Sinditrigo vê agravamento do déficit de trigo para panificação no Paraná
O Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR) acompanha com bastante preocupação a reta final da colheita do trigo do Estado, que é o maior polo moageiro do cereal do Brasil, respondendo por 30% da produção nacional de farinha de trigo, com moagem de 3,85 milhões de toneladas por safra.
A ocorrência de doenças e o excesso de chuvas durante a colheita prejudicaram a qualidade dos grãos e agravaram a previsão inicial do setor, de um déficit de 1,6 milhão de toneladas entre a produção estimada e o volume de moagem dos moinhos paranaenses.
Na estimativa de setembro, o Departamento de Economia Rural (Deral) reduziu a produção estadual em 10%, para 2,13 milhões de toneladas, e o gap em relação à moagem subiu para cerca de 1,7 milhão. O último boletim conjuntural do órgão, de 15 de outubro, aponta nova piora na avaliação das lavouras que ainda estão pendentes de colheita. O órgão divulgará nova estimativa em 29 de outubro, e a expectativa é de redução ainda maior da produção.
A presidente do Sinditrigo-PR, Paloma Venturelli, exemplifica que a previsão atual para o Norte do Paraná nesta safra é de uma produção de cerca de 750 mil toneladas de trigo, sendo que deste total apenas 400 mil toneladas devem ser de trigo Tipo 1, adequado à panificação. No ano anterior, a região chegou a produzir perto de 900 mil toneladas, a maior parte delas de trigo Tipo 1. “Para uma indústria formada, em grande parte, por moinhos de panificação, esse volume de 400 mil toneladas é muito baixo. As regiões de Guarapuava e dos Campos Gerais ainda têm produção em apuração, e o setor aguarda os números finais para avaliar o tamanho da perda na oferta”, pontua Venturelli.
Ela lembra que os moinhos já vinham trabalhando com a projeção de ter nesta safra o maior déficit de abastecimento de trigo da história devido à redução da área plantada. “Veja que essa piora de um cenário que já era muito ruim é realmente alarmante. Um quadro como esse coloca o Paraná numa dependência muito grande de trigo importado e aumenta a pressão sobre as margens dos moinhos, que vão precisar repassar o aumento de custos aos preços da farinha.”
Outro ponto levantado pelo Sinditrigo é a infraestrutura para receber o volume de trigo importado, em sua maior parte da Argentina. Isso envolve a operação nos portos e o escoamento para as diferentes regiões do Estado, onde estão os moinhos. Para Venturelli, será preciso atenção especial a toda essa logística.
Próximo ciclo e políticas agrícolas
A preocupação não se limita à safra atual. Com qualidade baixa e produtividade afetada, o produtor, que já vinha reduzindo a área de trigo ano após ano, tende a plantar ainda menos no próximo ciclo.
O Sinditrigo-PR entende que o debate sobre a importância da cultura do trigo precisa ganhar espaço na agenda pública e pretende levar ao próximo governo a discussão sobre o papel do cereal na política agrícola. Entre as medidas citadas por Venturelli estão a criação de um Plano Safra específico para o trigo e um programa de seguro que incentive o plantio, com o objetivo de reverter a queda de área e tornar a cultura viável ao produtor.
"A gente precisa falar de segurança de abastecimento, porque é o pãozinho nosso de cada dia", afirma a presidente da entidade.