Agro, equinócio e São José, por Prof. Dr. Evaristo de Miranda
Amanhã, 20 de março, é o fim do verão e o início do outono. O sol ao meio-dia estará pino na linha do Equador. Noite e dia terão 12 horas, em qualquer lugar: Canadá, Angola, Mongólia, Chile, Timor e nos dois polos. Equinócio significa: equi (igual) nócio (noite). Dia igual noite. Com o equinócio de outono, as águas de março fecham o verão.
No Nordeste, as chuvas têm seu máximo na transição para abril. Se até o dia de São José, nesta véspera do equinócio, não chover, o sertanejo perde a esperança, como na canção Triste Partida, de Luís Gonzaga e Patativa do Assaré. Este ano chove bem no sertão. Não importa. Muito sertanejo trocou a enxada pelo bolsa família e outras ajudas.
O equinócio e o santo do equilíbrio vão bem juntos. O equinócio ilustra atributos cósmicos do esposo de Maria: estabilidade, comedimento e prudência. Tão necessários ao Brasil.
São José interessa cada vez mais historiadores e até psicólogos. Um homem com quem Deus só falava por sonhos! Quatro falas e quatro sonhos (Mt 1,20; 2,13; 2,19 e 2,22). Ele vive atento, em harmonia e diálogo com seu inconsciente. Sua extraordinária capacidade de lembrar, interpretar e agir segundo seus sonhos, diz muito sobre interioridade e equilíbrio psicológico.
Engajamento e decisão não faltaram a S. José, paradigma do pai capaz retirar-se diante do crescimento do filho. Retirar-se não é abandonar. José foi pai diligente. Agiu com coragem, presença e eficiência: assistiu Maria no parto, organizou a fuga e a vida no Egito, o retorno etc. Diante da vida própria do filho soube dar-lhe espaço e se retirar. Seu desapego dá inveja. Num silêncio e discrição sutis, José desaparece sem ser notado, até do texto evangélico.
Um dirigente estável se mantém constante, inalterado, age com harmonia, como José. É moderado nas maneiras, gestos, palavras e sentimentos, demonstra comedimento, encontra o meio-termo, possui estabilidade mental e emocional, autocontrole e autodomínio. Faz falta ao Brasil.
O tempo é de orientação. No equinócio, o sol nasce exatamente no ponto cardeal Leste e não apenas a Leste, como todos os dias. Idem para o poente, no exato ponto cardeal Oeste. Dia bom para acertar bússolas e marcar da varanda do apartamento ou da “janela lateral” o Leste e o Oeste geográficos.
Escolas falam tanto de educação ambiental e não ensinam adequadamente fenômenos básicos, regentes da vida no planeta, como equinócios, solstícios, inclinação do eixo terrestre e estações. Observáveis do pátio escolar. Se o eixo da Terra não fosse inclinado 23° 27’ em relação ao plano da órbita em torno do sol, se fosse perpendicular, não haveria estações, como em Mercúrio. Seria um perene equinócio, um gradiente constante de temperatura entre polos e Equador.
Doravante, por seis meses, o sol estará a pino lá pelo no hemisfério Norte, em direção ao Trópico de Câncer. O outono, com dias mais curtos, trará queda nas temperaturas e redução das chuvas. Tempo de colher a grande safra de milho. Início da colheita da cana de açúcar. Tempo seco e bom para a irrigação. A agricultura colhe a passagem do tempo.
Para civilizações antigas, no Mediterrâneo e Oriente, o ano começava em março, no equinócio de primavera boreal. Era o fim do inverno e a retomada da vida. Para os judeus, o sol foi criado no equinócio de março (Talmud, Berakhot 59b). E recitam, a cada 28 anos, a bênção do sol (Birkat hachama). O equinócio define, a cada ano, a data da celebração da Páscoa cristã.
A Páscoa é uma festa móvel, não é fixa no calendário, como Natal ou Independência. Pelas regras definidas pela Igreja no século IV, no Concílio Ecumênico de Nicéia, celebra-se a Páscoa no domingo após a primeira lua cheia, depois do equinócio, em 20 de março. A Páscoa pode ocorrer o mais cedo em 21 de março e o mais tardar no 25 de abril.
Em 2026, o equinócio ocorre dois dias após a lua nova. Lua cheia só em 1 de abril. O domingo pascal será no distante 5 de abril. Até lá, há tempo para dirigentes (familiares, empresariais e políticos), inspirarem-se do equilíbrio cósmico e em São José.
Quanto maior o cargo, pior o risco da húbris: desmedida, autoconfiança excessiva, orgulho imprudente, presunção, arrogância e desejo de vingança. Entre equinócio de outono e solstício de inverno (ou do inferno), há tempo para se converter e buscar um convívio mais cordato e fraterno. É tempo de eleger o equilíbrio.
Publicado no Portal da SNA em 19/03/2026