Temporais colocam o Sul em alerta; tempo seco predomina no interior do Brasil
O avanço de uma nova frente fria mantém o Sul do Brasil em alerta para chuvas volumosas e temporais, principalmente no Rio Grande do Sul, enquanto o restante do país continua sob influência do calor e do tempo seco. O cenário, segundo o meteorologista Alexandre Nascimento, da Nottus, reflete um padrão típico deste ano, intensificado pela atuação do El Niño.
De acordo com o especialista, apenas nas últimas 48 horas algumas áreas do Rio Grande do Sul registraram entre 150 e 180 milímetros de chuva, volumes suficientes para provocar novos transtornos em regiões que já enfrentam uma sequência de episódios de precipitação intensa.
"Em algumas localidades, choveu praticamente o equivalente ao esperado para um mês inteiro em apenas dois dias. O problema é que isso vem se repetindo de forma sistemática", afirma Alexandre.
Além da chuva, a instabilidade provocou a formação de um tornado no norte gaúcho, fenômeno que deixou feridos e causou danos em municípios da região.
Segundo o meteorologista, embora os tornados chamem atenção, eles não são incomuns no Sul do país.
"Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná estão entre as regiões brasileiras onde esse tipo de fenômeno pode ocorrer quando há muita instabilidade atmosférica. Eles costumam ter área de atuação pequena, mas um enorme poder de destruição", explica.
Contraste térmico fortalece as tempestades
Nascimento destaca que o contraste entre o ar frio que acompanha a frente fria e as altas temperaturas predominantes no Centro-Oeste, Sudeste e parte do Norte fortalece ainda mais os sistemas meteorológicos.
Enquanto Porto Alegre registrava temperaturas próximas de 16°C pela manhã, cidades como Cuiabá já marcavam 29°C, com máximas previstas de até 37°C durante a tarde.
"Essa diferença de temperatura fortalece o sistema. Do ponto de vista meteorológico, o ar frio ao sul e o ar muito quente ao norte aumentam a instabilidade e favorecem chuvas intensas, ventos fortes e até a formação de tornados", explica.
Segundo ele, o mesmo mecanismo também favorece rajadas intensas, como as registradas recentemente no interior paulista.
"O choque entre a massa de ar quente e a frente fria gera nuvens muito desenvolvidas, capazes de produzir frentes de rajada com ventos superiores a 100 km/h."
Interior segue quente e seco
Enquanto o Sul concentra as maiores precipitações, grande parte do Centro-Oeste, do interior do Sudeste e do Matopiba continua enfrentando calor acima da média e baixa umidade relativa do ar.
No interior de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins, as máximas seguem acima dos 35°C, enquanto cidades do interior paulista e de Minas Gerais registram temperaturas entre 31°C e 32°C, valores de 5°C a 7°C acima da média para julho.
Esse cenário preocupa o setor agropecuário, principalmente pela combinação entre calor, estiagem e aumento do risco de queimadas.
Segundo Alexandre Nascimento, o inverno de 2026 tende a ser diferente do observado no ano passado.
"Da metade para o fim da estação, a regra passa a ser o calor. Os episódios de frio serão mais pontuais, enquanto as temperaturas acima da média devem predominar em boa parte do país."
El Niño mantém padrão de instabilidade
Para o meteorologista, o comportamento observado neste inverno confirma as projeções feitas ainda antes do início da estação.
"O El Niño eleva as temperaturas em grande parte do Brasil e potencializa a atuação das frentes frias que chegam ao Sul. Quando esses sistemas encontram o ar muito quente do interior do país, aumentam as chances de tempestades severas."
Ele ressalta que o padrão deve continuar nas próximas semanas, mantendo o produtor rural atento principalmente no Sul.
"O Rio Grande do Sul continua sendo a porta de entrada dessas frentes frias. A tendência é de repetição desse ciclo: a temperatura sobe antes da chegada do sistema, a frente fria provoca chuva intensa e depois o frio retorna temporariamente."