Pressão em Chicago e atraso nas exportações acendem alerta para o mercado de milho no Brasil
Pressão sobre os preços do milho se intensifica no mercado brasileiro e trava novos negócios
O mercado de grãos iniciou a semana sob contínua pressão nas bolsas internacionais, com recuos expressivos registrados para o milho e os derivados da soja na Bolsa de Chicago. Em entrevista ao programa Bom Dia Agronegócio, conduzido pela jornalista Carla Mendes, o analista sênior da Marex, Eduardo Vanin, traçou um panorama detalhado sobre o cenário do milho, destacando o distanciamento das cotações norte-americanas da realidade de demanda e as repercussões diretas no mercado brasileiro.
Queda em Chicago e perda de competitividade dos EUA
Segundo Eduardo Vanin, o milho em Chicago acumula uma desvalorização próxima de 70 centavos de dólar por bushel desde o pico atingido em setembro, o que representa uma queda em torno de 12% — ritmo três vezes mais intenso do que o observado na soja, que recuou cerca de 4%. O analista aponta que o mercado internacional tem desconsiderado as projeções otimistas de exportação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
"O milho na América do Sul é muito mais barato. O programa de exportação americano está dez milhões de toneladas atrasado em relação ao ano passado na mesma época", pontuou Vanin. Ele destacou que compradores asiáticos, como Coreia do Sul, Filipinas e Taiwan, têm fechado licitações recentes priorizando o cereal sul-americano em detrimento do produto norte-americano via portos do Noroeste do Pacífico (PNW).
Ritmo das exportações brasileiras e metas para o fechamento
Apesar da vantagem competitiva nos preços internacionais frente aos Estados Unidos, o ritmo das exportações brasileiras de milho apresenta atraso considerável em comparação ao ciclo anterior. Entre julho e outubro, o volume exportado acumula um atraso estimado em cerca de 6 milhões de toneladas em relação a 2023.
Para alcançar a projeção de exportação estimada em 38 milhões de toneladas, Vanin calcula que o Brasil precisará embarcar volumes expressivos nos próximos meses: cerca de 6 milhões de toneladas em novembro, 6 milhões em dezembro e 5 milhões em janeiro. "Tivemos apenas duas temporadas na história com mais de 17 milhões de toneladas somadas nesses três meses. É um volume bastante grande e vai depender de uma combinação de fatores", alertou o especialista.
Disparidades regionais e perda de liquidez no mercado interno
No cenário doméstico, a comercialização enfrenta ritmos distintos conforme a região. Vanin chamou atenção para a situação em Goiás, onde o mercado de exportação travou após uma safra menor e foco inicial na logística de soja e sorgo. Com custos elevados e menor oferta de fretes ferroviários para Santos, as cotações no estado desabaram de patamares de R$ 65 a R$ 68 a saca para cerca de R$ 58 por saca FOB no sudoeste goiano.
Enquanto Mato Grosso mantém a maior liquidez para atender à exportação e usinas locais de etanol de milho, outros polos registram negócios pontuais e focados na necessidade imediata de caixa do produtor. Vanin também lembrou o fator tributário no radar dos agricultores: o término do benefício do crédito presumido de PIS/Cofins, previsto para janeiro, que tem incentivado parte dos produtores a antecipar vendas até o fim deste ano.
Derivados de soja: correção no farelo e indefinição no óleo
Além do milho, Vanin analisou a dinâmica do complexo soja, destacando a queda de quase 2% no farelo em Chicago, reflexo da realização de lucros por fundos de investimento e do avanço do esmagamento norte-americano. No óleo de soja, o comportamento segue atrelado às decisões regulatórias da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) quanto a mandatos de biocombustíveis e isenções concedidas a refinarias.
Perspectivas para o produtor
O cenário desenhado para o milho exige cautela do produtor brasileiro que ainda retém estoques ou planeja a safra de verão, que contará com área maior no Sul do país. Diante de margens apertadas na suinocultura internacional e ausência de choques altistas de demanda global, a recomendação é acompanhar de perto a evolução dos embarques nos portos e as janelas comerciais regionais antes da entrada da nova safra de soja.
* Com auxílio de IA