Gergelim e feijão-mungo ganham espaço como alternativas ao milho safrinha diante dos riscos climáticos no Mato Grosso
Gergelim e feijão-mungo ganham espaço como alternativas ao milho safrinha diante dos riscos climáticos no Mato Grosso
As incertezas climáticas para a segunda safra de 2027 estão aumentando o interesse dos produtores de Mato Grosso e de outras regiões do Centro-Oeste por culturas alternativas ao milho, especialmente o gergelim e os feijões-mungo-verde e mungo-preto. Com menor necessidade de água e custos de produção mais baixos, essas opções permitem ampliar a janela de semeadura e reduzir a exposição aos riscos climáticos, ao mesmo tempo em que encontram oportunidades de comercialização no mercado internacional.
Em entrevista ao Notícias Agrícolas durante o programa Realidades da Safra, Itacir Campos, gerente comercial de originação, explicou que a diversificação já se tornou um comportamento recorrente entre os agricultores que buscam maior segurança para a segunda safra. Segundo ele, as mudanças no regime de chuvas e as incertezas sobre o calendário agrícola estão incentivando a procura por cultivos capazes de se desenvolver em condições menos favoráveis ao milho.
A principal vantagem agronômica está na menor exigência hídrica dessas culturas. Enquanto o milho apresenta uma janela considerada mais segura até o final de fevereiro em determinadas regiões de Mato Grosso, o gergelim e os feijões-mungo oferecem alternativas para áreas que ficam disponíveis mais tarde, inclusive no início de março.
"A cultura do gergelim, agronomicamente pensando, ela tem uma necessidade hídrica menor e um investimento também um pouco mais baixo que o milho. Então, isso traz um respaldo, uma segurança bem interessante ao produtor", destacou Campos.
O entrevistado citou o município de Canarana, no leste de Mato Grosso, como exemplo dessa diversificação. Conhecida como a capital nacional do gergelim, a região apresenta um período de segunda safra marcado pela menor disponibilidade de chuvas, condição que historicamente limita a expansão do milho e favorece o cultivo de alternativas.
Para 2027, a preocupação é ampliada pelo alongamento do plantio da soja na região, que deverá reduzir o período disponível para a implantação do milho dentro da janela mais favorável. Conforme Campos, há vários anos o cereal não ocupa mais do que aproximadamente 50% a 60% das áreas das propriedades da região, abrindo espaço para o gergelim.
Custos menores e valorização aumentam atratividade
Além das condições agronômicas, o menor investimento necessário para o cultivo é outro fator que favorece o interesse dos agricultores. Segundo Campos, o custo de produção do gergelim varia entre R$ 1 mil e R$ 1,2 mil por hectare, considerando despesas de manejo e operações agrícolas, dependendo do pacote tecnológico adotado.
O feijão-mungo apresenta custos próximos dessa faixa, embora possa exigir investimentos adicionais conforme as particularidades de cada sistema produtivo. Para comparação, o entrevistado estimou em aproximadamente R$ 3,5 mil por hectare o investimento em uma lavoura de milho de alto nível tecnológico.
A diferença reduz o capital necessário para a implantação das culturas alternativas, mas a escolha também depende das expectativas de produtividade, dos preços de comercialização e das condições específicas de cada propriedade.
No mercado, Campos relatou uma recuperação recente das cotações. Segundo ele, o gergelim passou de referências próximas de R$ 3,50 para cerca de R$ 4,00 nos últimos 30 a 45 dias, movimento associado às oscilações cambiais e às condições comerciais. Os feijões-mungo-verde e mungo-preto também apresentaram valorização no período.
O gerente comercial avalia que os preços atuais oferecem condições favoráveis de rentabilidade para os produtores, especialmente quando associados aos custos mais baixos de implantação.
Outro fator importante é a possibilidade de antecipar a comercialização. De acordo com Campos, grande parte dos agricultores que investem nessas culturas já estabelece contratos com empresas compradoras antes da semeadura, garantindo maior previsibilidade para o planejamento financeiro da segunda safra.
A demanda internacional também contribui para sustentar essa expansão. O entrevistado destacou a participação crescente da China nas compras mundiais de gergelim e feijões-mungo, com aumento do interesse por esses produtos acompanhando o avanço da produção.
Produtores já procuram sementes e contratos para 2027
A movimentação para a próxima segunda safra já começou. Campos relatou que, nos últimos dias, houve aumento expressivo da procura de produtores por informações, sementes e oportunidades de contratação antecipada de gergelim e feijões-mungo.
O interesse está associado tanto às preocupações com o clima quanto às condições comerciais das culturas, que permitem aos agricultores avaliar alternativas antes mesmo de concluir a implantação da safra principal.
"Nós tivemos uma movimentação grande nos últimos dias de produtores justamente por conta das incertezas e das variações de preço, buscando contratos e negociações antecipadas", afirmou.
Para o gerente comercial, a importância econômica da segunda safra nas propriedades brasileiras exige um planejamento cada vez mais cuidadoso, principalmente em regiões onde o calendário agrícola está sujeito às irregularidades das chuvas.
"Hoje a safrinha do produtor não é mais uma safrinha, é uma safrona, ela faz parte da receita da propriedade tanto quanto a cultura principal", ressaltou.
A expectativa é de continuidade do interesse por gergelim e feijões-mungo em 2027, especialmente em Mato Grosso. A confirmação de uma expansão efetiva da área, entretanto, dependerá das condições de plantio da soja, da janela disponível para as culturas seguintes e das oportunidades de comercialização oferecidas aos produtores.