Acordo UE-Mercosul: A porta abriu. Quem tem a chave?
* Por Lucas Wadt - engenheiro agrônomo pela USP/ESALQ com mestrado em Engenharia de Sistemas Agrícolas e Master em Inovação obtido na França. Atualmente integra o Grupo InVivo, líder do setor agrícola na França.
A assinatura do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul marca um dos momentos mais aguardados para o agronegócio brasileiro nas últimas décadas. São 718 milhões de consumidores integrados e um PIB combinado de US$ 22 trilhões. A eliminação de tarifas para 77% dos produtos agropecuários promete ganhos expressivos para exportadores brasileiros.
Mas enquanto muitos celebram, a pergunta relevante é outra: quem está verdadeiramente preparado para capturar esses ganhos?
A resposta exige entender que este não é um acordo apenas sobre tarifas. É um acordo sobre confiabilidade.
As novas regras do jogo
O acesso efetivo ao mercado europeu será regulado por dois pilares que vão muito além da redução tarifária.
Primeiro, as salvaguardas políticas. O acordo foi aprovado sob forte vigilância, especialmente da França — maior produtor agrícola da UE e epicentro da resistência ao tratado. A Europa criou mecanismos que permitem suspender benefícios rapidamente caso importações de itens sensíveis aumentem de forma significativa. O acesso não é automático e pode ser revertido.
Segundo, a barreira da conformidade. O Green Deal e a Regulação de Desmatamento Zero (EUDR) transformam sustentabilidade em critério obrigatório de acesso. A Europa não compra apenas alimentos — exporta regras. O futuro pertence a cadeias produtivas rastreáveis, que não apenas produzem com excelência, mas conseguem provar sua origem e seus processos com dados auditáveis.
Tecnologia como passaporte
Este cenário, aparentemente desafiador, é na verdade um divisor de águas. Ele separa quem continuará competindo por volume e preço daqueles que passarão a competir por valor e confiança.
As exigências ambientais criam uma oportunidade histórica para o agro brasileiro acessar novos fluxos de investimento. A Europa está direcionando centenas de bilhões de euros para sua transição verde, com capital ávido por projetos de descarbonização, agricultura regenerativa e bioeconomia.
A chave para capturar essa oportunidade é o domínio tecnológico. Soluções em agricultura de precisão, biotecnologia, monitoramento remoto e inteligência artificial aplicada ao campo deixam de ser diferenciais competitivos para se tornarem infraestrutura básica. Quem dominar essas ferramentas terá o passaporte para mercados premium e linhas de financiamento verde.
O que a experiência europeia ensina
Na França, 86% dos agricultores já adotaram pelo menos uma tecnológia. Mais da metade integrou três ou mais. O país investe mais de €2,3 bilhões em inovação agrícola através do France 2030 e abriga 215 de startups de agtech. Não se trata de um futuro distante — é o padrão que está se tornando referência global.
Acompanhando de perto o ecossistema europeu de inovação agrícola, identificamos que o Brasil tem todos os ingredientes para liderar essa transição: escala de produção, preservação ambiental significativa e ferramentas de monitoramento sofisticadas. O que falta é a ponte entre esses dois mundos.
O momento de agir
O EUDR entra em vigor em dezembro de 2025 para grandes empresas e junho de 2026 para pequenas e médias. A janela para se preparar está aberta — mas não por muito tempo.
A estratégia para o sucesso tem três etapas: adaptação interna com sistemas robustos de rastreabilidade; conhecimento profundo do ecossistema europeu, incluindo suas dinâmicas políticas e mecanismos de investimento; e conexão direta com os atores-chave — startups, centros de pesquisa, investidores e compradores.
O acordo abriu uma porta monumental. A pergunta é: quem construirá a estratégia para atravessá-la?