Faltam zagueiros no time do agro, por Marcelo Prado
Quem cresceu assistindo futebol na televisão conhece o grito que gela a arquibancada: gol do adversário, no contra-ataque, com a defesa inteira batida. O agro brasileiro tem ouvido esse grito com frequência. A inadimplência no agronegócio bateu o recorde de 8,8%, segundo a Serasa Experian, e os pedidos de recuperação judicial chegaram a quase 2 mil em 2025, quase quatro vezes o número de 2023.
Juros altos, guerras, insumos caros e commodities em queda explicam parte desse placar. Mas há um erro que quase ninguém comenta: a escalação.
A partir de 2020, depois da pandemia, o setor viveu preços que fariam qualquer torcida delirar. Embalados, muitos times do agro passaram a jogar só com meias e atacantes. Mais terra, mais máquina, mais dívida, mais expansão. Ninguém ficou lá atrás, e no vestiário quase ninguém queria ouvir falar em marcação. Quando o vento virou, veio o contra-ataque, e a defesa não estava em campo.
É hora de escalar zagueiros de novo. Na empresa, eles atendem pelo nome de gestão de risco, fluxo de caixa e governança, e são os guardiões da perpetuidade do negócio. Zagueiro não aparece nos melhores lances do domingo, mas é ele quem evita a derrota.
À frente da zaga, todo time campeão tem dois volantes, aqueles cabeças de área que dão consistência à defesa e ainda saem jogando. Nas empresas, eles são o orçamento bem-feito e os relatórios gerenciais confiáveis. Desarmam o perigo antes que ele chegue à área e entregam a bola limpa para quem vai atacar. Só então entram os pontas, que driblam e abrem espaço no mercado, e o centroavante, que transforma estratégia em resultado.
O futebol ensina ainda uma lição que o mercado esquece. Ninguém ganha todos os jogos. O campeão costuma somar algo perto de 70% dos pontos disputados. E vitória de 1 a 0 também vale três pontos. O empresário não precisa golear em toda safra. Precisa somar com regularidade, perder pouco e chegar inteiro à última rodada. Os títulos mais sólidos costumam sair dos times que sofrem menos gols.
Time equilibrado toma poucos gols, aguenta os contra-ataques do câmbio, dos juros, do clima e do mercado, e entende que o campeonato é longo, decidido na soma das rodadas e não num único jogo.
O agro brasileiro já provou que sabe fazer gols como poucos no mundo. Agora precisa provar que sabe se defender. O título vai ficar com quem tiver coragem de voltar a escalar zagueiros.