Brasil pode responder por 73% das exportações globais de açúcar bruto e ampliar protagonismo em 2027

Publicado em 20/10/2026 15:24
Quebras de safra na União Europeia, na Índia e na Tailândia ampliam a dependência do mercado internacional do produto brasileiro; El Niño e chuvas no Centro-Sul sustentam as cotações

O Brasil deve ampliar sua importância no abastecimento mundial de açúcar em 2027, diante da perspectiva de redução da oferta em importantes países produtores e exportadores. Estimativas da StoneX indicam que o país poderá responder por 73% das exportações globais de açúcar bruto na safra 2026/27 (outubro a setembro), ante 68% no ciclo anterior. O cenário reforça o protagonismo brasileiro em um mercado que volta a se preocupar com a disponibilidade do produto.

Segundo Marcelo Di Bonifacio Filho, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, a menor produção esperada na União Europeia, na Índia e na Tailândia deve aumentar a necessidade de importações e ampliar a procura pelo açúcar brasileiro. Ao mesmo tempo, os efeitos do El Niño sobre as lavouras e as chuvas excessivas no Centro-Sul do Brasil contribuem para sustentar os preços internacionais.

“Em resumo, o Brasil ficará ainda mais protagonista no mercado de açúcar em 2027”, afirma o analista.

A perspectiva de maior demanda internacional é um dos fatores que ajudam a explicar a recuperação das cotações em Nova Iorque desde agosto, após um período em que os preços ficaram próximos de 14 centavos de dólar por libra-peso.

Menor oferta global favorece o açúcar brasileiro

Na União Europeia, a quebra nas lavouras de beterraba deve reduzir a produção de açúcar em mais de 3 milhões de toneladas na safra 2026/27, conforme as estimativas citadas pela StoneX. Com menos produto disponível, o bloco tende a ampliar as importações e reduzir seu excedente exportável.

Na Ásia, as perspectivas também são de restrição da oferta. A Índia enfrenta os efeitos de uma temporada de monções com déficit hídrico de 13%, segundo os dados apresentados pelo analista, com impactos importantes nas áreas canavieiras do sul e do oeste do país.

Para preservar o abastecimento doméstico de açúcar, a expectativa é que o país não produza etanol de cana na safra 2026/27. No ciclo anterior, a produção indiana desse biocombustível chegou a aproximadamente 2,7 bilhões de litros.

A Tailândia, por sua vez, poderá registrar uma queda de 2 milhões a 3 milhões de toneladas na produção de açúcar. Após produzir 12 milhões de toneladas em 2025/26, o país deve reduzir sua disponibilidade para exportação em cerca de 2 milhões de toneladas.

“Tailândia, que é um grande exportador, vai então deixar de exportar 2 milhões de toneladas de açúcar, e é um número relevante pensando, por exemplo, no impacto que já vai vir pela União Europeia”, explica Di Bonifacio Filho.

Com a redução da oferta desses fornecedores, o Brasil ganha espaço para atender à demanda internacional. A menor disponibilidade de açúcar branco no Hemisfério Norte também pode aumentar a necessidade de matéria-prima para as refinarias, favorecendo a procura pelo açúcar bruto brasileiro, conhecido como VHP.

Fundos 

A expectativa de menor oferta mundial já se reflete no posicionamento dos investidores. De acordo com a StoneX, em 28 de julho os fundos mantinham uma posição líquida vendida de 120 mil lotes de açúcar. Na semana de 13 de outubro, haviam revertido essa posição para 228 mil lotes líquidos comprados.

A mudança ocorreu após as cotações iniciarem um movimento de recuperação na primeira semana de agosto, depois de negociações próximas de 14 centavos de dólar por libra-peso.

Para o analista, o principal motor dessa valorização é a aposta dos especuladores em um déficit global de açúcar na safra 2026/27, em contraste com o cenário observado no ciclo anterior.

“Essa é a primeira explicação e principal motor das altas do açúcar bruto, e está pautada especialmente pela visão de déficit no mercado açucareiro global na nova safra 2026/27”, avalia.

O El Niño está no centro dessas preocupações por seus efeitos sobre diferentes regiões produtoras. Na Índia e na Tailândia, o fenômeno aumenta os riscos relacionados à disponibilidade de água e ao desenvolvimento das lavouras. Na União Europeia, as condições secas e quentes também estão entre os fatores acompanhados pelo mercado.

Chuvas no Centro-Sul reduzem oferta no curto prazo

No Brasil, as chuvas acima da média no Centro-Sul acrescentam pressão à oferta no curto prazo. O excesso de umidade dificulta o avanço da colheita, pode reduzir o ATR da cana e prejudicar o mix de produção das usinas, diminuindo a quantidade de açúcar disponível para exportação no último trimestre de 2026.

Parte da matéria-prima que não for colhida neste ano poderá ficar para a próxima safra, elevando o volume de cana bisada. Esse cenário reforça a preocupação com a disponibilidade imediata do produto brasileiro.

Apesar disso, Di Bonifacio Filho considera que o clima no Centro-Sul funciona como um fator adicional de sustentação das cotações, e não como a principal justificativa para a alta.

“Esse cenário chuvoso no Centro-Sul é um fator que reforça as altas em Nova Iorque. Não acho que seja o fundamento principal, funciona como suporte para as altas”, afirma.

Safra seguinte pode aumentar a oferta brasileira

Embora a perspectiva de curto e médio prazo favoreça os preços, o cenário projetado para a safra 2027/28 do Centro-Sul pode exercer pressão baixista mais adiante.

A StoneX estima uma produção de 662 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na região, com potencial de aumento de pelo menos 4 milhões de toneladas na produção de açúcar. Se confirmadas, as projeções indicam uma oferta brasileira mais robusta no próximo ciclo.

Para o analista, o mercado já começa a incorporar essa perspectiva aos preços. Ainda assim, o desempenho da safra dependerá das condições climáticas, do avanço da colheita e da capacidade das usinas de processar a cana disponível.

O desafio para o Brasil será aproveitar a maior demanda internacional e, ao mesmo tempo, cumprir as expectativas de produção. Com concorrentes importantes enfrentando perdas, a disponibilidade brasileira tende a ganhar ainda mais peso na formação dos preços e no abastecimento mundial de açúcar em 2027.

Fonte: Notícias Agrícolas

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Açúcar reage nas bolsas após projeção de déficit global saltar para 6,3 milhões de toneladas
Conferência Internacional DATAGRO reúne líderes do setor para debater futuro do açúcar, etanol e biocombustíveis
Brasil pode responder por 73% das exportações globais de açúcar bruto e ampliar protagonismo em 2027
Com expectativa de mix mais alcooleiro, moagem da safra de cana 2026-2027 do Norte-Nordeste atinge 16,7% do previsto
Déficit no mercado global de açúcar deve crescer acentuadamente, diz analista
Açúcar/Cepea: Menor oferta e alta externa impulsionam preços do cristal