Safra começa sob influência de El Niño forte e exige cautela do produtor

Publicado em 04/09/2026 11:03
Fenômeno deve intensificar os contrastes entre excesso de chuva no Sul e risco de estiagem e calor em áreas do Centro-Oeste, Norte e Nordeste

Com o fim do vazio sanitário se aproximando e o início do plantio em diferentes regiões do país, o produtor rural entra em uma nova safra sob a influência de um El Niño que já apresenta sinais de forte intensidade. O fenômeno climático deve aumentar os contrastes entre as regiões brasileiras, com excesso de chuva no Sul e possibilidade de períodos mais secos e quentes em áreas do Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

Segundo Fellipe Reis, consultor da EarthDaily, os efeitos do El Niño já podem ser observados no comportamento das chuvas, principalmente no Sul do Brasil. Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina vêm registrando volumes acima da média, cenário que exige atenção especialmente para o trigo e para as operações de implantação das culturas de verão.

“O que a gente observa é um impacto no Brasil, especialmente já bem característico do El Niño. No Brasil, a gente já observa chuvas bem acima da média no Rio Grande do Sul, especialmente, mas também no Paraná e Santa Catarina”, afirma Reis.

Excesso de chuva no Sul

O Rio Grande do Sul é hoje uma das áreas que mais concentram os impactos do fenômeno. De acordo com o especialista, os volumes registrados desde julho ficaram significativamente acima da média histórica.

Em julho, a precipitação no estado chegou a quase o dobro do normal. Em agosto, o cenário de excesso de chuva voltou a se repetir, enquanto os primeiros dias de setembro apresentaram volumes mais moderados.

A redução momentânea das chuvas é considerada positiva, principalmente porque o solo precisa apresentar condições adequadas para o avanço das operações agrícolas. O excesso de umidade, além de dificultar a entrada de máquinas, aumenta o risco de doenças e pode comprometer o potencial produtivo das lavouras.

“Quando chove muito, você tem um solo muito úmido, isso facilita a disseminação de doenças, você tem uma menor radiação solar. A planta não precisa de água, mas, em um determinado nível, acima disso, pode ser prejudicial e também ela precisa de radiação solar”, explica.

O histórico também reforça a preocupação. Reis lembra que, durante um El Niño forte em 2015, o Rio Grande do Sul registrou uma quebra de aproximadamente 30% na safra. Para este ano, caso um cenário semelhante ou ainda mais severo se confirme, as perdas podem ser expressivas.

“Se isso se consolidar esse ano, ou for até mais intenso do que isso, já que o El Niño deve ser mais intenso neste segundo semestre do que foi no segundo semestre de 2015, o Rio Grande do Sul pode perder de 200 mil toneladas até 1 milhão de toneladas, apenas com a sua menor produtividade”, estima.

O Paraná também exige atenção. Além da continuidade das chuvas, o Estado começa a entrar no período de implantação da soja em algumas regiões.

“Cada produtor deve se atentar à sua previsão climática, da sua região, da sua cidade, da sua propriedade, para que ele não tenha nenhum problema quanto às operações de campo, pelo menos nesse curto prazo”, orienta.

Ao mesmo tempo, o especialista avalia que uma implantação mais antecipada, quando as condições permitirem, pode ser uma estratégia para reduzir a exposição das lavouras aos efeitos de um El Niño mais intenso posteriormente.

Mato Grosso tem cenário diferente

Enquanto o Sul enfrenta excesso de água, o Mato Grosso chega ao início da nova safra com um quadro oposto: a umidade do solo permanece abaixo da média.

Segundo Reis, até o fim de agosto o estado apresentava um dos menores níveis de umidade do solo dos últimos 30 anos. A previsão de chuvas para os próximos dias, no entanto, deve melhorar as condições para o início do plantio da soja.

A janela de plantio começa em 7 de setembro no Estado, e as chuvas previstas podem ser suficientes para permitir a implantação das primeiras áreas.

O cenário, porém, exige cautela. Uma chuva pontual pode garantir a emergência inicial da cultura, mas, caso a precipitação não tenha continuidade, o produtor pode enfrentar problemas posteriormente.

“Talvez a melhor estratégia para Mato Grosso, especificamente, seja acompanhar as chuvas que devem ocorrer em meados da próxima semana e ver se há uma continuidade dessas chuvas”, recomenda.

Apesar da melhora, a umidade ainda deve permanecer abaixo da média por algum tempo. E esse é um dos principais pontos de atenção para a produção nacional de soja, já que Mato Grosso é o maior produtor brasileiro da oleaginosa.

Norte, Nordeste e Centro-Oeste podem enfrentar seca e calor

O comportamento do El Niño também pode trazer efeitos importantes para regiões onde a preocupação não é o excesso de chuva, mas justamente a falta dela.

Reis chama atenção para áreas do Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste, que podem registrar períodos prolongados de estiagem associados a temperaturas elevadas. A combinação é especialmente preocupante porque o calor aumenta a evapotranspiração e acelera a perda de água do solo.

Na Bahia, por exemplo, a umidade do solo também está baixa. O cenário ainda não configura necessariamente uma quebra de safra, mas uma permanência prolongada das condições secas poderia aumentar os riscos para as lavouras.

“Não é apenas falta de chuva. Também é a alta temperatura. A alta temperatura aumenta a evapotranspiração. E é exatamente o que o El Niño resulta nessa região: tanto seca quanto calor. Então, a associação desses dois fatores faz com que a umidade do solo permaneça muito baixa”, explica.

El Niño pode ganhar força e aumentar os riscos para a nova safra no Brasil.

Fenômeno é forte, mas impactos ainda precisam ser acompanhados

Dados de diferentes centros meteorológicos apontam para um El Niño de forte intensidade. Ainda assim, o especialista recomenda cautela antes de projetar perdas generalizadas para a safra brasileira.

“É cedo para afirmar que esse é o caminho que nós iremos ter de percorrer pelos próximos meses”, pondera.

Segundo ele, o comportamento do fenômeno não é necessariamente igual em todas as regiões produtoras do mundo. A Austrália, por exemplo, apresenta atualmente condições favoráveis para o trigo, mesmo sob a influência do El Niño.

Por isso, a recomendação é acompanhar a evolução das condições de chuva, temperatura e umidade do solo ao longo das próximas semanas.

“É acompanhando semana a semana, quinzena a quinzena, e assim é o mais seguro que a gente consegue traçar, pelo menos por enquanto”, afirma.
 

Por: Andréia Marques
Fonte: Notícias Agrícolas

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