Chuvas ameaçam produtividade do feijão e da soja, além da janela do milho safrinha no Paraná, alerta FAEP
Chuvas ameaçam produtividade do feijão e da soja, além da janela do milho safrinha no Paraná, alerta FAEP
O excesso de chuvas no Paraná já provoca perdas na produção de feijão, prejudica a implantação das lavouras de soja e ameaça comprometer a janela de plantio do milho segunda safra em 2027. O cenário foi apresentado por Ana Paula Kowalski, do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP, em entrevista ao Notícias Agrícolas nesta quinta-feira (5), durante o programa Realidades da Safra.
Segundo a especialista, os problemas climáticos começaram ainda durante a colheita das culturas de inverno e se estenderam à implantação da safra de verão. Além dos atrasos na semeadura, as lavouras já estabelecidas enfrentam episódios de granizo, enxurradas, alagamentos e períodos prolongados de nebulosidade, que podem retardar o desenvolvimento das plantas.
Feijão já acumula perdas
Entre as culturas de verão, o feijão apresenta uma das situações mais preocupantes. Com 85% da área de primeira safra semeada, principalmente na porção sul do estado, boa parte das lavouras se aproxima da fase reprodutiva, período sensível aos efeitos do excesso de umidade e à ocorrência de doenças.
“A situação para o feijão também é um pouco mais crítica, porque a maior parte das lavouras está já se encaminhando do desenvolvimento vegetativo para o início da fase reprodutiva. Como o ciclo da cultura do feijão é mais curto, as perdas esperadas já estão consolidadas, não tem mais como recuperar. Agora é só fechar mesmo a estimativa para ver essa redução que nós teremos na produção de feijão esse ano”, explicou Ana Paula.
A representante da FAEP destacou ainda que as condições das lavouras estão piores do que no mesmo período do ano passado, com aumento da proporção de áreas classificadas como ruins. A continuidade das chuvas e da nebulosidade também favorece a ocorrência de doenças, ampliando as dificuldades de manejo.
Soja enfrenta atrasos, replantios e risco de doenças
Na soja, a semeadura alcançou 71% da área prevista, percentual que, segundo Ana Paula, representa atraso expressivo em relação às três últimas safras. Nas áreas já implantadas, produtores relatam necessidade de replantio após perdas provocadas por granizo e enxurradas que carregaram sementes recém-distribuídas no solo.
Em lavouras menos afetadas, a decisão sobre o replantio ainda depende da capacidade de recuperação das plantas. Ao mesmo tempo, o excesso de umidade favorece doenças fúngicas, com atenção especial à ferrugem asiática, considerada uma das principais ameaças sanitárias à cultura.
“Já temos relatos, sim, de replantio, tanto por perda por granizo quanto pelas enxurradas que têm levado semente recém-plantada no campo. Nos casos em que as perdas não foram tão extremas, os produtores ainda estão avaliando se a planta não consegue se recuperar e, de repente, evitam um pouco a necessidade de replantio”, relatou.
A perspectiva de novas despesas com sementes, operações de campo e controle de doenças preocupa a federação, especialmente porque parte dos produtores já enfrenta endividamento elevado. Ana Paula ressaltou que, apesar da inclusão da soja no programa estadual de subvenção ao seguro rural neste ano, muitas áreas permanecem sem cobertura.
Atraso da soja pode comprometer o milho safrinha
Os impactos das chuvas também devem alcançar o milho segunda safra. No Oeste do Paraná, onde os produtores costumam antecipar o plantio da soja para preservar uma janela mais favorável ao cereal, o atraso na implantação da oleaginosa pode empurrar a semeadura do milho para um período de maior risco climático.
“A região Oeste do Paraná, principalmente, é a região que dá largada na semeadura de soja aqui no estado, justamente para poder ter uma janela um pouco melhor de semeadura do milho em segunda safra. Em decorrência do excesso de chuva que já vem há alguns meses, o plantio atrasou”, afirmou.
Segundo a especialista, o intervalo entre a colheita da soja e a semeadura do milho costuma ser de poucos dias. Com o possível alongamento do ciclo da oleaginosa, aumenta a preocupação com a exposição do cereal a baixas temperaturas e geadas durante suas fases finais de desenvolvimento.
“Historicamente, aqui no Paraná, quanto mais tardio o plantio de milho em segunda safra, mais arriscado é de ocorrer perdas, porque a gente tem risco de geada, de baixas temperaturas lá no final do ciclo, quando a cultura está na fase reprodutiva e finalizando o ciclo”, explicou.
A preocupação é agravada pelas previsões climáticas mencionadas pela entrevistada, que indicam a possibilidade de episódios prolongados de chuva e umidade elevada até o início de 2027, alcançando boa parte do ciclo das culturas de verão.
Endividamento agrava dificuldades dos produtores
Além dos problemas produtivos, Ana Paula destacou a situação financeira dos agricultores paranaenses. Segundo ela, muitos produtores já procuravam mecanismos convencionais de renegociação de dívidas junto às instituições financeiras, mas enfrentavam dificuldades de acesso ou condições consideradas inviáveis devido às taxas cobradas.
A representante da FAEP também afirmou que a medida provisória voltada à renegociação de dívidas rurais teve baixa adesão no estado e que a nova legislação de seguro rural, aprovada neste ano, ainda depende de implementação efetiva para produzir os resultados esperados.
“Não temos muitas alternativas, porque, infelizmente, a medida provisória de renegociação de dívidas não tem rodado bem no estado. São poucos produtores que têm conseguido acessar. Os bancos, os produtores já vinham tentando os mecanismos convencionais de renegociação, que são do Manual de Crédito Rural, sem sucesso ou com taxas muito elevadas, que não aliviam em nada a situação de endividamento”, afirmou.
Diante desse cenário, a orientação da FAEP é que os produtores documentem os prejuízos climáticos e, quando houver cobertura, acionem imediatamente a seguradora ou a instituição financeira responsável pelo Proagro. O objetivo é preservar os registros necessários para eventuais pedidos de indenização e para a possibilidade de acesso a futuras medidas de apoio.
Ana Paula reconheceu a apreensão entre os agricultores diante de mais uma temporada marcada por adversidades, mas destacou que os produtores continuam buscando recompor sua renda a cada nova safra. “A gente só espera que os danos sejam os mínimos possíveis”, concluiu.