Açúcar ganha força em Nova Iorque com déficit global maior, diz Itaú BBA

Publicado em 21/08/2026 08:14
Itaú BBA elevou de 700 mil toneladas para 1,4 milhão de toneladas a projeção de déficit mundial de açúcar na safra 2026/27, mas alerta que preços acima de 15 centavos de dólar por libra-peso ainda convivem com sinais de fraqueza no consumo

O açúcar negociado na Bolsa de Nova Iorque ganhou força em agosto e rompeu a marca de 16 centavos de dólar por libra-peso no contrato com vencimento em outubro, após se aproximar dos 15 centavos em julho. Segundo análise do Itaú BBA, o movimento recente representa uma correção dos preços diante da perspectiva de um déficit global mais acentuado na safra 2026/27.

Em julho, a alta foi limitada pela ampla disponibilidade de açúcar no curto prazo, pela recuperação das monções na Ásia e pela demanda internacional ainda fraca. A mudança de percepção veio em agosto, com sucessivas revisões das estimativas de oferta e demanda aumentando a preocupação com os riscos de produção para os próximos ciclos.

Um dos principais fatores foi a piora das perspectivas para a produção de beterraba na Europa. A combinação de temperaturas extremas e poucas chuvas reduziu a produtividade esperada para a próxima safra. Para o Itaú BBA, esse foi o principal motivo para elevar a estimativa de déficit global em 2026/27 de 700 mil toneladas para 1,4 milhão de toneladas.

A projeção de déficit de 2,9 milhões de toneladas para a temporada 2027/28, divulgada pela Czarnikow, também contribui para sustentar as cotações.

Na Índia, a possibilidade de chuvas abaixo da média em agosto e a maior intervenção do governo para conter a inflação do açúcar reacenderam os rumores sobre uma eventual necessidade de importação. O Itaú BBA, porém, avalia que a operação ainda não é economicamente viável. Com a valorização do açúcar no mercado doméstico e a desvalorização da rúpia, o produto importado continua mais caro do que o açúcar comercializado internamente.

Dados do Brasil reforçam movimento de alta

No Brasil, os dados mais recentes da União da Indústria da Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), referentes a junho, e do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), referentes a julho, também contribuíram para o avanço do açúcar em Nova Iorque.

As estatísticas mostraram recuo na produção de açúcar do Centro-Sul, reforçando a percepção de uma oferta mais restrita na principal região produtora brasileira.

Apesar do avanço das cotações, o Itaú BBA ressalta que o movimento ainda deve ser encarado como uma correção. Na avaliação do banco, preços abaixo de 15 centavos de dólar por libra-peso são incompatíveis com a expectativa consolidada de déficit global em 2026/27.

Ao mesmo tempo, a demanda física internacional continua sendo um importante fator de pressão sobre o mercado. Entre os sinais apontados estão a retração das exportações brasileiras, os descontos relevantes nos preços FOB em Santos e um line-up de navios pouco ativo.

China e Índia podem ampliar oferta

Do lado da oferta, o banco destaca ainda o potencial de aumento da produção em importantes países consumidores.
A China projeta produção recorde de açúcar na safra 2026/27. Na Índia, o Itaú BBA trabalha atualmente com produção de 29 milhões de toneladas no mesmo ciclo, mas vê viés de alta nessa estimativa diante da redução ainda maior da quantidade de cana destinada à produção de etanol.

Além disso, estoques elevados podem reduzir a necessidade de importações mesmo em regiões onde a produção deve recuar.
A União Europeia é apontada como exemplo. Embora a estimativa do Itaú BBA indique uma queda de aproximadamente 3 milhões de toneladas na produção do bloco, o aumento das compras externas tende a ser menor. Até 31 de maio, os estoques europeus estavam 12% acima do registrado na mesma data de 2025, enquanto o estoque de passagem projetado deve atingir o maior nível dos últimos cinco anos.

Centro-Sul deve produzir 39,4 milhões de toneladas

No Brasil, apesar dos incentivos econômicos favoráveis à produção de açúcar, fatores operacionais e agronômicos devem limitar uma expansão mais forte do mix para o adoçante.

O Itaú BBA destaca especialmente a menor qualidade da cana e a reduzida flexibilidade industrial das usinas. Até o fim de julho, o mix de açúcar estava em 44,2%, contra 52% no mesmo período de 2025, segundo dados do MAPA.

Para a safra 2026/27, o banco mantém a projeção de moagem de 644,8 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, com mix de açúcar de 46,4%. Com essas premissas, a produção de açúcar é estimada em 39,4 milhões de toneladas.

Há, entretanto, forte viés de baixa para a qualidade da matéria-prima. A estimativa atual é de 138,3 kg de ATR por tonelada de cana.

Dessa forma, o Itaú BBA avalia que o recente avanço em Nova Iorque corrige parte da distorção entre os preços e o déficit esperado para 2026/27, mas pondera que a recuperação das cotações não elimina os riscos baixistas. A combinação entre oferta potencialmente maior em alguns países e uma demanda internacional ainda fraca deve continuar limitando a força do mercado.
 

Por: Itaú BBA
Fonte: Itaú BBA

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Safra maior de cana amplia oferta de etanol e pressiona preços
Açúcar ganha força em Nova Iorque com déficit global maior, diz Itaú BBA
Açúcar fecha misto nas bolsas, mas mantém patamares elevados com oferta global no radar
Índia autoriza importação de 1 milhão de toneladas de açúcar e mercado mira impacto sobre preços
Açúcar ganha força com clima, oferta global e mudança de estratégia na Índia
Temor com El Niño leva posições em aberto nos contratos futuros de açúcar a recorde, diz ICE