Preço da gasolina deixa etanol em encruzilhada, dizem especialistas

Publicado em 08/06/2011 08:51 420 exibições
Os preços controlados da gasolina no Brasil desafiam a indústria sucroalcooleira no momento em que o setor se debate para aumentar as margens de lucro em meio a custos crescentes, de acordo com especialistas reunidos no Ethanol Summit.

Perto de um limite no curto prazo para aumentar produtividades agrícola e industrial, as usinas sofrem restrições para realizar os necessários investimentos, em meio a previsões de que a oferta do biocombustível novamente será apertada este ano no Brasil, um país que vislumbra ser fornecedor global.

"Obviamente que sempre é possível ganhar produtividade, mas grandes ganhos de produtividades agrícolas e industriais nós já esgotamos... E temos um problema sério..., que é a decisão política de não se elevar o preço do derivado de petróleo", afirmou Maurílio Biagi Filho, uma das autoridades em etanol, durante o Ethanol Summit.

"Essa é a grande encruzilhada do setor, não adianta a gente ficar discutindo uma série de outras coisas se tem uma coisa que é básica neste momento", complementou. No Brasil, o governo pressiona a Petrobras para evitar o repasse do aumento de preços do petróleo para o mercado interno, a fim de evitar um descontrole da inflação.

Segundo o empresário Biagi Filho, conselheiro da Unica e presidente da Usina Aroeira, e um dos formuladores do Pró-Álcool, antes o setor conseguia ser competitivo com a gasolina com um custo de R$ 0,50, depois passou para R$ 0,70 e até a R$ 0,90 para o etanol. Mas os gastos dobraram, disse ele.

"Temos objetivamente um problema, o de que começamos a bater no teto, no preço da gasolina... Hoje se não vendemos na usina entre R$ 1 e R$ 1,20, nós perdemos dinheiro, quando o preço do etanol abaixa disso, perdemos dinheiro, esse é o grande problema, e pra vender a R$ 1,20 na usina, tem que vender no posto a R$ 1,7, R$ 1,8 o l", completou.

O governo vem discutindo como setor privado planos de curto, médio e longo prazos para garantir uma estabilidade no fornecimento do biocombustível, evitando disparadas de preços como as verificadas durante a última entressafra.

Limites
Segundo o professor da USP especialista em Energia e ex-ministro do Meio Ambiente, José Goldemberg, no passado o setor conseguiu tirar vantagens e amenizar altas de custos com o contínuo aumento de produtividade, que cresceu 3% ao ano durante 30 anos. Mas, agora, há limites para elevar a colheita de cana por hectare no curto prazo, explicou.

"Há 30 anos, de um hectare tirava-se 3 mil l de etanol, hoje tira 7 mil l. Isso se deve a melhorias na área agrícola e melhoria no processo industrial. No processo industrial, isso já foi otimizado. Onde existe espaço pra melhorar é na área agrícola, mas isso pode exigir modificações genéticas", disse Goldemberg antes de sua palestra, acrescentando que canas geneticamente modificadas, mais produtivas, só devem chegar ao mercado em no mínimo cinco anos.

"Teoricamente, (a biotecnologia) pode aumentar a eficiência agrícola em pelo menos 50%", declarou o especialista, comentando que, no curto prazo, as empresas deveriam buscar variedades de cana convencionais mais produtivas como forma de ganhar rentabilidade.

"Alguma variedades produzem 10 mil l de etanol por hectare, e outras produzem 6 mil l."

Mais usinas
Para o governo, "a primeira providência" é proporcionar melhores margens ao setor. "Como sabemos que temos os preços da gasolina administrados, precisamos trabalhar a redução de custos, porque a sociedade brasileira valoriza a estabilidade de preços, então temos que agir na questão do custo", disse o secretário de Produção e Agroenergia do Ministério da Agricultura, Manoel Bertone, durante o Ethanol Summit.

Segundo ele, o setor privado também precisa realizar melhorias de sistemas, ampliar eficiências de gestão e realizar investimentos em tecnologias, enquanto o governo deve investir em infraestrutura e trabalhar em temas como a "insegurança jurídica que paira ainda sobre questões ambientais."

De acordo com o secretário, o plano trabalhado pelo governo considera que o Brasil precisaria viabilizar 15 usinas por ano, cada uma com capacidade de 3,6 milhões de t, contra somente cinco projetos inaugurados neste ano.

"Precisamos criar novamente um ambiente propício ao investimento."

Fonte:
Reuters

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