Mistura maior de biodiesel segue em debate e setor cobra avanço do B16 no Brasil

Publicado em 26/05/2026 11:03
Entidades defendem ampliação da mistura como estratégia para fortalecer a segurança energética, estimular investimentos e reduzir dependência do diesel importado

A ampliação da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel segue no centro das discussões do setor de biocombustíveis. Enquanto o governo federal mantém cautela e condiciona novos avanços à conclusão dos testes técnicos previstos na Lei do Combustível do Futuro, representantes da indústria defendem maior agilidade na implementação do B16 e afirmam que o Brasil possui capacidade suficiente para atender a uma mistura maior.

Para a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), o momento atual reforça ainda mais a importância estratégica do biodiesel na matriz energética brasileira. Segundo o presidente-executivo da entidade, André Nassar, há uma contradição entre o discurso favorável aos biocombustíveis e a lentidão para avançar na ampliação da mistura.

“Notamos um contraste evidente entre as declarações do governo na defesa dos biocombustíveis, que são muito positivas e aplaudidas pelo setor, e a celeridade observada na autorização de maiores teores de biodiesel”, afirmou.

Nesta segunda-feira (25), o governo confirmou  que a reunião do conselho para discutir um aumento na mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% deve ocorrer na primeira quinzena de junho.

Setor defende avanço mais rápido do B16

Atualmente, o governo federal defende a realização dos testes do B20 antes de autorizar novos aumentos na mistura. A posição está alinhada às exigências previstas na Lei do Combustível do Futuro, que condiciona a ampliação do percentual ao aval do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e à comprovação da viabilidade técnica.

Segundo Nassar, a Abiove reconhece a obrigatoriedade legal dos testes, mas avalia que seria possível avançar para o B16 com procedimentos mais simplificados.

“Em nosso entendimento, o governo não estaria descumprindo a Lei do Combustível do Futuro ao fazer testes de laboratório. A Lei não desautoriza esse tipo de solução, mas infelizmente não é assim que o governo pensa”, disse.

A entidade argumenta ainda que o cenário internacional reforça a necessidade de acelerar a mistura. Com a valorização do petróleo em meio aos conflitos no Oriente Médio, a Abiove defende que aumentar a participação do biodiesel poderia reduzir a dependência do diesel importado.

“Para garantir abastecimento, o governo deveria aumentar o teor de biodiesel no diesel, levando a uma redução do diesel importado e, assim, reduzir o montante de subvenções a serem dadas ao diesel importado”, destacou Nassar.

APROBIO critica atrasos e cobra previsibilidade

O presidente da APROBIO, Jerônimo Goergen, também criticou os atrasos no cronograma e afirmou que o setor já possui capacidade para avançar rapidamente na mistura.

“Hoje o biodiesel é mais barato que o diesel. Nós temos uma necessidade para a proteína animal e para o preço da soja de que haja a elevação da mistura. E isto impacta já no agronegócio”, afirmou em entrevista ao Notícias Agrícolas.

Goergen ressaltou ainda que o Brasil poderia reduzir drasticamente sua dependência externa caso ampliasse a participação do biodiesel.

“Hoje o Brasil teria já condições de misturar 22% no litro de diesel. O que corresponde a dizer que seríamos autossuficientes na produção de diesel no Brasil. Não precisaríamos importar nada”, disse.

Segundo ele, o atraso nos testes tem travado o cronograma previsto na legislação.

“O que nós temos pedido para o governo é que acelere. Quanto mais rápido ele fizer, antes ganha toda a economia, o meio ambiente e o agronegócio de maneira especial”, afirmou.

Capacidade produtiva e impactos para a cadeia da soja

A Abiove também alerta que o adiamento pode comprometer investimentos previstos tanto na indústria de esmagamento de soja quanto na produção de biodiesel.

“Vai afetar investimentos tanto no esmagamento de soja quanto na produção de biodiesel”, disse Nassar.

Segundo o executivo, o Brasil possui estrutura suficiente para atender à demanda futura.

“O Brasil processa apenas um terço da soja que produz. Tem 7 milhões de toneladas de capacidade adicional para processar soja. E no biodiesel é indiscutível, pois temos capacidade para B20 em funcionamento”, afirmou.

Além do impacto energético, as entidades destacam os efeitos econômicos positivos da industrialização da soja no país. Segundo levantamento citado pela Abiove, elaborado por pesquisadores do Cepea, cada tonelada de soja processada gera R$ 7.608 em Produto Interno Bruto (PIB), valor mais de quatro vezes superior ao obtido com a exportação do grão in natura.

“Dessa forma, o aumento da mistura de biodiesel garante que a riqueza gerada pela soja seja multiplicada e retida dentro do Brasil”, afirmou Nassar.

Brasil busca protagonismo na transição energética

Goergen também defendeu maior previsibilidade regulatória para estimular investimentos no setor e ampliar o protagonismo brasileiro na transição energética global.

“O biocombustível e a transição energética são dois grandes potenciais do Brasil, mas nós não resolvemos isso. O espaço tem que ser ocupado”, afirmou.

O cronograma atual prevê que o relatório final dos testes relacionados ao B20 seja concluído apenas em fevereiro de 2027. Enquanto isso, o setor segue pressionando por uma solução intermediária que permita o avanço do B16 antes da finalização de todas as etapas previstas.
 

Por: Andréia Marques
Fonte: Notícias Agrícolas

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