Décadas de ganhos na produção agrícola e estoques fortalecem sistema alimentar diante do "super" El Niño

Publicado em 11/08/2026 13:33 e atualizado em 11/08/2026 14:07

 

Por Naveen Thukral e Mayank Bhardwaj

CINGAPURA/NOVA DÉLHI, 11 Ago (Reuters) - Estoques quase recordes, avanços tecnológicos e a ascensão de importantes exportadores, como o Brasil e a Rússia, tornaram o sistema alimentar global mais resiliente ao "super" El Niño deste ano, em relação a eventos climáticos semelhantes no passado.

A produção agrícola mundial tem superado o consumo e o crescimento populacional desde a década de 1980, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e analistas.

Essas mudanças foram impulsionadas por variedades de culturas de maior rendimento, maior uso de fertilizantes e melhorias na irrigação e na proteção das culturas, elevando a produtividade de alimentos básicos como arroz, trigo, milho e soja.

"Mesmo em condições de seca, uma melhor gestão da irrigação e os avanços na ciência agrícola significam que ainda podemos produzir safras comercializáveis", disse Andrew Whitelaw, da consultoria agrícola australiana Episode 3.

"Existe o impacto potencial sobre o abastecimento e os preços globais de alimentos, mas nossa melhor preparação significa que as perturbações são muito menos graves do que teriam sido nas décadas anteriores."

EL NIÑO GANHA FORÇA

A seca trazida pelo El Niño já prejudicou o plantio em grande parte da Ásia, incluindo Índia, Sudeste Asiático e Austrália, enquanto a escassez de fertilizantes e diesel causada pela guerra no Irã agrava os riscos à produção global de alimentos.

A Índia enfrenta uma estação de monções fraca, enquanto perspectivas de tempo mais seco pairam sobre as principais regiões produtoras de trigo da Austrália e as safras em todo o Sudeste Asiático, incluindo Indonésia e Tailândia, sofrem com a falta de umidade.

As perspectivas podem piorar, já que um El Niño, que já é forte, deve se intensificar no quarto trimestre e no início do próximo ano, disse Chris Hyde, meteorologista baseado nos EUA que trabalha na empresa de dados e imagens de satélite SkyFi.

"A expectativa é de que seja um dos mais fortes já registrados, ou o mais forte que o mundo já viu, e isso significa que o grande impacto da seca ainda está por vir."

Caracterizado pelo aquecimento das temperaturas da superfície do oceano no Pacífico oriental e central, o fenômeno climático El Niño costuma trazer seca para grande parte da Ásia e aumentar as chuvas em partes das Américas.

Nos anos de 1997-98 e 2015-16, episódios severos do El Niño reduziram drasticamente a produção de culturas importantes, alimentando a escassez de alimentos, a inflação e prejudicando o crescimento econômico.

Os preços do açúcar e do óleo de palma dispararam depois que a seca reduziu a produção nesses anos no Brasil, na Índia, na Indonésia, na Malásia e na Tailândia, enquanto a escassez de arroz levou os produtores do Sudeste Asiático a restringir as exportações.

A seca também reduziu as exportações de trigo da Austrália e forçou os países da África Austral a aumentar as importações de milho.

ESTOQUES RECORDES

Desta vez, estoques de grãos quase recordes, sementes resistentes à seca, melhores previsões meteorológicas, agricultura de precisão, irrigação aprimorada e o surgimento de novas potências exportadoras devem amenizar grande parte das consequências.

Na Índia, importante produtora agrícola, o plantio tem se mantido, em linhas gerais, dentro do previsto após superar um atraso inicial substancial, embora as chuvas em agosto e setembro sejam cruciais para a maturação e a formação dos grãos, disse Ashwini Bansod, vice-presidente de pesquisa de commodities da Phillip Capital India, em Mumbai.

No entanto, a Índia, responsável por 40% das exportações globais de arroz, possui tanto arroz que está esgotando o espaço de armazenamento para estoques equivalentes a mais de um ano do total das exportações globais.

Quase metade dos amplos estoques globais de trigo está nas mãos da China, maior produtora e consumidora mundial do grão, proporcionando uma reserva que deve ajudar a conter a demanda por importações caso a seca prejudique a produção na Austrália, principal fornecedora.

Os estoques globais de óleo de palma estão próximos de níveis historicamente altos, embora o agressivo programa de biodiesel da Indonésia provavelmente reduza os estoques nos próximos meses. O óleo de palma é responsável por cerca de 60% das exportações globais de óleo comestível.

EXPORTADORES: RÚSSIA, BRASIL

O surgimento de novos centros de exportação, que praticamente não existiam há algumas décadas, adicionou volumes significativos aos mercados globais.

O Brasil, por exemplo, tornou-se o maior fornecedor mundial de soja, com as exportações aumentando mais de 13 vezes desde 1997/98, enquanto os embarques de trigo da Rússia saltaram para 48 milhões de toneladas no ano passado, ante cerca de 1 milhão de toneladas em 1997/98.

Pesquisadores desenvolveram híbridos de milho tolerantes à seca, amplamente adotados na África e nas Américas desde 2015, ajudando os agricultores a manter a produtividade durante períodos de seca e chuvas irregulares.

Variedades de trigo tolerantes ao calor e à seca também ganharam espaço na Índia e na Austrália, onde avanços no melhoramento genético aumentaram a resiliência ao estresse hídrico e térmico, reduzindo o risco de perdas acentuadas causadas por condições climáticas adversas.

No Sul e Sudeste da Ásia, variedades de arroz de ciclo curto ajudam os agricultores a lidar com as chuvas de monção cada vez mais irregulares.

Os agricultores agora contam com um conjunto de ferramentas digitais que mal estavam disponíveis durante o evento do El Niño de 1997-98, desde o monitoramento de culturas por satélite e previsões climáticas sazonais até mapas de umidade do solo em alta resolução e aplicação de fertilizantes guiada por GPS, que lhes permitem direcionar os insumos de forma mais eficiente.

"Os governos têm informações muito melhores do que no passado e são capazes de se preparar com mais antecedência”, disse o economista-chefe da FAO, Máximo Torero, à Reuters.

"Nossas previsões e a transparência do mercado melhoraram."

Os agricultores estão aderindo em massa a plataformas de consultoria baseadas em inteligência artificial que integram previsões meteorológicas, dados do solo e informações sobre as culturas para fornecer recomendações oportunas sobre datas de plantio, irrigação, uso de fertilizantes e gerenciamento de pragas.

Fonte: Reuters

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