Incêndio na França obriga milhares a fugir; alto risco de incêndio persiste em Europa cada vez mais quente
Por Stephane Mahe
LEGE-CAP FERRET, França, 23 Jul (Reuters) - Um incêndio florestal que avança rapidamente forçou mais de 10 mil pessoas a abandonarem suas casas e os campings de turismo onde estavam hospedados próximos à costa atlântica da França, enquanto o calor extremo e a seca cada vez mais severa alimentavam incêndios por toda a Europa e cientistas alertavam que as mudanças climáticas estão agravando a escassez de água no continente.
Em toda a Europa, três ondas de calor consecutivas nesta temporada intensificaram a seca, sobrecarregaram o abastecimento de água e deixaram a vegetação extremamente seca, contribuindo para que os incêndios florestais já tenham queimado mais terras neste ano do que a média anual das últimas duas décadas no continente que mais rapidamente se aquece no mundo. A situação também foi responsável por milhares de mortes.
Mais de 10.000 pessoas foram retiradas durante a madrugada no sudoeste da França, enquanto um incêndio florestal que se espalhava rapidamente devastou pelo menos 2.400 hectares de terra a oeste da cidade de Bordeaux, informaram autoridades nesta quinta-feira.
Quinhentos bombeiros estão lutando para controlar o incêndio, informou a prefeitura, acrescentando que ninguém ficou ferido até o momento.
O incêndio está localizado próximo à área da Baía de Arcachon, um ponto turístico muito procurado, e muitos dos retirados são visitantes hospedados em campings. “Durante a noite, o fogo se espalhou mais rapidamente do que imaginávamos”, disse Philippe de Gonneville, prefeito de Lège-Cap Ferret.
Na vizinha Espanha, as autoridades ainda trabalhavam para extinguir incêndios que já duravam vários dias, enquanto na Itália, um bombeiro de 59 anos morreu após passar mal enquanto combatia um grande incêndio florestal perto de San Cataldo, na Sicília.
CÉU FICOU “VERMELHO. PRETO E VERMELHO”.
A península de Cap Ferret, frequentemente comparada aos luxuosos Hamptons, nos Estados Unidos, abriga algumas das propriedades mais caras da França, para onde parisienses e bordelenses abastados vão para saborear vinho branco e se deliciar com ostras.
Lège é a única das 11 vilas da península que está atualmente ameaçada pelo incêndio, mas Gonneville disse que as autoridades retiraram 5.200 pessoas durante a noite. Ele afirmou que o acesso está completamente bloqueado e que há planos de contingência em vigor para esvaziar toda a península tanto por terra quanto por mar, se necessário.
O incêndio já havia chegado aos limites de Lège, forçando a retirada de vários campings e bairros próximos à floresta.
“Nos mudamos para cá há dois anos e meio porque é um lugar encantador, e não sabemos o que vamos encontrar quando voltarmos”, disse Jeanine Clarke, de 46 anos, retirada para um centro de acolhimento próximo com sua família e seu cachorro.
A campista Elizabeth Carron contou que estava jantando quando avistou as chamas. “O céu ficou vermelho. Preto e vermelho. Então, aos poucos, começamos a sentir o cheiro. Havia cinzas no carro, no trailer, na barraquinha dos meus netos. Duas horas depois, nos aconselharam a ir embora.”
Os incêndios florestais continuaram a ser um grande desafio em toda a Espanha nesta quinta-feira, com as autoridades combatendo vários incêndios de grande magnitude.
A ADIF, operadora da infraestrutura ferroviária da Espanha, informou que o tráfego ferroviário entre Mejorada del Campo e Alcalá de Henares, perto de Madri, havia sido suspenso devido a um incêndio florestal próximo aos trilhos. A interrupção afetou os serviços na linha ferroviária de alta velocidade que liga Madri a Barcelona, um dos corredores de transporte mais movimentados do país.
Em toda a região central da Espanha, bombeiros, equipes de emergência e unidades militares permaneceram mobilizados enquanto as autoridades monitoravam vários incêndios ativos, incluindo fogos em Guadalajara, Toledo, Ciudad Real e Albacete. Mais de 100 mil hectares foram queimados em todo o país até agora neste ano.
Mais de 10.000 mortes a mais foram registradas na Europa e no Reino Unido nas duas últimas ondas de calor recordes, em maio e no final de junho, com cientistas afirmando que a única razão plausível para esse número excepcionalmente alto de vítimas está relacionada ao calor. A Bélgica informou nesta quinta-feira que o dia 27 de junho — durante a onda de calor do mês passado — foi o segundo dia mais mortal do país no Século 21, com 650 mortes.
A Europa está sofrendo o impacto de um clima que se aquece rapidamente, com temperaturas subindo mais do que o dobro da média global. O Reuters Climate Monitor, uma ferramenta interativa que acompanha os padrões climáticos, mostrou que a temperatura máxima média na Europa Ocidental deve ser de 26,5 graus Celsius nesta quinta-feira, o que representa 2,9°C acima da temperatura máxima normal para 23 de julho no período de 1961 a 1990.
SECA ESTÁ ESGOTANDO OS RECURSOS HÍDRICOS
Vários países europeus estão sofrendo com a seca neste verão. A França teme ter sua menor safra de milho em 50 anos; a Romênia restringiu o acesso dos agricultores à água para irrigação, enquanto a Holanda declarou escassez hídrica. Proibições ao uso de mangueiras foram introduzidas em Londres, e sete ilhas gregas declararam estado de emergência para preservar a água.
Em um relatório divulgado nesta quinta-feira, cientistas afirmaram que as descobertas indicam que as mudanças climáticas estão alterando a forma como as secas se formam na Europa. A análise, realizada pelo grupo de cientistas climáticos World Weather Attribution, apontou que o calor extremo está acelerando a evaporação da água do solo.
Mas os desafios também estão levando as pessoas a pensar fora da caixa. Na região da Galícia, no noroeste da Espanha, as comunidades reintroduziram gado nativo para reequilibrar os ecossistemas e reduzir os incêndios florestais em uma área que foi o epicentro do pior ano de incêndios do país em 2025. Uma espécie específica de gado, a ágil Cachena — conhecida localmente como “vaca-cabra” —, foi agora empregada para devorar a vegetação rasteira, um verdadeiro barril de pólvora para incêndios.
(Reportagem de Stephane Mahé , Zhifan Liu, Dominique Vidalon, Gabriel Stargardter, Ingrid Melander, Ardee Napolitano e Charlotte van Campenhout, na França; Kate Abnett, em Bruxelas; Emma Pinedo, Victoria Waldersee e Miguel Vidal, na Espanha, e Alvise Armellini, na Itália)