10 questões sobre o futuro do açúcar, por Marcos Fava Neves

Publicado em 27/08/2013 15:06
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Se o futuro imediato da cadeia de açúcar é relativamente previsível, o que esperar para os próximos dez anos? Este artigo explora dez questões que devem moldar e até mudar o futuro deste mercado

O açúcar é reconhecido mundialmente como a fonte básica de energia para o metabolismo, e o setor de alimentos e bebidas depende do açúcar. Este artigo tem como objetivo discutir os principais números dessa cadeia e compartilhar minhas principais questões quanto ao seu futuro.

O consumo, de acordo com a Organização Internacional do Açúcar (ISO) e outras fontes, cresce em torno de 2% a 2,24% ao ano. Saiu de cerca de 143 milhões de toneladas consumidas em 2005/06 para 171 milhões em 2012/13. Os maiores consumidores de açúcar são Índia (23 mi t), União Europeia (19 mi), China (15 mi), Brasil (13 mi), EUA (10 mi), Federação Russa (5,8 mi), Indonésia (5,2 mi), Paquistão (4,7 mi), México (4,5 mi) e Egito (2,9 mi).

O consumo médio pode crescer até 4 milhões de toneladas/ano, expandindo o mercado em cerca de US$ 1,6 bilhão (considerando um preço de US$ 400/t). Projeções com esse padrão de crescimento podem elevar o consumo de açúcar a 204 milhões de toneladas em 2021, sendo 131 mi produzidas e consumidas localmente e 73 mi exportadas, expandindo o mercado de exportação em 15 milhões de toneladas na comparação com 2013. A seguir-se o atual padrão, o mercado de importação de açúcar em 2021 poderá ser US$ 60 bilhões maior.

No lado da produção, por causa da sua importância, quase todos os países produzem açúcar, seja a partir de cana-de-açúcar, de beterraba-açucareira ou outras fontes. A produção mundial de açúcar aumentou de 145 milhões de toneladas em 2005 para 175 milhões em 2012. Os maiores produtores são Brasil (39 mi), Índia (25 mi), União Europeia (17 mi), China (13 mi), Tailândia (10 mi), EUA (8 mi), México (6,5 mi), Rússia (4 mi) e Austrália (4 mi). O Brasil teve o maior crescimento desde 2005, 40% (de 27 mi para cerca de 39 mi), enquanto o crescimento nos demais países ficou em torno de 16%. Isso fez com que a participação da produção brasileira aumentasse de 19% para 22% do total. A produção continuará crescendo no mundo, com uma estimativa de cerca de 206 milhões de toneladas para 2021.

O Brasil respondeu por 50% do total de 58 milhões de toneladas de açúcar comercializadas em 2012/13, seguido por Tailândia (16%), Austrália (5%), Índia (4%), União Europeia (4%) e vários outros países, que somam os restantes 21%. As exportações brasileiras saltaram de 17 milhões para 28 milhões de toneladas nos últimos 7 anos, um crescimento de quase 60%, enquanto as exportações dos outros países caíram quase 6%.

Os maiores importadores de açúcar em 2011 foram EUA (2,7 mi), Rússia (2,4 mi), Indonésia (2,2 mi), Índia (1,9 mi), China (1,9 mi), Irã (1,8 mi), Malásia (1,4 mi), Argélia, Coreia e Bangladesh (1,2 mi cada).

As reservas correntes de açúcar estão altas devido aos três anos de produção acima da demanda. Os preços em 2013 estão na faixa de US$ 0,16 -0,17/libra-peso, o menor patamar dos últimos anos. Essa produção maior é uma reação às boas cotações de 2009 a 2011. Os preços atuais talvez desincentivem a produção, e os estoques devem ser usados nas próximas duas ou três safras, levando a um novo equilíbrio.

Se o futuro imediato da cadeia de açúcar é relativamente previsível, o que esperar para os próximos dez anos? Depois desse panorama do mercado de açúcar, a segunda parte do artigo explora dez questões que eu acredito devem moldar e até mudar o futuro deste mercado:

1) Os países asiáticos são responsáveis por 60% do crescimento no consumo. O consumo per capita de açúcar na China e na Índia, assim como em outros países populosos da Ásia e da África, é menor do que nos EUA, Europa e Brasil. O crescimento da renda/urbanização, que puxa o mercado de refrigerantes, chocolate e doces, sucos e vários outros produtos que utilizam açúcar, pode causar um enorme impacto nesses números. Para dar um exemplo, o consumo per capita da China corresponde a 40% da média mundial, e uma mudança de 5 kg/pessoa na China criaria um mercado de 7 milhões de toneladas. Será que o consumo per capita crescerá nesses países a uma taxa maior, alterando a média anual de 2,4% de crescimento no consumo?

2) A Índia foi responsável pela maior volatilidade no preço do açúcar, devido a uma variação na produção e também ao alto consumo. Com a pressão por terra e a necessidade de produzir mais grãos para o consumo interno, terá a Índia capacidade de expandir a produção de açúcar com vistas à demanda interna ou se concentrará mais em outras culturas para anteder a crescente população, consolidando-se como importadora de açúcar?

3) Alguns países produtores de açúcar estão adotando misturas compulsórias de etanol na gasolina. A Índia deve começar uma mistura de 5% em 2013, e outros países como Tailândia, União Europeia, Austrália, México e Brasil já possuem ou estão discutindo a adoção de misturas. Como isso irá afetar a produção de açúcar, já que criará um mercado de etanol que compete pela cana e pela beterraba-açucareira?

4) Com as atuais cotações do açúcar, a produção não é economicamente viável em algumas áreas e para alguns grupos da indústria. Quais indústrias (petrolíferas, empresas de comércio, indústria de alimentos etc.) e países terão condições de consolidar e liderar a expansão do açúcar com baixo custo total (produção + logística), aproveitando o crescimento dos mercados importadores?

5) Que novas plantas ou tecnologias de produção podem surgir para dar um impulso a essa indústria açucareira tradicional e relativamente antiga?

6) Embora a cana tenha custos de produção menores do que a beterraba-açucareira e outras fontes, será que os substitutivos, como os adoçantes (com seu próprio preço e estrutura de custos), e outras fontes de açúcar roubarão uma fatia do mercado da cana?

7) A União Europeia tem uma produção de beterraba-açucareira altamente subsidiada. O que acontecerá nos próximos anos com a reforma da Política Agrícola Comum e como isso vai afetar o equilíbrio produção-consumo na Europa?

8) O Brasil é o maior player neste mercado. Em torno de 40% a 60% da cana brasileira é destinada ao etanol, que é consumido principalmente no mercado interno pela crescente frota de carros flex fuel. Será que o etanol vai ser competitivo com a gasolina, desviando mais cana para o etanol no futuro e retirando açúcar do mercado internacional?

9) Como as mudanças climáticas e as condições gerais do clima influirão na capacidade de produção de diferentes regiões?

10) Já que tanto o milho como o açúcar são fontes de etanol, há uma crescente relação no preço dessas commodities; portanto, como os futuros preços do milho poderão afetar os preços e o consumo do açúcar? Da mesma forma, o petróleo e a gasolina competem diretamente com o etanol como combustível. E o etanol também está diretamente vinculado ao açúcar. Como os preços do petróleo afetarão os preços e o consumo do açúcar?

Essas são as grandes questões a respeito do futuro da indústria do açúcar que eu queria partilhar com os leitores. Tentar respondê-las é um ponto de partida, mas não será fácil!

Marcos Fava Neves é professor de planejamento estratégico e cadeias alimentares da Escola de Economia e Negócios da Universidade de São Paulo (USP) e palestrante internacional. Autor de 25 livros publicados em oito países e O Mundo na Língua: O Futuro dos Alimentos, na China.

Fonte: Marcos Fava Neves

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