El Niño muda padrão de chuva e exige atenção do produtor para o plantio na primavera
O avanço de um El Niño de forte intensidade deve marcar a primavera de 2026 com uma distribuição bastante irregular das chuvas no Brasil. Segundo o terceiro boletim de monitoramento do fenômeno, divulgado nesta terça-feira (1º) pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em parceria com outros órgãos federais, há mais de 90% de probabilidade de que o trimestre setembro, outubro e novembro registre um evento muito forte.
Para o produtor rural, o principal ponto de atenção está justamente no contraste entre as regiões. Enquanto o Sul do Brasil, especialmente o Rio Grande do Sul, além de áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul, têm maior probabilidade de receber chuvas acima da média histórica, o Norte e o Nordeste devem enfrentar um trimestre mais seco.
Também há maior probabilidade de chuva abaixo do normal em partes do Brasil Central e do Sudeste, incluindo Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo.
As temperaturas, por outro lado, tendem a ficar acima da média em praticamente todo o país. Ainda assim, o Inmet ressalta que a entrada de massas de ar frio pode provocar quedas bruscas de temperatura ao longo de setembro.
Outro fator que pode modificar o comportamento esperado do fenômeno é a condição das águas do Oceano Atlântico. Alexandre destaca que o El Niño não atua sozinho na definição do regime de chuvas no Brasil.
Segundo ele, o comportamento das águas do Atlântico próximo à costa norte da América do Sul pode favorecer o posicionamento da Zona de Convergência Intertropical e, consequentemente, alterar parte dos impactos normalmente associados ao El Niño.
O meteorologista cita como exemplo janeiro de 2016, quando o Brasil registrou volumes elevados de chuva no Norte e Nordeste mesmo durante um dos episódios mais intensos de El Niño já observados.
"Às vezes as condições de Atlântico, ou outras variáveis, têm aí muita importância", explicou.
Por isso, a recomendação é evitar interpretações simplificadas de que um El Niño forte necessariamente produzirá o mesmo resultado em todas as regiões.
Chuva mais frequente no Centro-Sul pode favorecer início do plantio
A previsão de recorrência das frentes frias é um dos pontos que podem trazer impactos importantes para o campo nas próximas semanas.
Segundo Alexandre Nascimento, meteorologista e CEO da Nottus, novos sistemas devem avançar pelo Sul e alcançar áreas do Sudeste e Centro-Oeste.
"Praticamente, as áreas que foram atingidas dessa última frente fria vão receber outro sistema parecido em menos de 10 dias", afirmou.
De acordo com o meteorologista, uma segunda frente fria deve ganhar força entre os dias 10 e o fim da primeira quinzena de setembro, levando chuva para Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Sul de Minas, Triângulo Mineiro e Mato Grosso do Sul, além de áreas de Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre.
Para o produtor, a combinação entre chuva e períodos de sol pode ser positiva para o avanço do plantio.
Segundo o meteorologista, os intervalos de tempo firme são importantes para permitir a entrada de máquinas no campo, a realização de aplicações e o andamento do plantio escalonado.
Matopiba pode ter chuva, mas plantio exige cautela
Entre as regiões agrícolas que exigem atenção está o Matopiba, formado por áreas produtoras de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Embora o cenário seja de chuva abaixo da média em parte da região, Alexandre pondera que isso não significa necessariamente ausência de precipitações.
"A gente, em média, termina chovendo menos do que o normal, mas isso não quer dizer não chover", afirmou.
Segundo o meteorologista, a umidade deve avançar gradualmente para a região, principalmente entre o fim de outubro e novembro. A tendência, portanto, é de um plantio mais escalonado, dependendo da reposição de umidade no solo.
Alexandre recomenda atenção especial ao planejamento e às condições do solo antes da tomada de decisão.
"Não é um ano para o produtor arriscar. É um ano de prudência", reforçou.