Mercado de açúcar: TRÊS BILHÕES DE DÓLARES POR ÁGUA ABAIXO

Publicado em 15/11/2010 17:55
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O mercado de açúcar teve a maior queda em dois dias desde que foi inaugurado em 1961. Também foi a maior liquidação dos últimos 30 anos. Os preços derreteram 120 dólares por tonelada na semana, num estrago que fez desaparecer, num piscar de olhos, 3,3 bilhões de dólares. Essa foi a maior queda numa semana desde março de 1980 quando o mercado caiu 123 dólares por tonelada. Agora é sentar e lamber as feridas. E nós já vimos esse filme antes.


Uma enxurrada de notícias ruins combinada com uma desastrosa alteração na margem de garantia pedida pela ICE só pioraram as coisas uma vez que hedgers e specs tiveram que ajustar suas posições para atender às novas necessidades de margem. Um aumento de 65% não precisava ser feito de uma talagada só, poderia ter sido ministrado em doses homeopáticas desde que o mercado começou a subir há algumas. Uma alteração dessa magnitude de supetão e de uma só vez distorce o mercado com maior rapidez, traz instabilidade e consequente aumento de volatilidade que é exatamente o que a bolsa deveria trabalhar para evitar. 

É óbvio que o aumento da volatilidade afeta a margem de garantia. A margem de garantia serve principalmente como colchão a ser utilizado caso haja falta de pagamento dos ajustes diários. Mas faça o cálculo: pegue a volatilidade anualizada do mercado de 55%, divida pela raiz de 252 (que são os dias de pregão por ano), isso dá uma volatilidade de 3,46% ao dia. Multiplique por dois para usarmos dois desvios padrão e assim cobrirmos 95% dos eventos. Isso dá 6,93%. Agora multiplique isso pelo valor de 1 contrato de açúcar (112.000 libra-peso vezes 30 centavos de dólar = US$ 33.600). Dá US$ 2.400. Eles subiram para US$ 3.550 e vão subir segunda-feira novamente para US$ 3.900. Pioraram as coisas ao fazerem da chamada de margem causa e não consequência. Aumentam o estresse ao invés de diminuí-lo. 

No cenário macro, a preocupação de ajustes na economia chinesa fez com que as commodities despencassem nas principais bolsas do planeta. A alta da inflação na China (4,4% anual) pode fazer com que o governo chinês aumente as taxas de juro, com isso haveria uma redução na demanda. Para conter a inflação o governo vendeu estoques de algodão, cobre e há informação de que pode também vender soja e açúcar. A reação dos investidores foi de pânico acentuado como ocorre em situações assim. Não apenas o açúcar fechou em queda livre, mas também aveia, milho e trigo derreteram 9%.

No cenário fundamentalista do açúcar, entra no enredo a notícia sobre a possibilidade de o governo indiano autorizar uma exportação de 3,5 milhões de toneladas, um acréscimo de um milhão em relação ao que o mercado esperava. Muito pouco para esse estrago todo. Pense: a queda nominal do mercado em 3,3 bilhões de dólares daria para comprar ao fechamento de sexta-feira mais de 5 milhões de toneladas de açúcar. Alguma coisa não bate nesse pânico todo. O negócio é esfriar a cabeça e repensar a estratégia, pois o mercado continua construtivo do ponto de vista fundamentalista uma vez que as questões principais não estão e não serão resolvidas da noite para o dia. Nós ainda vamos precisar de 55 milhões de toneladas de cana a mais no ano que vem e nós não vamos tê-las, portanto, assim que o vendaval passar o mercado deve lembrar-se disso novamente.

Fica um gosto amargo na boca de quem esperava preços mais altos para fazer seu hedge. A gente parece não aprender nunca, não é mesmo? No entanto, não havia como fazer hedge sem lastro financeiro. É por isso que pouco hedge foi feito comparativamente às oportunidades que vimos passar por nossos olhos como éguas da crina dourada. Segundo o modelo da Archer Consulting, o total de fixações para a safra 2011/2012 está entre 4,954 e 6,192 milhões de toneladas ao preço médio de 21,09 centavos de dólar por libra-peso.

Os fundamentos continuam firmes apesar dos fatores exógenos. O Brasil continua sendo o maior responsável para atender a demanda mundial de açúcar bruto e as perspectivas para 2011 são positivas. Se você conseguir se convencer a não se jogar do topo do prédio onde trabalha e aguardar 2011 vai dar risada desses momentos funestos. Se não conseguir, eu sinto muito pela sua alma.

Não esqueça uma coisa importante: ainda com todo o colapso da semana, baseado no fechamento, a liquidação média para a safra 2011/2012 é equivalente a R$ 36,5507 por saca posto usina, sem custo financeiro. Ou seja, um retorno de 29% sobre o custo de produção.

O inferno astral atingiu em cheio o Fundo Fictício da Archer Consulting. Ajustamos a posição vendendo 200 lotes a 26,47. No entanto estamos long no delta equivalente a 384 lotes. Fechamos a semana com um prejuízo de US$ 1.084.199,74 dos quais, pelo menos US$ 600.000, referem-se ao aumento da volatilidade. Nosso lucro acumulado baixou para US$ 2.994.444,04 com retorno anualizado de 110,41%. Vamos zerar o long vendendo calls (opções de compra) de preço de exercício 25 centavos de dólar por libra-peso. O mundo é cruel.

Boa semana para todos.

Arnaldo Luiz Corrêa

Fonte: Archer Consulting

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