Após criação de grupo sobre El Niño, especialistas defendem política permanente de gestão de risco

Publicado em 02/07/2026 07:30 e atualizado em 03/07/2026 10:24
Analistas avaliam que a criação do grupo tem caráter mais institucional e defendem o fortalecimento do seguro rural, da prevenção e de instrumentos permanentes para enfrentar eventos climáticos extremos

A criação do grupo de trabalho do governo federal para monitorar os impactos do fenômeno El Niño sobre a agropecuária brasileira foi recebida com cautela por especialistas do setor. Embora reconheçam que a iniciativa representa um avanço no planejamento e na preparação para possíveis eventos climáticos extremos, a avaliação predominante é de que a medida tem caráter mais institucional do que prático e precisa ser acompanhada por mudanças estruturais na política de gestão de riscos do agronegócio.

O grupo, anunciado na última terça-feira (30) durante o lançamento do Plano Safra 2026/27, reúne o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Embrapa. A missão será identificar regiões e cadeias produtivas mais vulneráveis ao El Niño e propor ações de mitigação, adaptação e proteção aos produtores.

Para o fundador da Plataforma Agrometrika e consultor do Grupo Aliare, Fernando Pimentel, a iniciativa é válida por permitir que o Estado se organize diante de um cenário de risco, mas ainda se trata de uma ação baseada em probabilidades.

"Considero fundamental que o Estado brasileiro se antecipe e construa um plano de ação caso o fenômeno realmente se confirme da forma como vem sendo projetado." 

Na mesma linha, o pesquisador da Agroicone Gustavo Lobo considera que o grupo pode abrir espaço para uma discussão mais ampla sobre a política agrícola brasileira. Segundo ele, o país não deve limitar o debate apenas ao El Niño, mas aproveitar a oportunidade para rever toda a estrutura de gestão de riscos climáticos.

"Essa iniciativa também precisa ser aproveitada como uma oportunidade para repensar os instrumentos de gestão de risco da política agrícola. Se discutirmos apenas o El Niño e esquecermos que outros eventos climáticos podem ocorrer nos próximos anos, estaremos perdendo uma oportunidade importante de reestruturar esse sistema. A gestão de risco na propriedade rural precisa ser vista de forma integrada, combinando boas práticas de manejo, que aumentam a resiliência da produção, com instrumentos como seguro rural e até novos mecanismos, como fundos de catástrofe, para proteger o produtor diante de eventos extremos”, afirmou. 

Já o diretor da Agroeasy Consultoria  Jânio Zeferino avalia que a criação do grupo ocorre em um momento tardio. Para ele, o monitoramento dos riscos climáticos deveria ser uma política permanente, e não uma resposta diante da possibilidade de ocorrência de um fenômeno já amplamente previsto pelos serviços meteorológicos.

“O que a gente espera, antes de tudo, é que esse cenário não se concretize. Mas, se ocorrer, é fundamental que as autoridades tenham sensibilidade e agilidade para prestar socorro às pessoas. Infelizmente, quando eventos dessa magnitude acontecem, os danos à agricultura e à economia, em muitos casos, já não podem ser totalmente mitigados." 

Seguro rural volta ao centro do debate

O anúncio do Plano Safra 2026/27, que destinou R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial, gerou críticas entre entidades representativas do agronegócio e da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

Embora o governo tenha destacado o crescimento de R$ 9 bilhões em relação ao ciclo anterior e a redução das taxas de juros em algumas linhas de crédito, representantes do setor avaliam que o programa ficou aquém das necessidades do campo, principalmente diante do elevado endividamento dos produtores e da redução dos recursos subvencionados.

Nas redes sociais, a bancada reforçou as críticas. “Em vez de reforçar a proteção de quem produz, o governo reduz um dos principais instrumentos de segurança para o campo. Sem Seguro Rural, o produtor fica mais vulnerável. O endividamento cresce, os investimentos caem e a conta pode chegar ao consumidor, com alimentos mais caros e menor segurança no abastecimento.” 

Por: Andréia Marques
Fonte: Notícias Agrícolas

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