El Niño surpreende e espalha chuva pelo Brasil
O El Niño, que já apresenta intensidade muito forte, está influenciando o comportamento do clima na América do Sul, mas a distribuição das chuvas pelo Brasil tem seguido um padrão diferente daquele observado em 2023 e 2024. Em vez de concentrar as precipitações no Sul e favorecer períodos prolongados de seca em outras regiões, o cenário atual mostra o avanço das instabilidades também pelo Centro-Oeste e Sudeste, com chuva chegando gradualmente a áreas do Matopiba.
Segundo Alexandre Nascimento, meteorologista da Nottus, a explicação passa não apenas pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, mas também pelas condições do Atlântico, que têm influenciado o deslocamento das frentes frias pelo território brasileiro.
De acordo com o especialista, a anomalia de temperatura na região do Niño 3.4 já está em torno de 2,5°C acima da média há algumas semanas, colocando o fenômeno na categoria de super El Niño. A tendência é de que o aquecimento ainda possa aumentar um pouco, com pico previsto entre a segunda quinzena de novembro e a primeira metade de janeiro.
Apesar da intensidade, o comportamento das chuvas não tem repetido o padrão de anos anteriores. Nascimento destaca que as águas do Atlântico estão mais quentes desde a costa do Sudeste até o Norte do Brasil, enquanto a região próxima à costa Sul apresenta temperaturas abaixo da média.
Essa configuração favorece o deslocamento dos sistemas frontais. As frentes frias que chegam ao Sul conseguem avançar pelo litoral, em direção às águas mais quentes próximas à Bahia, aumentando a frequência das mudanças no tempo e permitindo que a chuva alcance outras regiões.
“Essa combinação de fatores ajuda a entender por que o Brasil não está enfrentando uma distribuição tão concentrada das chuvas como ocorreu durante o El Niño de 2023/24”, completa
Naquele período, o Rio Grande do Sul registrou volumes extremos, enquanto áreas de outras regiões enfrentaram seca severa e ondas de calor. Agora, o cenário é diferente. Em outubro, por exemplo, o Rio Grande do Sul terminou o mês com chuva abaixo da média em grande parte do estado, enquanto outras áreas do país receberam volumes expressivos.
"O El Niño não está beneficiando com chuva só uma região. Pelo contrário, ela tem se deslocado e tem feito até um pouco mais de frio do que se esperava, de forma geral", afirma Nascimento.
Chuva ganha força em diferentes regiões do Brasil
A previsão da Nottus indica que novembro deve registrar chuvas acima da média em áreas do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Em partes do Norte e do Matopiba, a tendência é de precipitações mais próximas da normalidade.
O avanço das frentes frias também deve favorecer a formação de um corredor de umidade, que se estende da Região Norte, passa pelo Centro-Oeste e alcança grande parte do Sudeste.
Para o meteorologista, esse comportamento pode trazer benefícios para regiões que vinham enfrentando dificuldades com a falta de chuva, especialmente em áreas produtoras que dependem da regularização da umidade do solo para o desenvolvimento das lavouras.
"O mês de novembro deve ser um mês bastante importante do ponto de vista do calendário agrícola, mas deve ter aí uma chuva que vai beneficiar muita gente nas próximas semanas", projeta.
No entanto, a distribuição das precipitações ainda é irregular. Enquanto algumas localidades enfrentam excesso de água, outras precisam de maior frequência e volume de chuva para recuperar a umidade do solo.
No Paraná, por exemplo, o excesso de precipitações já provoca dificuldades para algumas atividades agrícolas.