Chuvas reduzem qualidade da cana, pressionam produção de açúcar e desafiam produtor no campo

Publicado em 08/10/2026 14:37 e atualizado em 09/10/2026 07:25
Excesso de chuvas reduz o ATR, dificulta a colheita e pode deixar até 35 milhões de toneladas de cana para a próxima safra, pressionando a produção de açúcar e o planejamento do produtor.

As chuvas frequentes no Centro-Sul do Brasil estão impondo uma série de obstáculos à safra 2026/27 de cana-de-açúcar. Além de dificultar a colheita e comprometer o ritmo de moagem das usinas, o excesso de umidade reduz a concentração de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) na matéria-prima, o que pode diminuir a produção de açúcar e favorecer a fabricação de etanol.

O cenário também traz consequências para o planejamento agrícola, com o risco de uma parcela expressiva da cana permanecer no campo até o próximo ciclo. 

Em entrevista ao Notícias Agrícolas, João Baggio, CEO da G7 Agro Consultoria Comércio Exterior, avalia que a continuidade das chuvas pode ampliar os impactos sobre a produção. Segundo ele, estimativas do setor apontam que entre 30 milhões e 35 milhões de toneladas de cana podem ser transferidas para a safra 2027/28, volume que ainda poderá crescer caso as condições climáticas persistam.

O aumento da umidade nos canaviais interfere diretamente na qualidade da matéria-prima que chega às usinas. Com maior presença de água na cana, a concentração de ATR diminui, reduzindo o potencial de produção de açúcar por tonelada processada.

Nesse contexto, as unidades industriais precisam reavaliar a proporção entre açúcar e etanol no mix de produção. 

“Com uma cana mais aguada, o rendimento por tonelada em quilos de açúcar é menor. A usina vai fazer as contas para avaliar o que compensa mais: produzir etanol ou açúcar”, explica.

A mudança, porém, não significa que o etanol esteja livre dos efeitos do clima. O consultor ressalta que a redução da qualidade da matéria-prima também afeta o rendimento da produção de biocombustível. A decisão industrial consiste em identificar a alternativa que permita reduzir as perdas diante das condições da cana disponível.

A expectativa de maior direcionamento da matéria-prima para o etanol também encontra respaldo no consumo aquecido do biocombustível, segundo Baggio. Para ele, a combinação entre a demanda pelo etanol e a redução da disponibilidade de açúcar contribui para sustentar os preços nos mercados interno e externo.

Moagem perde ritmo 

Os efeitos das chuvas já aparecem nos números da moagem do Centro-Sul. Dados do Ministério da Agricultura indicaram que, até 15 de setembro, as usinas haviam processado 443,71 milhões de toneladas de cana, uma queda de 1,5% em relação ao mesmo período da safra anterior.

Foi a primeira vez no ciclo 2026/27 que o volume acumulado ficou abaixo do registrado na temporada passada. O impacto foi ainda mais expressivo na primeira quinzena de setembro, quando a moagem recuou mais de 30% na comparação anual.

A redução no ritmo das operações reforça as preocupações com a oferta de açúcar brasileiro, justamente em um mercado que acompanha de perto as condições climáticas no maior produtor e exportador mundial do produto.

Planejamento revisto

Outro efeito importante do atraso na colheita é a necessidade de rever o planejamento agrícola. A permanência da cana no campo pode adiar a reforma de áreas que já estavam programadas para renovação, alterando o calendário de plantio e o potencial de produção das próximas safras.

O problema é especialmente relevante em áreas cuja cana já chegou ao momento previsto para a renovação. Quando a colheita atrasa, o produtor pode perder a janela planejada para retirar o canavial, preparar o solo e implantar uma nova lavoura.

Além de prolongar a permanência de áreas antigas, o atraso pode comprometer a organização das culturas utilizadas na rotação e na implantação dos novos canaviais.

O consultor destaca que o impacto sobre a produtividade dependerá também da idade e do estágio de cada área. Parte da cana que permanecer no campo já poderia ser renovada, enquanto outras lavouras ainda teriam condições de continuar em produção.

Chuvas alteram calendário

A persistência das chuvas também pode alterar o calendário industrial. Tradicionalmente, parte das usinas do Centro-Sul encerra as operações entre o fim de outubro e o início de novembro. Com os atrasos acumulados, algumas unidades poderão prolongar a moagem até dezembro e retomar as atividades mais cedo em 2027.

Baggio avalia que a transferência de 30 milhões a 35 milhões de toneladas de cana para o próximo ciclo é uma possibilidade concreta, mas ressalta que o volume dependerá do comportamento do clima nas próximas semanas.

Caso as chuvas continuem dificultando as operações, a quantidade de matéria-prima que ficará para a safra seguinte poderá superar as estimativas atuais.

O cenário coloca o setor diante de um desafio que envolve toda a cadeia produtiva: preservar a qualidade da cana, reduzir as perdas no campo, ajustar a produção industrial e reorganizar o calendário agrícola.

Fonte: Notícias Agrícolas

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