Fertilizante verde pode se destacar na estratégia produtiva de insumos agrícolas no país

Publicado em 14/01/2026 11:52 e atualizado em 14/01/2026 15:52
Segundo estudo, custo do produto sustentável não seria tão diferente do produzido a partir de gás natural
Pedro Guedes - Esp. em Combustíveis Renováveis e Fertilizantes do Instituto E+
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Fertilizante verde pode se destacar na estratégia produtiva de insumos agrícolas no país

Fertilizante verde já pode ter custo semelhante ao produzido a partir de gás natural no país

O custo de produção de fertilizantes nitrogenados a partir de matérias-primas renováveis no Brasil já é próximo aos valores para a produção nacional com gás natural. A constatação é do estudo Decarbonizing the Ammonia Fertilizer Supply Chain in Brazil, desenvolvido pelo think tank Instituto E+ Transição Energética e a organização não governamental Rocky Mountain Institute (RMI), dos Estados Unidos. A análise também faz recomendações para o país avançar nessa área.

“Com abundância de vento, sol, biomassa e um mercado agrícola robusto, o país reúne condições únicas para desenvolver uma indústria doméstica de fertilizantes de baixo carbono, capaz de reduzir riscos, gerar competitividade e apoiar metas climáticas”, afirma o especialista em Combustíveis Renováveis e Fertilizantes do Instituto E+, Pedro Guedes, um dos autores do estudo, acrescentando que a ideia é utilizar eletricidade de fontes renováveis e biometano para produzir amônia e, em seguida, usá-la para fabricar fertilizantes.

O gráfico compara os custos de produção de amônia verde (a partir de energia renovável), cinza (gás natural) e azul (gás natural com captura e armazenamento de carbono) no Brasil com base nas tecnologias atualmente disponíveis e nas condições de preços potenciais ou praticadas. Os dados mostram que o custo da amônia verde já seria competitivo com o azul e o cinza no caso de projetos híbridos (ou seja, com base em geração de energia elétrica dedicada (behind-the-meter) e conexão à rede nacional) em portos como Rio Grande e Pecém. A amônia responde por entre 60% e 90% do custo final dos fertilizantes.

A análise não compara, no entanto, o custo dos fertilizantes nacionais com os valores do insumo importado. “Focamos nessa avaliação preliminar apenas nas diferentes condições nacionais de produção, pois o Plano Nacional de Fertilizantes 2050 prevê a ampliação da produção nacional e redução das emissões do setor nos próximos anos”, explica Guedes.

Atualmente, 97% dos fertilizantes nitrogenados usados na agricultura brasileira são importados. O plano desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert) prevê uma redução gradual desse volume, com um aumento da produção nacional (em termos de equivalente de nitrogênio) de 1,7 milhão de toneladas em 2030, 2,4 milhões até 2030, 2,8 milhões até 2040 e 3,2 milhões até 2050, entre outras metas.

Capacidade instalada – O estudo também delineou a atual produção de fertilizantes nitrogenados e projetos em desenvolvimento no Brasil, indicados no mapa a seguir. Considerando a capacidade instalada total dessas plantas, o país teria condições de produzir 3,8 milhões de toneladas de nitrogênio por ano, o correspondente a 45% da demanda projetada para 2050. Desse total, 1,2 milhão de toneladas seriam provenientes de fontes de baixo carbono.

A alta participação de fertilizantes importados no montante usado no país deixa a agricultura exposta à volatilidade internacional e a choques como os que elevaram globalmente os preços em 2021–2022 devido à guerra na Ucrânia. O déficit comercial brasileiro no setor atingiu US$ 4,3 bilhões em 2024, o maior do mundo.

Para reduzir essa exposição à volatilidade do mercado, o estudo destaca a necessidade de alinhamento de políticas na área, mobilização de investimentos, expansão de infraestrutura e ativação da demanda. “Com coordenação e ação, o país pode avançar de importador dependente para referência global na produção de fertilizantes sustentáveis, reforçando sua segurança produtiva e seu protagonismo na transição energética”, explica Guedes.

O estudo também aponta aspectos-chave para o país avançar nessa área:

• Visão estratégica: construir uma visão coordenada e um roteiro para a descarbonização de fertilizantes que alinhe a produtividade agrícola com o net zero do Brasil.

• Alinhamento de políticas: harmonizar políticas e desenvolver definições, metas e incentivos claros para fertilizantes de baixo carbono dentro das estruturas nacionais do país.

• Mobilização de investimentos: reduzir custos de capital e eliminar riscos de projetos por meio de financiamento misto e mecanismos de compra de longo prazo.

• Expansão da infraestrutura: melhorar a conectividade da infraestrutura energética para permitir a integração de hidrogénio verde e biometano de baixo custo.

• Ativação da demanda: criar mecanismos de ativação da demanda para garantir o reconhecimento do valor e criar expectativas de demanda coordenadas dos compradores.

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