Trigo: Safra histórica da Argentina amplia pressão sobre preços globais e acende alerta no mercado brasileiro

Publicado em 19/02/2026 06:14 e atualizado em 19/02/2026 07:18
Superoferta transformou o trigo argentino no mais competitivo do mercado global; China segue demandando do país

A Argentina iniciou a safra 2025/26 com números que já entram para a história. Em menos de três meses do ano comercial, iniciado em dezembro, o país já exportou 9,4 milhões de toneladas de trigo, segundo dados da NABSA compilados pela Bolsa de Comércio de Rosário (BCR). O volume representa 4,6 milhões de toneladas a mais que no mesmo período da temporada passada e está 87% acima da média dos últimos cinco anos.

O desempenho está diretamente ligado à produção recorde. A oferta total, somando colheita e estoques, alcança 31,1 milhões de toneladas, cerca de 50% acima da média da última década. Essa superoferta transformou o trigo argentino no mais competitivo do mercado global em termos de preço FOB desde o final de 2025, ampliando mercados e conquistando destinos onde historicamente enfrentava resistência por preços considerados elevados.

Segundo a BCR, a combinação entre safra excepcional e estoques robustos serviu como “âncora” para os preços internacionais, que já operavam em ambiente de ampla oferta global antes mesmo da entrada do trigo argentino no mercado.

Expansão de destinos e mudança no mapa global

A competitividade argentina se reflete na diversidade de compradores. Vietnã, Indonésia e Bangladesh concentram 54% das exportações nos três primeiros meses da campanha 2025/26, com mais de cinco milhões de toneladas embarcadas. O Brasil aparece como quarto principal destino, com pouco menos de um milhão de toneladas adquiridas até o momento.

A China, que tradicionalmente compra volumes esporádicos da Argentina, já soma 381 mil toneladas nesta temporada. Países como Argélia, Tailândia e Marrocos receberam entre 300 mil e 420 mil toneladas cada, enquanto mercados regionais como Equador, Chile e Peru superaram 100 mil toneladas. A presença argentina também avança por países da África e da Ásia.

Até agora, 15,3 milhões de toneladas da safra 2025/26 já estão comprometidas, o equivalente a 55% da colheita total. Ainda restam 45% disponíveis, o que mantém a perspectiva de continuidade no ritmo forte de embarques e na pressão competitiva.

Outro fator estratégico favorece o país vizinho: a Argentina é a última entre os grandes exportadores a colher sua safra. Com Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Austrália já avançados em seus programas de exportação, a menor disponibilidade dessas origens amplia a janela comercial argentina no primeiro trimestre do ano.

O impacto direto no Brasil

Para o Brasil, maior comprador tradicional do trigo argentino, o cenário tem efeitos imediatos.
O país consome entre 12 e 13 milhões de toneladas de trigo por ano, enquanto a produção nacional gira em torno de 8 a 10 milhões de toneladas, a depender da safra, segundo dados recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Isso mantém o Brasil estruturalmente dependente de importações, que costumam variar entre 5 e 7 milhões de toneladas anuais.

Historicamente, cerca de 60% a 70% dessas compras externas vêm da Argentina, favorecidas pela proximidade geográfica e pelo acordo no âmbito do Mercosul, que garante tarifa zero dentro da cota.
Com o trigo argentino mais barato no mercado FOB e com ampla oferta disponível, os moinhos brasileiros tendem a reforçar compras no país vizinho, reduzindo espaço para origens alternativas como Estados Unidos ou Canadá, especialmente em momentos de câmbio menos favorável.

Para o produtor brasileiro, principalmente no Sul, o movimento representa um desafio. A entrada de trigo importado a preços competitivos limita altas no mercado interno e pode pressionar as cotações no período de comercialização da safra nacional. A “âncora” de preços citada pela BCR no cenário global se reflete também nas negociações domésticas.

Por outro lado, para a indústria moageira e para a cadeia de alimentos, o cenário contribui para custos mais controlados da matéria-prima, ajudando a reduzir repasses ao consumidor em um momento de atenção sobre inflação de alimentos.

Pressão prolongada?

Com 45% da safra ainda disponível para comercialização e estoques considerados extraordinários, a Argentina mantém capacidade de continuar abastecendo o mercado externo com preços competitivos nos próximos meses. Esse movimento ocorre justamente durante o período de entressafra do hemisfério norte, o que amplia sua influência no comércio internacional.

Para o Brasil, isso significa que o comportamento do trigo argentino seguirá como variável central na formação de preços internos em 2026. Em um mercado global já abastecido, a oferta recorde do país vizinho reforça um cenário de competição acirrada e margens mais ajustadas para o produtor brasileiro, enquanto amplia oportunidades de compra para a indústria.

O fluxo intenso de navios saindo dos portos argentinos não altera apenas estatísticas de exportação: ele redesenha o equilíbrio do mercado regional e impõe novos desafios estratégicos ao trigo produzido no Brasil.

Por: Priscila Alves
Fonte: Notícias Agrícolas

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