Abertura "açucareira" cubana vai depender de regras e embargos

Publicado em 21/05/2010 08:45 879 exibições
Agroenergia: País é impedido de vender açúcar dentro da cota americana, que paga até 40% mais que mercado
Apesar de abrir boas perspectivas de investimento para grupos sucroalcooleiros estrangeiros, inclusive brasileiros, a reestruturação do setor açucareiro de Cuba, em curso, ainda é motivo de incertezas que tendem a deixar qualquer plano concreto para um futuro não tão imediato.

Com condições excepcionais de clima e solo para o plantio de canaviais, tradição em pesquisa e exportação e uma localização geográfica invejável, Cuba atrai potenciais interessados não só pelo açúcar, mas também pelo etanol. Em contrapartida, dizem fontes ligadas ao setor no Brasil, questões relacionadas à regulação do mercado na ilha e embargos comerciais liderados pelos EUA ainda esfriam mesmo os mais entusiasmados.

A 140 quilômetros da costa americana, Cuba parece estar abrindo de vez seu setor canavieiro, que chegou a ser o maior exportador mundial de açúcar. No auge, na década de 80, a ilha produzia 8 milhões de toneladas de açúcar por safra, mas veio a dissolução da URSS, até então sua maior parceira, e o derretimento começou.

Em 2010, mais de dez anos após o fim do apoio soviético - que comprava açúcar cubano a preços bem acima dos praticados no mercado e vendia petróleo a valores abaixo das cotações mundiais - , Cuba deverá produzir 1,3 milhão de toneladas. Daí a necessidade de abertura a investidores privados, inclusive estrangeiros.

Cuba já teve mais de 170 usinas de açúcar, mas até 2002 fechou 71. Na safra passada, apenas 44 rodaram, segundo a Organização Internacional do Açúcar (OIA). Outras 20 estão sendo mantidas em condições de funcionamento para utilização no futuro - mas de acordo com especialistas, pouco há de aproveitável nas antigas estruturas do envelhecido parque industrial cubano.

Somente para retomar a produção de 8 milhões de toneladas de açúcar, seria preciso reconstruir um parque industrial capaz de processar 60 milhões de toneladas de cana - ou seja, implantar uma estrutura com tamanho equivalente ao da brasileira Cosan, líder global do setor. Só o investimento industrial é estimado em R$ 12 bilhões - considerando um custo médio de R$ 200 por tonelada de processamento implantada.

Luiz Custódio Martins, que dirigiu por três anos o hoje extinto Geplacea (Grupo Executivo dos Países Latino-Americanos e do Caribe Exportadores de Açúcar), diz que os empresários no Brasil estão com um olho na forma como o governo cubano vai liberar a entrada de capital estrangeiro no ramo, incluindo açúcar, etanol e energia, e outro no fim do embargo de Washington ao país caribenho.

Custódio, que preside o Siamig, entidade que reúne os usineiros de Minas Gerais, reconhece o potencial agrícola, científico e logístico de Cuba, e sustenta que são armas importantes para atrair investimentos. "Mas o embargo americano terá de acabar. Além disso, em três anos os EUA terão que importar etanol de segunda geração. E o de cana não tem hoje concorrentes nessa categoria". Em 2009, Custódio fez sua 34ª viagem a Cuba, mas em decorrência de outras parcerias.

Além de ressuscitar sua indústria açucareira, o governo cubano sinaliza que quer, sim, diversificar o uso da cana-de-açúcar nos moldes brasileiros, com produção de etanol e cogeração de energia a partir do bagaço. A eletricidade que serve à população cubana é gerada a partir de fontes fósseis, e também são fósseis os combustíveis dos veículos.

Foi de olho neste potencial que a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) iniciou um estudo de mercado para implantar um projeto de cogeração em Cuba. A empresa não forneceu mais detalhes sobre a iniciativa, por estar ainda em fase incipiente, mas confirmou a existência do estudo, segundo informou sua assessoria.

À disposição de interessados brasileiros está, desde 2008, uma linha de crédito de US$ 600 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para investimentos em Cuba, dividida em quatro tranches de R$ 150 milhões. Foram recursos usados em exportações brasileiras de colheitadeiras e caminhões para a cultura da cana e de arroz, além de algumas operações no setor de fármacos.

Os recursos de 2010 e 2011 serão integralmente usados nas obras do porto de Mariel, a cargo da Odebrecht. "As relações entre os governos de Brasil e Cuba são favoráveis a essa parceria e os bancos estatais têm linhas de exportação de bens e serviços que podem viabilizar esses investimentos no futuro", afirma Custódio. É esperar para ver.

Fonte:
Valor Econômico

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