Integrando sojicultura e abelhas: um processo de ganha-ganha, por Décio Luiz Gazzoni
Não basta produzir, o sistema de produção precisa ser sustentável – este é um princípio da boa Ciência Agronômica. A produtividade de uma cultura é um dos índices utilizados para aferir a sustentabilidade. Para isto, necessita ser lastreada em tecnologias e processos reconhecidamente sustentáveis. Uma das formas de aumentar a produtividade, em bases sustentáveis, é a polinização. Vamos usar o exemplo da soja para demonstrar a importância da polinização para a produtividade e a sustentabilidade agrícolas.
A soja é a quarta planta alimentícia mais cultivada no mundo. Ela contribui com um quarto do óleo comestível e dois terços da proteína para formulação de rações para consumo animal. Desde a década de 1970, a produção de soja cresceu mais rápido do que qualquer uma das principais culturas, prevendo-se produção superior a 420 milhões de toneladas (Mt) na safra 2025/26. O Brasil consolida-se como o maior produtor mundial, respondendo por 40% da produção, com previsão de colher cerca de 175 Mt na safra 2025/26, cultivando cerca de 50 Mha. É um mercado líquido, aberto, e com demanda garantida nas próximas décadas.
Polinização
A polinização é um dos serviços ecossistêmicos mais importantes provido pela Natureza. Estima-se que 30% da produção mundial de alimentos dependa de polinizadores, que adicionam mais de US$ 200 bilhões anuais ao valor da produção agrícola. E esse serviço da Natureza é prestado gratuitamente, talvez a principal razão pela qual não seja devidamente valorizado.
Estima-se que cerca de 300 mil espécies de plantas com flores habitem nosso planeta, das quais em torno de 1.200 fornecem produtos agrícolas, como alimentos e fibras. Cerca de 75% das plantas com flores – cultivadas ou não - dependem, em algum grau, de polinização por animais. Para tanto, contam com dezenas de milhares de espécies, que são os polinizadores, em especial as abelhas. Constata-se que a polinização é responsável pela reprodução e perpetuação da maioria das espécies vegetais.
Soja e polinização
Até pouco tempo a soja era descrita como uma planta autógama, ou seja, que se autopoliniza, ou seja: não depende de polinizadores. Também é dita cleistogâmica: quando as flores se abrem, a maioria delas estaria devidamente autopolinizada. Mas, em ciência, a verdade é sempre a última verdade, por ser constantemente revisitada. Estudos recentes demonstraram que as flores de soja podem ser polinizadas por visitantes florais até seis horas após a sua abertura.
Os insetos se orientam na busca por recursos, principalmente alimentos, por características como forma, tamanho, cor e substâncias voláteis indicadoras. As plantas valem-se disso para atrair polinizadores. Uma vez atraídos, são reforçados para continuar visitando flores de uma determinada espécie de planta a fim de obter recursos (recompensas) para sua sobrevivência. Essas recompensas são pólen, néctar, resinas, ceras, lipídios e óleos essenciais.
Aí surgem os novos estudos agronômicos, demonstrando que a soja possui características de flores que, ativamente, atraem polinizadores. Atenção para o raciocínio: se as abelhas são atraídas para as flores de soja, usando recursos e energia essenciais para as plantas, então existe uma razão importante para tanto.
Soja e abelhas
Os novos estudos reforçam que a soja tem baixa dependência de polinização externa; ela produz sementes mesmo na ausência de polinizadores. A novidade da ciência agronômica é que, quando ocorre polinização suplementar por visitantes florais, a produtividade de soja é aumentada. Isso explica porque a soja atrai, ativamente, polinizadores: ela vai produzir mais sementes, para cumprir seu objetivo de perpetuar a espécie. Em decorrência, o produtor colhe mais, na mesma área, usando os mesmos insumos.
Para atrair abelhas, a soja lança no ar substâncias voláteis, que orientam as abelhas até suas flores. Mas, apenas atrair, não é suficiente. Para garantir a fidelidade das abelhas, para assegurar que elas retornem muitas vezes até suas flores, o néctar é a principal recompensa da soja para as abelhas. É um néctar de elevada qualidade, com alta concentração de açúcares, e produzido em grande quantidade. O pico da oferta de néctar ocorre entre 10h e 12h da manhã. O que coincide com o horário de pico de visitação de abelhas na soja, de acordo com os estudos da Embrapa.
Pelo exposto, a integração harmônica de abelhas silvestres ou manejadas com a cultura da soja é primordial pois, com a expansão contínua de área, as lavouras de soja estão cada vez mais se aproximando dos repositórios de abelhas nativas ou dos apiários fixos. Da mesma forma, com a descoberta que a soja se constitui em um excelente pasto apícola, os apicultores estão posicionando seus apiários migratórios nas proximidades de áreas de cultivo de soja, para permitir que as abelhas forrageiem na cultura. Aí é que entra a ciência agronômica, viabilizando esta integração.
Mais produtividade
Por que as abelhas aumentam a produtividade da soja? Esta é a pergunta que vale milhões de dólares, respondida pelos engenheiros agrônomos. O ovário da soja possui de 3 a 4 óvulos, mas pode ter até seis óvulos. Os sojicultores sabem que, em condições normais de campo, são encontradas entre duas e três sementes por vagem. Portanto, nem todos os óvulos são fecundados. Aí entram as abelhas, aumentando a deposição de pólen no estigma, propiciando a formação de mais tubos polínicos, e elevando a probabilidade da fertilização dos óvulos. Nas lavouras próximas de apiários foi observado maior número de vagens com 3 e 4 grãos e menor número de vagens chochas ou com um grão, além de grãos mais pesados.
Em geral, os estudos realizados em diferentes países – incluindo o Brasil - mostram um aumento médio de produtividade da soja entre 15-20%, na presença de população adequada de abelhas. Em alguns casos, os ganhos de produtividade chegam a 30%, às vezes mais. As investigações da Embrapa mostraram ganhos médios de 13% na produtividade da soja, como média de diversos anos e diferentes locais.
É essencial verificar que o incremento de produtividade significa uma renda líquida para o produtor. Ocorre que, para a integração entre soja e abelhas, não há necessidade de alteração no sistema de produção, sendo utilizada a mesma quantidade de sementes, adubo, pesticida ou óleo diesel, ou seja, os custos permanecem os mesmos. Considerando a produtividade média da safra 2024/25, a cotação atual da soja e o incremento de produtividade observado nos estudos da Embrapa, significa uma renda líquida adicional superior a R$1.500,00 por hectare. O que equivale a 25-30% do custo de produção de soja, estimado para a safra atual.
Ganha-ganha
O aumento da produtividade de soja, pela presença de abelhas próximo às lavouras, tem despertado um interesse crescente dos sojicultores na colocação de apiários nas bordas das áreas de cultivo com a soja. Os apicultores também têm demonstrado empenho semelhante, porque obtém um pasto apícola farto e de alta qualidade, produzindo um mel muito valorizado no mercado.
Os apicultores que colocam suas colmeias próximas às lavouras de soja têm colhido em torno de 50-60 kg de mel, durante a floração da cultura. Para efeito de comparação, a média brasileira é de 19 kg por colmeia, por ano. Isso significa um ganho excepcional na produtividade e rentabilidade dos apicultores. Por isso que a integração soja e abelhas é um processo ganha-ganha: ganham os apicultores, os sojicultores, o ambiente, a sociedade, o Brasil e o mundo.
Examinemos o ganho ambiental com a integração. As emissões de gases de efeito estufa são calculadas ao longo do ciclo da soja sendo, em sua maioria decorrentes dos insumos e das máquinas utilizadas. Ao colher mais, usando a mesma quantidade de insumos, sem aumentar a área cultivada, o produtor de soja está diminuindo o volume de emissões por tonelada de soja produzida. Esse é um fato muito importante para compor a imagem de sustentabilidade da agricultura brasileira junto aos consumidores dos países que importam nossos produtos. A demonstração deste fato foi feita pela Embrapa, como parte de sua colaboração para COP-30.
De acordo com a publicação acima, se a produtividade de soja for aumentada em 20% é possível reduzir em 25% a emissão de gás carbônico equivalente, por tonelada de soja produzida. Isso sem contar o ganho por evitar a expansão da área, pois os cálculos de emissões por mudança de uso da terra são muito complexos, e variam de acordo com o bioma.
Boas práticas
Para que a integração entre soja e abelhas seja harmoniosa e proveitosa para todas as partes, é necessário a observância de boas práticas agrícolas, apícolas e de comunicação. A Embrapa desenvolveu, testou e validou um conjunto de boas práticas, que foram publicadas pelo Senar, em forma de cartilha, disponível gratuitamente para todos os interessados.
Em resumo, a ciência agronômica não apenas desvendou a interação benéfica entre soja e abelhas, mas também quantificou seus efeitos na produtividade e na economia, viabilizou a aplicação prática dessa integração no campo e demonstrou seu papel fundamental na construção de um sistema de produção de soja mais sustentável. É com tecnologias como esta que os engenheiros agrônomos estão tornando o agro brasileiro um dos mais sustentáveis do mundo, ampliando as oportunidades para o agronegócio brasileiro, tanto no mercado doméstico quanto no comércio internacional.