E32 pode adicionar quase 1 bilhão de litros à demanda anual por etanol

Publicado em 15/07/2026 17:40
Nova demanda por biocombustíveis estimula investimentos e consolida o milho como matéria-prima estratégica para energia limpa

A elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% (E30) para 32% (E32) poderá acrescentar cerca de 954 milhões de litros à demanda pelo biocombustível em um período de 12 meses, segundo estimativa do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Para Mato Grosso, segundo maior produtor nacional de etanol e principal polo brasileiro do combustível produzido a partir de cereais.

A mudança foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) na terça-feira (14), com adoção prevista a partir de 1º de agosto e vigência inicial de 180 dias, passível de uma prorrogação por igual período. A medida ocorre em um contexto de volatilidade do petróleo no mercado internacional e de preocupação com os efeitos das tensões no Oriente Médio sobre preços e abastecimento.

Para 2026, considerando a adoção da nova mistura a partir de agosto, o instituto estima incremento de aproximadamente 409 mil metros cúbicos de etanol anidro até dezembro.

“Em um ciclo completo, o E32 representa uma demanda adicional próxima de 1 milhão de metros cúbicos de etanol anidro. Neste ano, como a mudança começa em agosto, projetamos um acréscimo de cerca de 409 mil metros cúbicos. Esse resultado, no entanto, está diretamente relacionado ao comportamento do consumo de gasolina”, afirma Rodrigo Silva, coordenador de Inteligência de Mercado do Imea.

E32 amplia o mercado para o etanol de milho e reforça a agroindustrilização em Mato Grosso
Em um exercício que considera participação próxima de 30% do etanol de milho no atendimento desse novo mercado, o segmento poderia absorver aproximadamente 119 mil metros cúbicos adicionais em 2026 e cerca de 277 mil metros cúbicos em um período de 12 meses. A distribuição efetiva dependerá de fatores como oferta, preços e logística.

Para Cleiton Gauer, superintendente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), a relevância da medida vai além do aumento imediato do consumo. Na avaliação dele, a ampliação da mistura traz maior previsibilidade para produtores e indústrias e reduz a exposição do país às oscilações do mercado internacional de combustíveis fósseis.

“Esse é um anúncio extremamente importante e aguardado pelo mercado. O aumento da mistura dá maior segurança para a produção e para a continuidade desse movimento de ampliação da oferta de etanol, não apenas em Mato Grosso, mas no Brasil”, afirma.

Segundo Cleiton, o cenário internacional reforça a importância da medida. “O Brasil ainda está exposto às oscilações do mercado internacional dos combustíveis fósseis. Ampliar o espaço para o etanol fortalece uma produção que está no país e ajuda a dar sustentabilidade aos investimentos realizados na cadeia”, diz.

De acordo com informações do Ministério de Minas e Energia, o E32 poderá reduzir em cerca de 900 milhões de litros por ano a necessidade brasileira de importação de gasolina. Estudos técnicos avaliaram aspectos como desempenho dos veículos, dirigibilidade, partida a frio, consumo e emissões antes da adoção da nova mistura.

Mato Grosso amplia produção

De acordo com dados do Imea, a elevação do teor de etanol na gasolina ocorre em um momento de forte expansão da indústria mato-grossense.

Mato Grosso encerrou a safra 2025/26 com produção de 7,27 milhões de metros cúbicos de etanol, crescimento de 8,52% em relação ao ciclo anterior. O resultado manteve o Estado na segunda posição do ranking nacional, atrás apenas de São Paulo.

Do total, 6,18 milhões de metros cúbicos foram produzidos a partir do milho e 1,09 milhão de metros cúbicos teve a cana-de-açúcar como matéria-prima. Com isso, o cereal respondeu por aproximadamente 85% de todo o etanol produzido no Estado.

A produção de etanol de milho avançou 9,89% na safra 2025/26, enquanto a moagem do cereal pelas usinas alcançou 13,81 milhões de toneladas, alta de 10,45%. Do volume total de etanol produzido em Mato Grosso, 2,87 milhões de metros cúbicos foram de anidro, utilizado na mistura com a gasolina, equivalente a 39,42% da produção. Outros 4,40 milhões de metros cúbicos, ou 60,58%, foram de etanol hidratado.

Para a safra 2026/27, o Imea projeta produção total de 8,44 milhões de metros cúbicos de etanol em Mato Grosso, avanço de 16,08%. A expansão deverá ser liderada novamente pelo milho.

A produção de etanol de milho é estimada em 7,33 milhões de metros cúbicos, crescimento de 18,67% sobre o ciclo anterior. A moagem deverá passar de 13,81 milhões para 16,36 milhões de toneladas, alta de 18,52%, impulsionada, entre outros fatores, pela entrada de duas novas unidades industriais.

Segundo Cleiton, a trajetória da indústria mato-grossense desde a implantação das primeiras usinas dedicadas integralmente ao processamento de milho mostra a capacidade de resposta da produção diante da criação de novos mercados.

“Quando há um mercado estruturado, com demanda e preço, o produtor responde. A indústria cria um destino adicional para o milho e gera um efeito em cascata ao longo da cadeia”, afirma.

Na avaliação do superintendente da Famato, o mercado futuro do etanol também poderá avançar para além do transporte rodoviário, com oportunidades na produção de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, na sigla em inglês para Sustainable Aviation Fuel) e, principalmente, o etanol de uso marítimo.

“Precisamos olhar também para frente. O etanol e outras matérias-primas que o Brasil já produz podem ter participação importante na descarbonização marítima e na aviação”, diz.

Fonte: Famato

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