Área de algodão cai no Brasil, mas produtividade recorde sustenta produção maior, estimada em 4,41 milhões de toneladas

Publicado em 09/09/2026 11:38
Avaliações do Rally da Safra e mapeamento por satélite mostram efeitos do clima, da irrigação e das decisões econômicas sobre a produção

A safra brasileira de algodão 2025/26 deve confirmar um cenário de menor área plantada, mas produtividade acima das expectativas, segundo o diagnóstico realizado durante a Etapa Algodão do Rally da Safra, que combinou visitas técnicas a produtores, grupos e cooperativas do Mato Grosso e Bahia, com mapeamento por satélite em importantes regiões produtoras.

O levantamento da Agroconsult, organizadora da expedição técnica, aponta área plantada de aproximadamente 2,07 milhões de hectares, redução de 6,3% em relação à safra 2024/25. A retração está concentrada principalmente no Mato Grosso, onde a área cultivada recuou 9,4%. Ainda assim, as condições climáticas ao longo do ciclo favoreceram o desenvolvimento das lavouras em grande parte do país e contribuíram para produtividades recordes nos dois estados acompanhados pelas equipes de campo.

A produção brasileira está estimada em 4,41 milhões de toneladas, com possibilidade de acréscimo de aproximadamente 90 mil a 100 mil toneladas, dependendo do rendimento de pluma a ser beneficiado. Até 03 de setembro, 35% da pluma havia sido beneficiada.

“Estamos diante de uma safra em que a redução da área não significa uma queda na produção. Observamos em campo um ganho importante de produtividade, resultado da combinação entre clima, tecnologia e manejo. Ao mesmo tempo, ainda temos dois terços da safra a ser beneficiada, o que exige cautela na consolidação dos números de produção e rendimento de pluma”, afirma Heloisa Melo, sócia-diretora da Agroconsult e coordenadora da Etapa Algodão do Rally da Safra.

Bahia: mais irrigação e produtividade recorde

Na Bahia, o mapeamento por satélite identificou aproximadamente 425,7 mil hectares cultivados com algodão na safra 2025/26 - elevação de 0,2% em relação à temporada passada. Houve uma mudança importante no perfil das lavouras: enquanto a área de sequeiro recuou 7%, a área irrigada cresceu 12%. Com isso, a participação da irrigação passou de 39% para 44% da área plantada na safra 25/26.

A produção de algodão em pluma no estado está estimada em aproximadamente 982 mil toneladas, crescimento de 23,2% em relação à temporada anterior. A produtividade de algodão em caroço deve alcançar 368 arrobas por hectare, segundo estimativa da Agroconsult, configurando um recorde para o estado.
As equipes do Rally da Safra percorreram o Oeste da Bahia, passando pelas regiões de Correntina, São Desidério, Luís Eduardo Magalhães, Formosa do Rio Preto e Barreiras, entre os dias 27 de julho e 1º de agosto. As visitas a grupos e produtores representaram 36,4% da área plantada no estado.

Nessa temporada o clima teve um papel fundamental para o excelente desempenho das lavouras. As áreas de sequeiro, plantadas até dezembro, tiveram desempenho superior aos das áreas irrigadas plantadas entre janeiro e fevereiro.

De maneira geral, as lavouras da Bahia apresentaram resultados positivos tanto em produtividade quanto em qualidade, superando as expectativas iniciais e contribuindo para a expansão da oferta. 

Mato Grosso: menos área, mas produtividade acima das expectativas

No Mato Grosso, principal estado produtor, a área plantada recuou 9,4%, para aproximadamente 1,42 milhão de hectares. A redução foi principalmente uma decisão econômica dos produtores diante dos preços do algodão e da maior atratividade e liquidez do milho como alternativa de 2ª safra. A retração ocorreu em diferentes regiões do estado, com maior intensidade em áreas como o Vale do Araguaia e o Médio-Norte.

Apesar da menor área, a produtividade estimada para o estado deve alcançar 337 arrobas de algodão em caroço por hectare, acima da temporada anterior e considerada um novo recorde estadual pela Agroconsult. A produção de pluma está estimada em aproximadamente 3 milhões de toneladas.

O desempenho está associado principalmente às condições climáticas. Embora o plantio tenha começado mais atrasado, houve aceleração na segunda quinzena de janeiro. As boas chuvas de abril, maio e junho contribuíram para o desenvolvimento das lavouras em grande parte do estado.

Duas equipes realizaram roteiros distintos no estado: uma pelo Sudeste e outra pelo Médio-Norte e Oeste, passando por municípios como Rondonópolis, Primavera do Leste, Campo Verde, Cuiabá, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio. Juntas, as visitas no Mato Grosso cobriram aproximadamente 59,2% da área plantada do estado.

Pontos de atenção

Com apenas 35% da pluma beneficiada até a primeira semana de setembro, os números definitivos de rendimento ainda estão em formação. Além disso, o prolongamento das chuvas exige atenção em algumas regiões. Em áreas pontuais, o excesso de precipitações tardias afetou a qualidade visual da fibra, com redução de brilho e brancura. O excesso de umidade prolongou o ponto de dessecação, aumentando a quantidade de impureza no beneficiamento.

Caruru ganha espaço entre os desafios tecnológicos

Entre os desafios identificados pelas equipes de campo, o caruru aparece como alguns dos desafios da safra, especialmente no oeste do Mato Grosso. 

A preocupação tende a ganhar relevância nas próximas safras, inclusive porque já há sinais pontuais de ocorrência em outras regiões produtoras, como na Bahia.

Para a safra 2026/27, a expectativa é de maior adoção de tecnologias e variedades que ampliem as possibilidades de controle de daninhas resistentes, além de maior atenção ao manejo da sucessão com o cultivo da soja.

Algodão brasileiro ganha espaço no cenário internacional

Heloísa Melo destaca que os resultados reforçam a crescente importância do Brasil no mercado mundial de algodão. Na temporada 2025/26, o Mato Grosso aparece como terceiro maior produtor mundial, à frente dos Estados Unidos. A Bahia voltou a ultrapassar a Austrália em produção na temporada 2025/26, fato ocorrido em 2019/20, quando houve a maior quebra de safra registrada naquele país.

“O avanço da oferta brasileira ocorre em um mercado mundial que enfrenta desafios significativos na oferta de outros países. Para o produtor, ganhos de produtividade e qualidade permanecem fundamentais para ampliar a competitividade internacional e capturar oportunidades em um mercado bastante disputado”, afirma Heloísa.

Um retrato mais preciso da produção brasileira

O Rally da Safra realizou em 2026 a segunda edição da Etapa Algodão, ampliando a experiência acumulada em 23 anos de atividades, com cerca de 1,5 milhão de quilômetros percorridos e 35 mil lavouras de soja e milho avaliadas.

O diagnóstico desta edição foi construído a partir de uma abordagem qualitativa-quantitativa, combinando o mapeamento por satélite da área cultivada com informações coletadas diretamente no campo. Essa integração permite identificar não apenas quanto foi plantado, mas também como clima, tecnologia, manejo e decisões econômicas estão alterando o perfil da produção de algodão no país. Com a consolidação dos dados de beneficiamento, as estimativas de produção e de rendimento de pluma da safra 2025/26 ainda poderão ser atualizadas.

A Etapa Algodão tem como patrocinadores Basf, FiberMax, Laferlins, ADM, TIM, Mitsubishi Motors, Xarvio, Mediterranean, Itaú BBA, Tama, Yara e Brado Logística, e conta com o apoio institucional da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (ANEA) e da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA).

Fonte: Rally da Safra - Agroconsult

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