Setor sucroenergético enfrenta aperto com ATR baixo e custos em alta, mas expectativa é de recuperação dos preços

Publicado em 09/06/2026 12:00 e atualizado em 09/06/2026 15:02
Produtividade da cana avança nesta safra, mas queda na qualidade da matéria-prima e preços deprimidos do açúcar e do etanol pressionam a rentabilidade; para especialista, mercado pode encontrar suporte nos próximos meses

O setor sucroenergético brasileiro atravessa um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos. A combinação de custos elevados, preços internacionais pressionados e baixos níveis de ATR (Açúcar Total Recuperável) tem reduzido a rentabilidade de produtores, fornecedores e usinas justamente no início da safra 2026/27.

Segundo João Baggio, presidente da G7 Agro Consultoria, o cenário atual exige atenção redobrada à gestão dos custos e à eficiência operacional.

"Hoje é um cenário de preços baixos e custos elevados. O adubo teve aumento de cerca de 37,7% em relação à safra passada, enquanto o diesel subiu entre 17% e 20%. Além disso, temos preços deprimidos no mercado internacional do açúcar e um ATR muito baixo", afirma.

De acordo com o consultor, a situação preocupa porque a remuneração da cadeia está sendo impactada por diferentes fatores ao mesmo tempo. "Nós temos um custo para empatar que seria ideal com ATR em torno de R$ 1,20, mas hoje estamos trabalhando com ATR de aproximadamente R$ 0,86. É uma situação muito complexa para todo o setor", destaca.

Produtividade melhora, mas qualidade ainda preocupa

Apesar das dificuldades econômicas, o desempenho das lavouras apresenta sinais positivos. As condições climáticas mais favoráveis registradas ao longo do último ciclo contribuíram para o aumento da produtividade dos canaviais.
Baggio estima um crescimento de cerca de 5% na produtividade em comparação com a safra passada.

"A produtividade por hectare aumentou devido às chuvas mais regulares do ano passado. Devemos chegar entre 75 e 80 toneladas por hectare, contra algo entre 69 e 70 toneladas observadas anteriormente", explica.

Por outro lado, o ATR segue abaixo das expectativas do mercado. Segundo ele, os indicadores vêm apresentando queda desde o início do ano, reduzindo a remuneração da matéria-prima.

"Eu acredito que o ATR chegou ao fundo do poço. A tendência agora é de recuperação com a entrada das canas mais novas que serão colhidas ao longo da safra", avalia.

Mix mais alcooleiro ganha força

Diante dos atuais preços do açúcar na Bolsa de Nova York, próximos de 14 centavos de dólar por libra-peso, diversas usinas vêm ajustando suas estratégias industriais e ampliando a produção de etanol.

Para Baggio, a safra deverá apresentar um mix mais voltado ao biocombustível do que ao adoçante.

"Eu vejo que a safra deste ano será mais alcooleira do que açucareira. Muitas usinas estão aguardando um momento mais favorável do mercado internacional para ampliar a produção de açúcar", afirma.

Segundo ele, pequenas alterações no mix podem ter impacto relevante sobre a oferta global da commodity.

"Se você aumenta um ou dois pontos percentuais na produção de etanol, reduz entre 2 milhões e 2,5 milhões de toneladas de açúcar. Isso pode influenciar os preços internacionais mais à frente", explica.

Cenário global pode dar sustentação ao mercado

Além das decisões das usinas brasileiras, fatores externos também começam a ser monitorados pelo setor. Entre eles, a expectativa de menor produção na Tailândia e as incertezas sobre o volume de exportações da Índia.

"A Tailândia já sinalizou que deve produzir menos açúcar no próximo ciclo. Algumas consultorias já trabalham com a possibilidade de um mercado mais equilibrado e até mesmo de déficit global de açúcar", destaca.

Na avaliação do especialista, esses fatores podem contribuir para uma recuperação gradual das cotações ao longo da safra.

Atenção aos custos segue como prioridade

Mesmo com perspectivas mais positivas para os próximos meses, Baggio reforça que o produtor deve manter cautela na gestão financeira.

"O agricultor é tomador de preços. Ele toma preço na compra dos insumos e na venda da produção. Por isso, o grande desafio continua sendo controlar custos e buscar ganhos de produtividade", afirma.

Para o consultor, o setor já atravessa o momento mais difícil do ciclo atual.

"Todo o setor sucroenergético passa por ciclos de alta e de baixa. Eu acredito que já atingimos o pior momento da baixa e que a tendência é de melhora daqui para frente, principalmente entre 2026 e 2027", conclui.
 

Por: Andréia Marques
Fonte: Notícias Agrícolas

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