Embargo da UE a produtos animais afeta US$1,8 bi em vendas do Brasil, especialmente carnes

Publicado em 03/09/2026 15:53 e atualizado em 03/09/2026 17:16

SÃO PAULO, 3 Set (Reuters) - O embargo da União Europeia a produtos de origem animal do Brasil, que entrou em vigor nesta quinta-feira, atinge exportações brasileiras avaliadas em US$1,84 bilhão em 2025, principalmente carnes, uma vez que o bloco europeu busca garantias sobre a ausência de substâncias antimicrobianas no processo produtivo.

Ainda que as apostas de uma retomada em breve sejam baixas, uma inspeção europeia nesta semana na indústria de carne de frango traz alguma expectativa para este setor, pelo menos.

* Do total de exportações afetadas pelo embargo da UE, a carne bovina respondeu por US$1,05 bilhão em 2025, enquanto a carne de frango somou US$763 milhões no ano passado, com os europeus se destacando em compras de cortes de maior valor agregado, segundo dados do Ministério da Agricultura.

* Da receita total obtida pelo Brasil no ano passado com as exportações de carne bovina, a União Europeia representou 5,8% do total embarcado. No caso da carne de frango, a UE foi destino de cerca de 8% do que o Brasil embarcou no ano passado.

* A proibição -- anunciada em maio com prazo para vigorar a partir desta quinta-feira -- aconteceu após o governo brasileiro não conseguir apresentar garantias sobre a não utilização de substâncias antimicrobianas proibidas na UE no processo produtivo, o que deixou o Brasil fora de uma lista de exportadores autorizados. A Comissão Europeia não deu um prazo para uma possível suspensão da proibição.

* Desde o anúncio do embargo, o governo brasileiro reforçou negociações com os europeus, em um processo que envolveu até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que conversou com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sobre a criação de um mecanismo bilateral para identificar dificuldades para o comércio de produtos de origem animal.

* Como parte das negociações, uma missão de técnicos europeus veio inspecionar os sistemas de produção de carne de frango e mel do Brasil, em um trabalho registrado ao longo dos últimos dias que se encerra na sexta-feira. No entanto, não são esperadas decisões imediatas, uma vez que os inspetores precisam elaborar suas conclusões sobre a visita, segundo um porta-voz da Comissão Europeia.

* O governo brasileiro tinha expectativa de uma resolução mais rápida pelo menos para as exportações de carne de frango, por se tratar de um animal de ciclo mais curto, de 42 dias. Neste aspecto, seria mais fácil oferecer garantias da não utilização dos produtos proibidos pela UE, em comparação com o setor de bovinos, que tem um ciclo mais longo de vida, pouco mais de dois anos.

* No caso do setor de frango, pelo fato de haver maior integração entre os criadores de animais e as indústrias, o monitoramento seria mais fácil, alguns advogam. No setor de bovinos, o número de fornecedores seria mais pulverizado e menos integrado com a indústria frigorífica.

* De janeiro a julho de 2026, o Brasil exportou o equivalente a cerca de US$560 milhões em carne bovina para a União Europeia, com a Itália, Países Baixos, Espanha e Alemanha sendo os principais destinos. No caso da carne de frango, as exportações somaram US$680 milhões no mesmo período, principalmente para Países Baixos, Espanha e Alemanha, segundo dados do governo. As receitas em 2026 se recuperam ante 2025, pois no ano passado o Brasil enfrentou embargo por conta de um caso de gripe aviária em granja comercial.

* A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa produtores de carne de frango e suína, afirma que a avicultura brasileira já cumpre integralmente todos os requisitos determinados pela União Europeia para as importações de carne de frango, embora europeus afirmem não ter obtido essas comprovações por parte do Estado brasileiro.

* A Abiec, que representa produtores de carne bovina, afirma que construiu protocolo privado de controle sobre o uso de antimicrobianos, que faz parte das garantias oficiais brasileiras. Segundo a associação, 100% das empresas associadas à Abiec e habilitadas ao mercado europeu estão aderidas ao protocolo.

* A UE veta uso de substâncias que poderiam estimular crescimento animal. O bloco também proíbe o uso, na produção animal, de antimicrobianos reservados ao tratamento de seres humanos, incluindo antibióticos. Para a UE, o uso excessivo de medicamentos em animais poderia criar bactérias resistentes, tornando algumas infecções humanas mais difíceis de tratar.

* Segundo especialistas, a medida europeia não foi tomada por causa de irregularidades encontradas na carne brasileira, mas pela avaliação da UE de que o controle nacional sobre o uso dessas substâncias ainda é insuficiente.

* A União Europeia é um mercado estratégico para o Brasil, principalmente pelo alto valor agregado e pelo perfil específico dos cortes comercializados, disse a Abiec, ressaltando que "não há substituição automática do mercado europeu, uma vez que diferentes destinos demandam produtos e cortes distintos".

* No caso do setor de carne de frango, a ABPA afirmou anteriormente esperar alguma perda de receita, já que europeus são também importadores de produtos de maior valor agregado, como o peito.

* O Brasil, maior exportador global de carne bovina e de frango, é sede de algumas das maiores indústrias de carnes do mundo, como JBS, MBRF e Minerva , que também têm operações em outros países das Américas do Norte e do Sul.

(Por Roberto Samora; edição de Letícia Fucuchima e Pedro Fonseca)

Fonte: Reuters

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