El Niño: mais de 30 milhões de crianças estão expostas a riscos climáticos no Brasil, alerta Unicef
Mais de 30 milhões de crianças e adolescentes brasileiros estão expostos a riscos climáticos, em um cenário de preocupação de um El Niño muito forte O alerta é do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que divulgou uma análise sobre os impactos dos eventos extremos na infância e a necessidade de preparar os serviços essenciais antes que as consequências se agravem.
O levantamento mostra que seis em cada dez crianças e adolescentes no Brasil convivem com pelo menos dois riscos climáticos. Desse total, cerca de 16 milhões estão expostos a três ou mais ameaças, como calor extremo, secas, queimadas, chuvas intensas e inundações.
Segundo o Unicef, os efeitos do fenômeno vão muito além das mudanças no tempo. Dependendo da intensidade e da localização dos eventos extremos, as consequências podem comprometer a saúde, a alimentação, o abastecimento de água, a frequência escolar e a segurança das famílias.
O cenário exige atenção diante das projeções climáticas para os próximos meses. Boletim divulgado em setembro por órgãos oficiais brasileiros indicou probabilidade superior a 90% de o El Niño atingir intensidade muito forte no trimestre de setembro a novembro de 2026. A tendência apontada inclui chuvas abaixo da média em grande parte do Norte e Nordeste, volumes acima da média especialmente no Sul e temperaturas elevadas em praticamente todo o país.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, que altera a distribuição das chuvas e as temperaturas em diferentes regiões do planeta.
Efeitos já foram sentidos por crianças brasileiras
Os impactos de eventos climáticos extremos sobre a infância ficaram evidentes em 2024, durante um episódio intenso de El Niño. Naquele ano, as enchentes no Rio Grande do Sul afetaram a educação de 741 mil estudantes. Na Amazônia, a seca atingiu outras 436 mil crianças e adolescentes, com comunidades enfrentando dificuldades para conseguir água e alimentos.
Ao todo, 1,17 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas interrompidas.
O Unicef ressalta que esses números não significam que os mesmos acontecimentos vão se repetir no ciclo de 2026 e 2027. Os dados, porém, demonstram como os extremos climáticos podem afetar diretamente direitos básicos quando atingem comunidades e serviços públicos dos quais crianças e adolescentes dependem.
“Uma seca pode significar falta de água segura, fumaça, dificuldade para chegar à escola ou ao posto de saúde. Uma enchente pode significar escola fechada, vacinação interrompida ou perda da renda da família”, afirma Danilo Moura, especialista em Clima e Meio Ambiente do
Unicef no Brasil.
Por que as crianças são mais vulneráveis?
De acordo com a análise, crianças e adolescentes estão entre os grupos mais suscetíveis aos efeitos dos extremos climáticos porque ainda estão em desenvolvimento e dependem dos adultos e dos serviços públicos para ter acesso à alimentação, à água potável, à saúde e à proteção.
O calor intenso pode aumentar o risco de desidratação e outros problemas de saúde. Já a falta de água ou a contaminação de fontes durante as enchentes podem favorecer doenças e dificultar o atendimento médico.
As alterações de temperatura e umidade também podem criar condições favoráveis à proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue.
Outro ponto de atenção é a alimentação. A ocorrência de secas prolongadas, chuvas excessivas e perdas agrícolas pode reduzir a oferta de alimentos, prejudicar a renda das famílias e pressionar os preços. Os efeitos sobre a nutrição infantil nem sempre aparecem imediatamente e podem se tornar mais evidentes meses depois de uma safra comprometida.
A fumaça de queimadas, por sua vez, representa um risco adicional à saúde, enquanto inundações, calor extremo e problemas no abastecimento de água podem interromper as aulas e comprometer a oferta da alimentação escolar.
Em comunidades isoladas, especialmente onde o deslocamento depende dos rios, a seca também pode dificultar o acesso à escola, aos hospitais e a outros serviços essenciais.
Unicef defende ações preventivas
Diante da possibilidade de agravamento dos riscos climáticos, o Unicef defende que governos e municípios utilizem os próximos meses para reforçar a preparação de escolas, unidades de saúde e sistemas de abastecimento de água.
Entre as medidas recomendadas estão o fortalecimento dos sistemas de alerta, a revisão dos planos de emergência das escolas, a proteção das fontes de água, a preparação das equipes de saúde e a identificação antecipada das famílias que vivem em áreas mais vulneráveis.
A organização também destaca a importância de garantir a continuidade de serviços como vacinação, atendimento médico, assistência social e distribuição de alimentos, mesmo durante períodos de seca, enchentes ou outras emergências.
“Esperar a escola fechar, o posto de saúde ficar isolado ou uma comunidade perder acesso à água para começar a agir é chegar tarde”, alerta Danilo Moura.
Segundo o especialista, conhecer antecipadamente os riscos permite organizar a resposta, reduzir perdas e evitar que um evento climático se transforme em uma crise ainda maior para crianças e adolescentes.
Impactos podem continuar em 2027
Embora o El Niño possa atingir seu pico ainda em 2026, parte dos efeitos pode se prolongar ou se agravar ao longo de 2027. Por isso, o Unicef defende que a preparação não se limite ao atual episódio, mas faça parte de uma política permanente de prevenção e proteção da infância.
A organização destaca a necessidade de integrar ações de defesa civil, saúde, educação e assistência social, além de garantir que os serviços essenciais continuem funcionando diante de eventos extremos.
O alerta também reforça que o El Niño não atua isoladamente. As consequências dependem da combinação entre as condições climáticas, as mudanças ambientais e a capacidade de cada região de se preparar para enfrentar os impactos.
Para o Unicef, antecipar medidas de proteção é fundamental para reduzir os riscos e garantir que crianças e adolescentes não tenham seus direitos básicos comprometidos diante de secas, calor extremo, queimadas e enchentes.