A teoria do desaquecimento, por Eugênio Gudin Filho

Publicado em 17/10/2011 06:49
Eugênio Gudin Flho foi um economista brasileiro, ministro da Fazenda entre setembro de 1954 e abril de 1955, durante o governo de Café Filho.
Mario Henrique Simonsen, Roberto Campos e alguns outros economistas ilustres costumam ser férteis na criação de neologismos. Dessa vez é o próprio ministro que, em recente entrevista, cria mais um: “Deve-se dar agora um aperto. Vamos ter um desaquecimento da economia que não chegará a ser uma recessão. Mas, que vai haver um desaquecimento não há dúvida”.

Não é a primeira vez que Simonsen se refere a essa circunstância conjuntural, mesmo sem recurso ao neologismo. Já em agosto passado dizia o ministro: “O aperto da liquidez forçado pelo balanço de pagamentos e pela inflação associada à crise do petróleo provocou a recessão e a estagnação em vários países do mundo ocidental, forçando uma queda do produto real de 3,8% no Japão, de 1,9% nos EUA e de 0,6% na Grã-Bretanha, com a geração de uma forte onda de protecionismo pelo mundo afora”.

O problema, para usar um quase neologismo, dessa vez de minha autoria, é o do ”objetivo conflitante”, que importa dizer que não se pode conseguir tudo em todos os setores ao mesmo tempo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a experiência tem mostrado que, quando se tenta baixar a taxa de desemprego e menos de 5%, isso se traduz em um “aquecimento” excessivo da economia, que provoca manifestação inflacionária. O Prof. Milton Friedman refere-se à posição de equilíbrio como a “taxa natural de desemprego”.

Foi, portanto, feliz a observação do ministro na mesma entrevista dizendo que “necessitaria de alguém que me ensinasse a fórmula de combater a inflação com a economia superaquecida e fórmula de reduzir as importações nesse mesmo caso”.

Referindo-me ao mesmo problema tenho recorrido ao exemplo da locomotiva a vapor, à qual de pede o máximo de esforço de tração e à qual ao mesmo tempo se proíbe elevar a pressão da caldeira.

Já em outubro de 1971 escrevia eu: “Pede-se ao ministro Delfim Neto que mantenha sua brilhante política de incremento do produto nacional à razão de 9% ao ano, que prossiga na manutenção do pleno emprego e do estímulo às exportações, e que, ao mesmo tempo, acabe com a inflação de cerca de 20% ao ano. Essa taxa de inflação não mais decorre agora dos déficits orçamentários da União, e sim da pressão exercida sobre o sistema econômico, para que atinja o máximo de atividade”.

Em termos mais sofisticados, tem sido objeto de debate uma curva de Phillips que estabelece conexão entre a inflação e o desemprego. Mas tanto Milton Friedman como Mário Henrique Simonsen e como o Prof. Phelps opõem criticas – e críticas certas – ao texto de Phillips. Não há dúvida, porém de que há que escolher entre preços estáveis acompanhados de um nível de desemprego mais acentuado ou – alternativamente – um nível mais baixo de desemprego acompanhado de inflação mais ou menos intensa.

Na mesma entrevista, respondendo a uma pergunta sobre a criação de uma taxa cambial diferenciada, uma para as transações comerciais, outra para as financeiras, disse Simonsen: “Por que iria eu fazer um reajuste grande na taxa de câmbio agora? Me diga o que não se está exportando, ou se podia exportar por causa do preço? O caso das sobretaxas nos Estados Unidos não é tão trágico assim”.

A política cambial aí esboçada coincide exatamente com a que vem agora adotando o governo francês, abandonando a orientação do tempo de Pompidou, de sucessivas desvalorizações do franco. Ele quer que os industriais franceses passem e concorrer nos mercados de exportação “com armas iguais” e não com “vantagens artificiais”.

O que o entrevistador poderia, com maior propriedade, ter perguntando ao ministro é se ele não considera a nossa taxa cambial por demais afastada do nível da paridade de seu poder de compra em relação a outras moedas. Nesse caso, penso que a melhor resposta seria a de Viner (Studies in International Trade): “Na há dúvida de que o poder de compra comparado de duas moedas inconversíveis, em termos de todas as coisas que são compráveis nos respectivos países, é, nos casos gerais, o fator singular mais importante na determinação da taxa de câmbio e deve geralmente impedir que as divergências entre a taxa real e a que resultaria da paridade dos poderes de compra atinjam 50% ou 300-%”.

Porque, se os desvios forem excessivos, o comércio exterior não mais poderá funcionar. Se os preços internos se elevam apreciavelmente, por força de inflação, e se mantém a taxa de câmbio desadaptada, chega o momento em que as exportações, não mais se podem realizar (em virtude de preços insuficientes em moeda nacional) ou as indústrias nacionais não mais podem viver (em concorrência com o estrangeiro).

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Fonte: Ricardo Bergamini

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