Aumento no plantio de soja muda paisagem em Campos de Cima da Serra, no RS

Publicado em 26/04/2010 09:11 1207 exibições
Região da maçã, do pinhão e das grandes geadas, os Campos de Cima da Serra ganham uma tonalidade mais dourada com o aumento do plantio da soja

A transformação dos campos em lavouras de cima da serra levou a soja a se alastrar para diferentes municípios da região, localizada entre o Planalto gaúcho e a divisa com Santa Catarina.

Em Esmeralda, pelo menos dois terços do município já são cobertos pela lavoura, calcula o presidente do Sindicato Rural, José Melo de Lemos. Demovidos pela renda superior à criação extensiva de gado, mesmo pecuaristas que não arriscam a conversão para o cultivo do grão decidiram arrendar a terra para os recém chegados.

– Há nove anos, o rebanho bovino era de 64 mil cabeças. Hoje, são pouco mais de 30 mil – calcula Lemos.

A área de soja na região soma 184 mil hectares, estima a Emater. É apenas 4,6% da extensão cultivada no Estado, mas pelo menos quatro vezes mais do que há 20 anos –, estima o agrônomo Carlos Alberto Pucci, responsável pelo Departamento Técnico da Cooperativa Tritícola Mista Vacariense (Cooperval), de Vacaria.

Avaliações de produtores e técnicos indicam que, apesar da época da pechincha ter ficado no passado, ainda há pelo menos 200 mil hectares a serem abertos em Ipê, São Francisco de Paula, Vacaria, Bom Jesus, Esmeralda e Muitos Capões. A região do frio intenso, da maçã e do pinhão começa a ganhar nova tonalidade – o dourado dos pés de soja.

Movimentos de migração como os observados na direção dos Campos de Cima da Serra, da mesma forma que para o Centro-Oeste a partir da década de 1970, têm como raiz a impossibilidade de crescimento nas regiões de minifúndios, analisam especialistas.

Planta no campo, colhe na cidade

Apesar de ainda penar em meio à poeira pela falta de asfalto, a gente acolhedora de Esmeralda e os que trocaram de querência perseguindo o sonho movido a soja não precisam mais se deslocar para a vizinha Vacaria, espécie de capital regional, para comprar roupas ou eletrodomésticos. Com a prosperidade na zona rural do município de apenas 5,5 mil habitantes, o pequeno aglomerado urbano também foi beneficiado pelo fortalecimento do comércio e pela oferta de novos serviços.

– Não havia um restaurante, hoje há quatro. Tinha uma loja de roupas, hoje tem cinco. Agora tem dois postos de gasolina. Tinha uma agência bancária, agora são quatro – enumera o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Esmeralda, Luis Stoffel Mondadori.

Os cofres da prefeitura também contabilizam o avanço do grão. Em uma década, o orçamento do município foi multiplicado por três e em 2009 somou R$ 10,5 milhões.

Riqueza vinda com o grão vira negócio

O desenvolvimento, ainda que sem engatar velocidade, já é visto pelos arredores. Um dos primeiros reflexos do crescimento foi o aparecimento de novos silos, como o construído em 2002 pelo agricultor Carlos Ulrich, 40 anos.

– Em 1997, quando cheguei a Esmeralda, havia apenas um silo. No ano seguinte, foi construído outro, e agora são pelo menos 10 – relata Ulrich, que tem parceria com uma fabricante de biodiesel e pretende pelo menos dobrar a capacidade de armazenagem em 2011.

Nos 13 anos em que vive no município depois de deixar Victor Graeff, Ulrich diz ter notado uma grande evolução na cidade provocada pela maior circulação de riqueza.

Inaugurada há quatro anos, a revenda de automóveis Coruja Car, única de Esmeralda, tem uma colheita de negócios atrelada ao desempenho das lavouras. O forte, no entanto, ainda é o veículo popular. Os caminhonetões que circulam pelas ruas e estradas são adquiridos em cidades maiores da região.

Crescendo em meio às geadas

Olhando para trás, a família do agricultor Gustavo Boeira, 35 anos, lamenta apenas não ter contado com mais dinheiro quando trocou Passo Fundo por Esmeralda, há uma década. Os Boeira venderam os 28 hectares que serviam para o sustento dos pais e três irmãos e foram tentar melhorar de vida em Esmeralda, onde conseguiram comprar uma área três vezes maior.

– Não compramos mais porque não queríamos nos endividar. Aqui, as terras eram dadas – recorda Boeira, lembrando das dificuldades iniciais como o inverno inclemente e as geadas que cobriam de branco não só os campos, mas a copa das árvores do mato que margeia o rio no limite com Lagoa Vermelha.

No fim de semana passado, os Boeira terminavam de colher uma área de 335 hectares. Um mês de trabalho seguido, uma jornada cansativa e compensadora de quase 12 horas diárias da qual não abre mão nem mesmo o patriarca da família, Antônio, que com 64 anos e uma ponte de safena almoça na cabine da colheitadeira para não desperdiçar tempo.

Os Boeira desconfiam que o cavalo encilhado, pelo menos em Esmeralda, já passou sem ser montado. Admitem que não podem reclamar. Afinal, o patrimônio aumentou mais de cinco vezes. Mas Gustavo faz as contas e conclui que a chegada de agricultores de outras regiões do Estado deixou as terras caras, tanto para compra quanto para arrendamento. Por isso, a saga da família pode prosseguir bem longe do Rio Grande do Sul. Decidiram adquirir cem hectares em Tocantins, onde um irmão colheu este ano a primeira safra.

Tudo começou em um trailer

O rastro dos tratores e colheitadeiras que abriram a nova fronteira agrícola foi seguido pelos sócios Anaurelino Gentil e Silva, 41 anos, e Alcir Bussolotto, 36 anos. Trabalhavam como empregados em Lagoa Vermelha e decidiram apostar no próprio negócio, confiando na expansão das lavouras em Esmeralda, onde os agricultores não tinham a quem recorrer para um conserto.

– Quando nos mudamos, há 10 anos, morávamos em um trailer nos fundos da oficina. De lá para cá, o movimento aumentou umas 20 vezes – compara Silva.

Com o sonho se materializado de melhorar de vida, ambos construíram confortáveis casas para suas famílias e agora podem dar aos filhos um projeto de futuro que não conseguiram ter.

– Meus filhos estão matriculados em escola particular. Quero que eles tenham curso superior – diz Silva, pai de Bruna, 16 anos, e Mateus, 14 anos.

A Agmaq Peças funciona em um galpão alugado, mas em breve estará em uma sede própria. E os ex-assalariados, agora empregam 12 funcionários.

Pioneirismo de um castigo

Na última semana, o agricultor Luciano Hoffmann Alves, 36 anos, passou cinco dias percorrendo quase que diariamente os 300 quilômetros que separam Porto Alegre de Esmeralda. Enquanto cuidava da colheita, o pai, Antônio Carlos Silva Alves, 61 anos, – provavelmente o precursor do plantio de soja no município –, estava internado no Instituto de Cardiologia, na Capital, para fazer uma cirurgia após um princípio de infarto.

– Passei no bate-e-volta. Mas não adianta. Tem que colher – conta Luciano, que planta em 1,6 mil hectares.

Ex-prefeito da cidade, Antônio Carlos sentiu-se mal durante uma reunião na Capital em que tratava da pavimentação da estrada até Esmeralda, onde plantou as primeiras sementes do grão.

Antônio Carlos recorda que ingressou na agricultura como uma punição feita pelo pai por ter largado o colégio. Teve de começar a plantar, “algo bem mais trabalhoso”, deixando a pecuária.

– Aqui ainda é a última fronteira agrícola do Estado – afirma Antônio Carlos.

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Fonte:
Zero Hora

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