“Brasil precisa sair da arquibancada”: Cabrera cobra diplomacia comercial para transformar força do agro em poder global

Publicado em 18/09/2026 15:00 e atualizado em 18/09/2026 17:08
Ex-ministro defende maior acesso aos grandes mercados e estímulos à agregação de valor

O produtor brasileiro construiu, nas últimas décadas, uma agricultura competitiva, tecnológica e capaz de colocar o país entre os maiores fornecedores mundiais de alimentos. Para o ex-ministro da Agricultura Antônio Cabrera, chegou a hora de o Brasil transformar essa força produtiva também em poder econômico, comercial e geopolítico.

E esse é um dos desafios que ele coloca sobre a mesa para o próximo presidente da República. “O Brasil hoje já é uma potência agroalimentar, potência da comida. O que nós não temos ainda é poder”, afirmou Cabrera. 

Veja a entrevista completa:
 

Para ele, a capacidade brasileira de produzir e fornecer alimentos deveria ocupar espaço muito maior na estratégia internacional do país, especialmente em um cenário no qual segurança alimentar ganhou peso nas relações entre as nações. “A gente tem que transformar isso numa presença geopolítica global. O Brasil tem que assumir o seu protagonismo. O Brasil tem que ir para a vitrine junto com os grandes países, junto com as grandes potências, porque ele tem algo que todo mundo está procurando.”

“O BRASIL TEM QUE SAIR DA ARQUIBANCADA”

É justamente fora da porteira que Cabrera concentra uma das cobranças mais fortes ao poder público. O ex-ministro defende uma diplomacia comercial mais agressiva, capaz não apenas de abrir mercados sanitariamente, mas de garantir condições efetivamente competitivas para que o produto brasileiro dispute compradores com seus principais concorrentes. “O Brasil tem que sair da arquibancada e ir para a linha da diplomacia comercial”, afirmou.

Para Cabrera, não basta o país reagir às regras internacionais depois que elas já foram estabelecidas. O Brasil deveria participar da construção dessas regras e usar sua relevância na produção de alimentos para ampliar sua influência nas negociações globais. “Nós temos que fazer do Brasil um ator fundamental nas decisões globais. E nós não estamos participando dessas decisões globais.”

“SOMOS COMPETITIVOS DENTRO DA PORTEIRA”

A provocação chega diretamente ao produtor quando Cabrera contrapõe os ganhos conquistados no campo às dificuldades comerciais encontradas depois que a produção deixa a fazenda. “Nós somos competitivos, altamente competitivos, dentro da porteira. Agora, fora da porteira, nós não estamos negociando.”

O ex-ministro cita diferenças de acesso e de tarifas enfrentadas pelo Brasil em alguns mercados em relação a concorrentes que possuem acordos comerciais mais favoráveis. E resume o que considera necessário. “Eu queria ter exatamente o mesmo acesso que tem o meu concorrente americano, o meu concorrente australiano; no café, meu concorrente colombiano.”

A questão, portanto, vai além de produzir mais. Para Cabrera, é preciso criar condições para que a competitividade conquistada pelo produtor brasileiro dentro da fazenda não seja perdida em barreiras, tarifas ou negociações comerciais menos favoráveis fora dela.

O ex-ministro usa os Estados Unidos como um dos exemplos de mercados nos quais acredita haver espaço para uma participação brasileira maior. “Os Estados Unidos são o maior importador de alimentos do mundo. É a maior porta que pode se abrir para o agro brasileiro”, afirmou.

Na entrevista, ele também chama atenção para mercados como Índia e Coreia do Sul e defende que a estratégia comercial brasileira seja orientada não apenas pela abertura sanitária, mas pelas condições efetivas em que o produto nacional chega ao consumidor.
A tese é simples: mercado aberto não significa necessariamente mercado conquistado se o concorrente entra pagando menos tarifa ou desfrutando de condições comerciais melhores.

DA “MAIOR FAZENDA” AO “MAIOR SUPERMERCADO DO MUNDO”

A segunda grande cobrança de Cabrera está dentro do próprio Brasil. Além de ampliar mercados, o ex-ministro defende condições para que o país avance na agregação de valor à produção agropecuária e exporte mais alimentos processados e produtos industrializados, aumentando a geração de renda e empregos.

“O nome que eu daria hoje à reforma tributária é a maneira de continuar fazendo do Brasil a maior fazenda do mundo. E nós tínhamos que ser o quê? O maior supermercado do mundo.” Cabrera argumenta que o sistema tributário não deveria desestimular a transformação da matéria-prima dentro do país. Na avaliação dele, o Brasil precisa aproveitar sua vantagem na produção agrícola para construir também uma indústria de alimentos e produtos derivados mais forte.
“Eu posso transformar aquele couro num cinto, numa bolsa, num sapato, gerando emprego”, exemplificou em outro momento da entrevista, ao citar a China como exemplo como maior importador chinês do couro brasileiro.

A lógica se repete para diferentes cadeias: produzir a matéria-prima é apenas uma etapa da geração de valor que poderia permanecer no país.

“ALIMENTO É SEGURANÇA NACIONAL”

Por trás das diferentes propostas apresentadas pelo ex-ministro está uma tese maior sobre o papel que o Brasil pode desempenhar no mundo. “Alimento hoje é um item de segurança nacional.” Para Cabrera, as mudanças geopolíticas dos últimos anos aumentaram o valor estratégico da capacidade de produzir alimentos, abrindo uma oportunidade para que o Brasil transforme sua posição como grande fornecedor em influência internacional.

Não se trata, portanto, apenas de vender mais soja, milho, carnes, café ou açúcar. Trata-se, em sua visão, de fazer com que o peso adquirido pelo Brasil na produção mundial também seja reconhecido nas mesas onde são negociados comércio, acesso a mercados, regras sanitárias e segurança alimentar. “O Brasil tem que ir para a vitrine, tem que descruzar os braços, tem que sair da arquibancada e ir para a linha da diplomacia comercial.”

A cobrança de Cabrera deixa, assim, uma pergunta para quem assumir o Palácio do Planalto em 2027: Depois de o produtor brasileiro ter construído competitividade dentro da porteira, o que o próximo presidente fará para transformar essa força em competitividade também fora dela?

Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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