Indústria do trigo e autoridades debatem gargalos de fronteira para destravar comércio entre Brasil e Paraguai
Buscando soluções para minimizar os gargalos logísticos e a necessidade de garantir o abastecimento da indústria moageira nacional, a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) promoveu, entre os dias 1º e 3 de setembro, o Giro Abitrigo – Paraguai. A iniciativa reuniu mais de 45 representantes de moinhos e de outros elos da cadeia do grão brasileiro para uma expedição que expôs desafios operacionais críticos, gerados, principalmente, pela burocracia na fronteira entre os dois países.
Durante os três dias, a comitiva conheceu a infraestrutura de transporte na região, com a visita ao Terminal Multilog, no Brasil, e à Algesa, no país vizinho. O grupo também visitou campos de trigo na região de Santa Rita, onde realizou uma visita técnica às lavouras locais e conheceu de perto o padrão de cultivo e os cuidados sanitários aplicados na produção do trigo paraguaio. O Giro ainda visitou a Cooperativa Colonias Unidas, em Obligado, para conhecer o programa de multiplicação de variedades e as tecnologias aplicadas na garantia de qualidade do grão, e o campo experimental da Cámara Paraguaya de Exportadores y Comercializadores de Cereales y Oleaginosas (CAPECO) e da Genética Vegetal del Paraguay S.A. (GENEPAR), onde acompanhou pesquisas e ensaios com novas variedades agrícolas voltadas a atender às exigências operacionais dos moinhos brasileiros.
No último dia do Giro, o grupo se reuniu com autoridades do Ministério da Agricultura do Brasil, do Ministério da Agricultura do Paraguai, da Receita Federal e agentes do comércio exterior para um encontro em que o gargalo logístico foi o tema central. Durante os debates, o setor industrial apontou que a simplificação dos trâmites aduaneiros no porto seco da Algesa e no Terminal Multilog é fundamental para destravar o potencial de trocas comerciais na região de fronteira.
"Colocamos um grande desafio para esse grupo, que é a redução do chamado custo fronteira, hoje uma grande barreira para o estímulo desse comércio. Segundo os operadores locais, estamos falando de quase 20 dólares por tonelada em custos operacionais de travessia. Trata-se de um valor expressivo dentro da precificação do mercado internacional do trigo, e qualquer melhoria operacional trará um estímulo imediato ao comércio entre Paraguai e Brasil", apontou o superintendente da Abitrigo, Eduardo Assêncio.
A urgência em otimizar o fluxo de importação ganha força diante de uma mudança estrutural no campo no Sul do Brasil. No Paraná, principal estado produtor, a migração de produtores para culturas alternativas de maior valor agregado vem reduzindo a área destinada ao cereal na safrinha. A estimativa da indústria é que o mercado paranaense precise importar entre 1,5 milhão e 1,7 milhão de toneladas de trigo no ciclo de 2027, posicionando o Paraguai como o fornecedor natural para suprir essa demanda no Sul e no Sudeste.
Boa qualidade e investimentos no trigo paraguaio
Do lado paraguaio, a resposta da cadeia produtiva envolve investimentos diretos em tecnologia e melhoramento genético para expandir a oferta e atender aos padrões exigidos pelos moinhos brasileiros.
"Tivemos a honra de receber a comitiva da Abitrigo, que esteve aqui com a intenção de conhecer nossas lavouras e de comprar nosso excedente exportável. Estamos trabalhando para retomar o patamar de 600 mil hectares de área cultivada com trigo no Paraguai", afirmou o presidente da Cámara Paraguaya de Exportadores y Comercializadores de Cereales y Oleaginosas, José Berea.
A qualidade do grão paraguaio é apontada pela indústria como um diferencial técnico decisivo. Pela sua composição e força de glúten, o cereal importado do país vizinho atua como um melhorador de farinha para os moinhos paranaenses e paulistas, complementando a produção local, porém as questões burocráticas ainda dificultam as transações comerciais.
"Compramos trigo paraguaio, mas foi a primeira vez que cruzei a fronteira para ir até os campos, conversar com produtores e com os desenvolvedores de genética. Enfrentamos certa burocracia na importação e vemos que a questão logística é um gargalo, mas aqui entendemos cada limitação, que nem sempre é apenas burocrática, mas envolve a logística e acertos entre os dois países", avaliou o diretor de Originação e Financeiro da S.A. Moageira & Agrícola Irati, André Vosnika.
"É muito enriquecedor esse tipo de experiência, de poder entender os problemas que eles enfrentam versus os nossos. Para nós, principalmente do Paraná, o Paraguai é um fornecedor importante de trigo, e essa visita enriqueceu bastante o nosso conhecimento", destacou o presidente do Conselho na Infasa e Belarina, Arnei Antônio Frasson.
Para o superintendente da Abitrigo, a aproximação direta entre industriais, produtores e órgãos governamentais abriu caminho para um novo ciclo de cooperação bilateral no mercado de grãos.
"O Giro Abitrigo superou as expectativas da organização e dos participantes. Conseguimos transmitir aos produtores e exportadores paraguaios as reais necessidades do mercado brasileiro, encontrando um setor altamente receptivo e empenhado em aprimorar suas entregas. A expectativa é que os alinhamentos operacionais e institucionais promovidos durante a expedição tragam resultados concretos para a cadeia do trigo em curto e médio prazo", concluiu Assêncio.