desta sexta-feira, o novembro ainda acumulou ganho de 7 pontos na semana. Já o maio/27, referência para a safra brasileira, terminou o dia com US$ 13,36 e perda de 16 pontos. 

No mercado brasileiro, a pressão registrada em Chicago encontrou resistência na combinação entre dólar e prêmios, permitindo que as referências permanecessem mais estáveis nesta sexta-feira. A moeda americana fechou a semana com R$ 5,15 e alta de 0,12%. 

No Porto de Santos, as indicações para a soja disponível mantiveram sustentação, com referências de R$ 163,00 por saca para pagamento em novembro. Para a safra nova, as indicações ficaram em R$ 155,00 por saca para entrega em fevereiro e pagamento em abril, enquanto os negócios para entrega em março e liquidação em abril tiveram referência de R$ 152,00 por saca, segundo levantamento da Royal Rural.

Assim, mesmo diante das perdas superiores a 16 pontos registradas pela soja em Chicago, os preços brasileiros mostraram maior resistência, amparados pela composição entre câmbio e prêmios nos portos por mais um dia e em um movimento que foi bastante comum nesta semana.

FARELO PRESSIONA SOJA E LIDERA PERDAS NO COMPLEXO

A pressão mais intensa veio dos derivados negociados na Bolsa de Chicago nesta sexta-feira. O farelo de soja dezembro perdeu US$ 12,70 - mais de 3% -, encerrando a US$ 358,60 por tonelada curta, enquanto o óleo dezembro caiu 93 pontos, para 68,22 cents por libra-peso.

O comportamento confirmou o movimento que já vinha sendo observado durante a sessão. Segundo Ronaldo Fernandes, analista de mercado e diretor da Royal Rural, o farelo entrou em realização depois de aproximadamente 35 dias de valorização. O derivado havia sido um dos principais pilares de sustentação da soja nas últimas semanas e, nesta sexta-feira, essa relação se inverteu.

A avaliação também coincide com a leitura do fechamento da Pro Farmer, que atribuiu as perdas da soja e do farelo à realização de lucros e liquidação de posições compradas, com o movimento liderado justamente pelo derivado.

Além do movimento técnico, o mercado começou a incorporar uma nova variável vinda da Argentina. O avanço do novo marco regulatório dos biocombustíveis no Senado argentino prevê, caso o projeto seja aprovado também pela Câmara dos Deputados, elevar de 7,5% para 10% a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel.

Como o biodiesel argentino utiliza principalmente óleo de soja como matéria-prima, a mudança aumenta a perspectiva de demanda doméstica pelo derivado e pode alterar a dinâmica do esmagamento no país.

Nos cálculos de Fernandes, mantido o consumo de diesel próximo dos níveis atuais, o B10 poderia exigir aproximadamente 285 mil toneladas adicionais de óleo de soja por ano.

Caso todo esse volume fosse obtido por meio de novo esmagamento, seriam necessárias aproximadamente 1,5 milhão de toneladas adicionais de soja, com potencial para gerar cerca de 1,15 milhão de toneladas extras de farelo.

Fernandes ressalta, porém, que este é um cenário máximo, e não uma projeção de produção. Isso porque o novo desenho regulatório abre espaço para a participação das grandes processadoras integradas no mercado doméstico argentino. Essas empresas já produzem óleo de soja e poderão direcionar ao biodiesel volumes que atualmente teriam outros destinos, inclusive a exportação.

Assim, quanto maior for o redirecionamento do óleo já produzido, menor será a necessidade de novo esmagamento — e, consequentemente, menor o aumento efetivo da oferta de farelo.

“O B10 cria mais demanda por óleo, mas o tamanho do aumento da oferta de farelo vai depender de quanto dessa demanda será atendida por novo esmagamento e quanto será atendido com óleo que já é produzido hoje”, explica Fernandes.

A entrada da nova safra dos Estados Unidos completa o quadro de pressão. O USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) informou nesta semana que 6% da área de soja já havia sido colhida até o último domingo (13), contra 5% no mesmo período do ano passado e média de apenas 3% nos últimos cinco anos. Com a colheita avançando, o mercado passa a receber efetivamente a nova oferta norte-americana, enquanto acompanha os primeiros relatos de produtividade.

Do lado da demanda, houve uma nova sinalização positiva nesta sexta-feira. O USDA anunciou uma venda de 111 mil toneladas de soja dos Estados Unidos para a China, com entrega prevista para a temporada 2026/27. A compra, porém, não foi suficiente para neutralizar a pressão dos derivados e da entrada da safra americana.

As atenções seguem ainda voltadas para as relações entre Estados Unidos e China, com agricultura e soja entre os temas acompanhados pelo mercado antes do encontro previsto entre Donald Trump e Xi Jinping.

Assim, a soja encerra a semana com uma combinação bastante clara de forças: demanda chinesa ainda presente de um lado; colheita americana avançando e realização forte no farelo do outro. E, nesta sexta-feira, foi o farelo quem falou mais alto. Depois de sustentar parte importante da recente valorização da soja, o derivado devolveu ganhos e puxou o grão para baixo em Chicago.

Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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