Brasil deve importar até 10 milhões de toneladas de trigo em 2027

Publicado em 23/10/2026 15:36
Queda da produção nacional, preocupações com a qualidade do cereal e desafios logísticos pautaram os debates do último dia do 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, no Rio de Janeiro (RJ)

A redução da produção brasileira de trigo e a maior dependência das importações estão entre os principais desafios para o abastecimento nacional no fechamento de 2026 e ao longo de 2027. O cenário foi discutido por especialistas no último dia da 33ª edição do Congresso Internacional da Indústria do Trigo, no Rio de Janeiro (RJ). Promovido pela Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), a programação também debateu a importância da atuação regulatória de forma estratégica no setor.

No que se refere ao cenário externo, o diretor sênior de Originação e Trading de Trigo da Bunge Alimentos, Tito Marquetti Martinho estimou que o Brasil poderá importar entre 9,5 milhões e 10 milhões de toneladas de trigo no próximo ano.

“A combinação de menor volume produzido internamente e pior qualidade do cereal amplia a dependência do mercado externo e deve colocar à prova a capacidade portuária brasileira”, analisou.

Para esse crescente abastecimento interno, a Argentina permanecerá como principal fornecedora e, no cenário global, o conflito na região do Mar Negro continua como um dos principais fatores de incerteza para o mercado.

Produção nacional e abastecimento

O especialista em mercado de trigo Elcio Bento alertou para os efeitos da queda da produção brasileira sobre o abastecimento, diante da redução da oferta doméstica e da maior necessidade de importação. A produção nacional está estimada em 5,12 milhões de toneladas, recuo de 37% em relação ao período de referência apresentado, volume suficiente para atender a cerca de 36% do consumo brasileiro, exigindo mais aquisição externa.

“A disponibilidade de trigo de melhor qualidade também preocupa. Em São Paulo, a estimativa é de que apenas 70 mil a 80 mil toneladas da produção correspondam ao Tipo 1. No Paraná, onde cerca de 70% da colheita havia sido realizada no momento da análise, o volume de trigo Tipo 1 foi estimado em 500 mil a 600 mil toneladas”, ponderou.

A redução da oferta altera, de acordo com o especialista, o papel tradicional dos estados do Sul no abastecimento nacional. Nesse cenário, o Paraná passa de um excedente de 100 mil toneladas para um déficit de 1,85 milhão de toneladas. No Rio Grande do Sul, o excedente estimado em 4,07 milhões de toneladas se aproxima do equilíbrio entre oferta e demanda.

Contudo, a logística e a eficiência industrial ganham relevância na operação dos moinhos. “A logística favorecerá os moinhos bem-posicionados e preparados para receber o trigo importado. Já a moagem de trigos nacionais heterogêneos exigirá maior eficiência”, afirmou.

Safra gaúcha

Ao detalhar a situação do Rio Grande do Sul, o sócio da Solo Corretora de Cereais, Índio Brasil dos Santos relacionou o desempenho da safra de 2026 a fatores que limitaram o desenvolvimento das lavouras, como menor investimento, perfilhamento reduzido — associado às condições de adubação e luminosidade — e dificuldades nos tratos culturais.

“As condições climáticas impuseram desafios durante o ciclo. Julho foi marcado por chuvas e umidade, com muitos dias encobertos. Em agosto, frio e precipitações ocorreram no início e no fim do mês. Setembro registrou chuva acima da média, poucos dias de sol e geada em 7 de setembro. Em outubro, as precipitações acima da média se alternaram com períodos de abertura de sol”, detalhou.

A safra regional tem como meta 1,85 milhão de toneladas, com rendimento informado de 2,5 mil quilos por hectare. Até agora, 27% da área foi colhida e a comercialização corresponde a aproximadamente 30% do volume previsto.

Atuação regulatória estratégica deve ter início antes das mudanças normativas

A programação do terceiro e último dia do evento também contou com o painel “O processo regulatório como resultado para as empresas”, que reuniu especialistas para discutir a importância da atuação regulatória nas decisões estratégicas das companhias. Mediado pelo conselheiro da Abitrigo e CEO do Grande Moinho Cearense, Carlos Augusto Neves da Rocha, o debate reuniu a gerente de Assuntos Regulatórios da M. Dias Branco, Bruna Mourão Mesquita, e a CEO da NutraLíder Consultoria Regulatória, Luiza Zanatta.

Os participantes debateram como o acompanhamento das propostas e a participação em consultas públicas ajudam as empresas a se preparar para novas exigências e destacaram a importância de envolver a área regulatória desde as primeiras etapas dos projetos para permitir identificar oportunidades e antecipar possíveis entraves.

Fonte: Notícias Agrícolas

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