El Niño e calor recorde aumentam atenção para o clima no Brasil

Publicado em 26/08/2026 11:58 e atualizado em 26/08/2026 12:28
Combinação de um El Niño forte com o aquecimento dos oceanos e do planeta pode influenciar a distribuição das chuvas e elevar as temperaturas no Brasil nos próximos meses

O clima brasileiro está sendo influenciado por uma combinação de fatores que torna o comportamento das temperaturas e das chuvas mais difícil de antecipar. Entre eles estão o El Niño em forte intensidade, o aquecimento das águas do Pacífico e do Atlântico e as temperaturas elevadas do planeta.

A avaliação é do meteorologista Alexandre Nascimento, da Nottus, que chama atenção para um cenário diferente daquele observado em outros episódios de El Niño. Segundo ele, não é possível explicar o comportamento do clima apenas pela atuação do fenômeno no Pacífico.

“Essa combinação de várias coisas ao mesmo tempo acontecendo talvez explique essa chuva chegando mais cedo do que o normal e se espalhando pelo Brasil”, afirmou.

Pacífico próximo de 2°C acima da média

De acordo com Nascimento, o El Niño atual apresenta uma anomalia próxima de 2°C em relação à média, indicando uma condição de forte aquecimento das águas do Pacífico.

O meteorologista ressalta, porém, que o fenômeno precisa ser analisado em conjunto com outras variáveis. Além do Pacífico aquecido, as águas do Atlântico também apresentam temperaturas elevadas, enquanto a temperatura média global permanece acima dos padrões históricos.

“Estamos nesse momento com um El Niño muito quente, uma temperatura quase 2 graus do normal, e um planeta de forma geral bastante quente. E aí essa combinação nunca aconteceu na história recente”, explicou.

Planeta mais quente muda o cenário

Segundo ele, considerando praticamente todos os oceanos do planeta, com exceção das áreas próximas aos polos, a temperatura registrada em 23 de agosto deste ano ficou acima dos níveis observados no mesmo período desde 1979. 

O cenário é reforçado pelos dados do observatório europeu Copernicus. No sábado (22), a temperatura média da superfície dos oceanos chegou a 21,1°C, o maior valor diário registrado na série histórica do serviço climático europeu. O índice superou, por uma pequena margem, os 21,09°C registrados em março de 2024, até então o recorde. O monitoramento considera dados desde 1979, quando as medições por satélite passaram a permitir um acompanhamento mais preciso dos oceanos.

Na comparação, o meteorologista também chamou atenção para os anos de 2024 e 2025, que estão entre os mais quentes já registrados. Mesmo assim, segundo ele, a temperatura observada atualmente nos oceanos permanece acima desses referenciais.

“Essa aqui é a média, ou seja, o que seria mais ou menos dentro do normal. Aqui nós temos os dois anos que foram os mais quentes da história, 2024 e 2025. E a gente observa que a gente está aí cerca de um grau, meio grau mais ou menos mais quente do que o ano mais quente”, afirmou.

El Niño não explica sozinho o comportamento do clima

Para Nascimento, um dos principais pontos para compreender o cenário atual é evitar associações automáticas entre o El Niño e determinados padrões de chuva ou temperatura.

O meteorologista lembra que outros episódios do fenômeno ocorreram em condições diferentes de aquecimento global e de temperatura dos oceanos.

“Quando a gente olha, por exemplo, 2023 e 2024, que todo mundo fala que o El Niño foi forte, ele não foi forte. Ele foi um El Niño de fraca, moderada intensidade, porém o planeta já estava mais quente”, explicou.
Ele cita ainda o El Niño de 2015/16, quando a anomalia no Pacífico chegou a superar 3°C em determinados momentos.

“2015 e 2016 foram um ano de El Niño forte, muito forte. A anomalia momentaneamente superou a marca de 3 graus”, disse.

A diferença, segundo o meteorologista, está justamente na combinação entre o fenômeno e as condições atuais de aquecimento.

“Isso quando a gente combina com esse planeta mais quente, isso nunca aconteceu”, afirmou.

Aquecimento favorece extremos

A combinação de temperaturas elevadas no Pacífico e no Atlântico com o aquecimento global pode contribuir para um cenário de maior variabilidade no clima brasileiro, com alternância entre períodos muito quentes e episódios de chuva intensa.

Nascimento avalia que a atmosfera mais quente pode potencializar os eventos de chuva quando há disponibilidade de umidade.

“Quando a chuva chega, encontrando essa atmosfera extremamente quente, pode vir ventania, pode vir granizo”, alertou.

Ao mesmo tempo, o meteorologista reforça que o El Niño não determina sozinho o que acontecerá em cada região. A interação entre diferentes sistemas atmosféricos e oceânicos é fundamental para definir a distribuição das chuvas e das temperaturas.

“Existe uma combinação de vários fatores e é essa combinação que faz com que chova ou não chova”, afirmou.

Temperaturas devem continuar acima do normal

Para os próximos meses, a tendência indicada por Nascimento é de temperaturas acima da média principalmente no Centro-Norte do Brasil.

Segundo ele, o Sul pode registrar momentos de temperaturas mais baixas durante a primavera, enquanto áreas do Norte e Nordeste devem permanecer com temperaturas próximas ou acima do normal.

“De forma geral, André, é mais calor”, resumiu.

O cenário reforça a necessidade de acompanhamento constante das condições meteorológicas, especialmente para o setor agropecuário.

Para o produtor, a combinação de calor intenso, disponibilidade de umidade e ocorrência de chuvas irregulares pode representar tanto oportunidades para o plantio quanto riscos relacionados a eventos extremos.
 

Por: Andréia Marques
Fonte: Notícias Agrícolas

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