Resseguro ganha protagonismo no agro diante da escalada do risco climático e da pressão sobre o crédito rural
O agronegócio brasileiro vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que sustenta parte relevante do crescimento econômico do país, também se tornou um dos setores mais expostos à volatilidade climática, às oscilações geopolíticas e ao aumento da imprevisibilidade financeira. Secas prolongadas, excesso de chuvas, ondas de calor, granizo e eventos extremos passaram a pressionar não apenas a produtividade no campo, mas também o acesso ao crédito, a estabilidade das cadeias produtivas e a segurança financeira de produtores e investidores.
Nesse cenário, o seguro rural ganhou protagonismo como instrumento de proteção econômica. Mas por trás dele existe uma estrutura menos visível, embora essencial para o funcionamento de toda a engrenagem: o resseguro.
Responsável por diluir riscos de grande escala e garantir capacidade financeira às seguradoras, o resseguro se tornou peça estratégica para a sustentabilidade do seguro rural no Brasil. Sem ele, a capacidade de cobertura diante de perdas severas seria significativamente menor, especialmente em um ambiente marcado pela intensificação dos eventos climáticos.
Na prática, o resseguro funciona como uma camada adicional de proteção para o sistema. Ao assumir parte dos riscos das seguradoras, ele permite que o mercado continue operando mesmo diante de sinistros de alta severidade ou de perdas concentradas em determinadas regiões agrícolas. Isso garante estabilidade não apenas para o produtor rural, mas para toda a cadeia de financiamento do agro.
A importância desse mecanismo cresce em um momento em que o crédito privado ganha espaço no financiamento agrícola brasileiro. Com a redução relativa da participação do crédito subsidiado e o avanço de instrumentos privados de financiamento, aumenta também a necessidade de mecanismos capazes de reduzir a percepção de risco sobre a atividade agropecuária.
Para bancos, fundos de investimento, tradings e demais agentes financeiros, o seguro rural passou a ser visto como um elemento de proteção patrimonial e previsibilidade operacional. E o resseguro é justamente o que dá sustentação financeira para que essas apólices existam em larga escala.
“O agronegócio brasileiro opera hoje em um ambiente de risco muito mais complexo do que há alguns anos. Eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a impactar diretamente produtividade, crédito e previsibilidade financeira no campo. Nesse contexto, o resseguro tem um papel estratégico porque é ele que garante capacidade ao sistema segurador para absorver perdas de grande escala e manter o seguro rural funcionando. Sem resseguro, o custo da proteção tende a aumentar e a capacidade de cobertura diminui justamente quando o produtor mais precisa”, afirma Rafaela Barreda, presidente da Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber).
Os dados mostram o tamanho desse desafio. Um estudo do Centro Internacional Celso Furtado (CICEF) informam que chuvas e secas extremas causam desastres, matam gente e provocam perdas anuais de aproximadamente R$ 110 bilhões por ano ao PIB brasileiro. Ao mesmo tempo, a área coberta pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural caiu para pouco mais de 3% em 2025. Isso reforça a importância de fortalecer mecanismos privados de proteção e ampliar a participação do resseguro como ferramenta de estabilidade para o agro e para o sistema financeiro.
Além da proteção individual ao produtor, o sistema ajuda a evitar efeitos em cascata na economia. Quebras de safra severas impactam renda, capacidade de pagamento, renegociação de dívidas, preços de alimentos, exportações e arrecadação. Em um setor altamente integrado ao PIB brasileiro e à balança comercial, a gestão de risco deixou de ser apenas uma preocupação operacional e passou a ocupar espaço estratégico na estabilidade econômica.
A pressão climática também mudou a lógica do mercado. Historicamente, o seguro rural no Brasil ainda possui baixa penetração quando comparado a mercados mais maduros, mas a sucessão de perdas nos últimos anos elevou a percepção de risco entre produtores e instituições financeiras. Ao mesmo tempo, ampliou o desafio técnico para seguradoras e resseguradoras, que passaram a revisar modelos atuariais, monitoramento climático e critérios de precificação.
Esse novo ambiente exige maior sofisticação na análise de risco e maior integração entre tecnologia, dados meteorológicos, inteligência territorial e instrumentos financeiros. O resseguro, nesse contexto, não atua apenas como suporte financeiro, mas como um agente que contribui para o amadurecimento da própria cultura de gestão de risco no agronegócio.
O debate ganha ainda mais relevância diante da crescente preocupação global com segurança alimentar e mudanças climáticas. O Brasil ocupa posição estratégica como fornecedor mundial de alimentos, fibras e energia renovável. Garantir mecanismos capazes de dar estabilidade à produção agrícola passou a ser também uma discussão sobre competitividade internacional.
Mais do que uma proteção contratual, o resseguro se consolida como um dos pilares invisíveis da resiliência do agro brasileiro. Em um ambiente marcado por imprevisibilidade climática e maior pressão sobre custos e produtividade, sua função deixa de ser apenas técnica e passa a ocupar um papel estrutural na sustentação econômica do campo.
Sobre a Fenaber
A Fenaber (Federação Nacional das Empresas de Resseguros) é a entidade representativa do mercado de resseguros no Brasil, reunindo resseguradores locais, admitidos e eventuais registrados na SUSEP. Sua missão é defender os interesses políticos e institucionais de suas associadas, promover o desenvolvimento do mercado de resseguros brasileiro e contribuir para o fortalecimento do sistema de seguros como um todo. A entidade também fomenta a autorregulação do setor, prática consolidada em mercados economicamente desenvolvidos, e incentiva projetos voltados à formação de profissionais, à pesquisa e à educação em resseguro, reconhecendo o aprimoramento do seguro direto como base essencial para o desenvolvimento sustentável das operações de resseguro no Brasil. Mais informações: https://fenaber.org.br.