Biodiesel ganha espaço na estratégia de segurança energética e mira avanço para B20 e B25
O setor brasileiro de biodiesel trabalha para ampliar a participação do biocombustível no diesel nacional, com avanços para a adoção das misturas B20 e, posteriormente, B25. Para o presidente executivo da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Donizete Tokarski, os testes em andamento são importantes para consolidar a segurança técnica das novas proporções e ampliar a utilização do combustível no país.
Segundo ele, a indústria já possui capacidade para acompanhar uma eventual elevação da mistura e o setor busca transformar a experiência acumulada com o uso do biodiesel em documentação técnica e científica que dê respaldo às novas etapas.
“Nós precisamos também transformar isso em documentos que possamos legitimar essa utilização de B20 e B25 com reconhecimento técnico-científico, para que ninguém depois fique alardeando desinformações, e que acontece muito no campo do biodiesel ainda”, afirmou Tokarski.
A discussão sobre B20 e B25 ocorre em meio à realização de testes coordenados entre entidades do setor, laboratórios e o Ministério de Minas e Energia. A expectativa é que os estudos contribuam para assegurar a viabilidade técnica das misturas e ofereçam maior segurança para usuários, fabricantes de veículos e máquinas e para o próprio governo.
Tokarski ressalta que já existem fabricantes de máquinas, equipamentos e caminhões que oferecem respaldo para utilizações de biodiesel em concentrações ainda maiores. “Hoje nós temos empresas produtoras de máquinas, equipamentos, caminhões que dão segurança para utilização até 100% de biodiesel”, disse.
Biodiesel e segurança energética
Para o executivo, a ampliação do biodiesel também está diretamente relacionada à segurança energética brasileira. O Brasil ainda depende de importações para atender parte do consumo de diesel, o que deixa o mercado doméstico exposto a oscilações internacionais de preços e a impactos provocados por conflitos geopolíticos.
“Nós estamos importando mais de 25% do diesel que nós consumimos no Brasil. Então, o setor de produção de biodiesel está pronto para ampliar essa produção”, afirmou.
Na avaliação de Tokarski, aumentar a participação do biodiesel significa reduzir a dependência de combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, fortalecer uma cadeia produtiva que começa no campo e se estende pela indústria.
Soja vira energia e proteína
Um dos principais argumentos do setor é que a produção de biodiesel não deve ser analisada apenas como uma atividade ligada ao combustível. A transformação da soja em óleo para biodiesel também gera farelo, utilizado principalmente na alimentação animal.
De acordo com Tokarski, cerca de 35 milhões de toneladas de soja são processadas atualmente em função da cadeia do biodiesel, gerando aproximadamente 28 milhões de toneladas de farelo. Esse subproduto é utilizado na produção de rações para aves, suínos, peixes e outros animais.
“Cada vez que a gente produz 1 litro de biodiesel, estamos produzindo 4 kg de farelo que se transformam em ração”, destacou.
O executivo defende, portanto, maior processamento da soja dentro do país como forma de agregar valor à produção agrícola e ampliar a geração de empregos e renda no interior.
“Nós exportamos mais de 100 milhões de toneladas de soja em grãos. Tudo isso deveria ser processado internamente para gerar mais oportunidade, produzir carne mais barata, gerar mais emprego”, afirmou.
Além do farelo, a cadeia do biodiesel também gera outros coprodutos, como a glicerina, utilizada em diferentes segmentos da indústria.
Agricultura no centro da transição energética
Na avaliação de Tokarski, a transição energética brasileira começa no campo, já que a matéria-prima dos biocombustíveis tem origem na produção agrícola.
“A transição energética não começa no posto de combustível, ela começa no plantio. Todo biocombustível é produzido de uma biomassa. Essa biomassa tem origem no agricultor, na produção agrícola nacional”, afirmou.
O presidente da Ubrabio defende que a relação entre agricultura, produção de alimentos e geração de energia seja considerada na formulação das políticas públicas. Para ele, a produção de biodiesel contribui para a descarbonização da atividade agrícola e para a redução do uso de combustíveis fósseis.
A atual mistura obrigatória de 15% de biodiesel no diesel também já faz parte desse processo, segundo o executivo. Ele cita a mecanização agrícola como exemplo de uma atividade que utiliza um combustível com participação renovável.
B20 e B25 dependem de respaldo técnico
Embora defenda a evolução das misturas, Tokarski considera necessário consolidar os resultados dos testes em documentos técnicos e científicos. O objetivo é evitar que informações sem respaldo comprometam a percepção sobre o desempenho do biodiesel.
“Precisamos de que a sociedade incorpore essa informação e esse papel que vocês se prestam aqui é extremamente importante de trazer informações que são realmente baseadas em dados técnicos e científicos”, afirmou.
Para ele, o principal desafio do setor atualmente é ampliar o reconhecimento sobre a importância estratégica do biodiesel para o país.
“O biodiesel é um produto que é a cara do país, é um patrimônio nacional. O biodiesel é o produto que sintetiza todo o desenvolvimento agrícola”, disse.
A defesa da ampliação da mistura, portanto, está associada não apenas à substituição parcial do diesel fóssil, mas também à estratégia de industrialização da produção agrícola, geração de empregos, desenvolvimento regional e redução das emissões.
Tokarski resume essa visão na integração entre agricultura, alimento e energia. “Não podemos desenvolver a agricultura sem ampliar a produção de biocombustível e não podemos melhorar a qualidade do ar sem ampliar a participação de biocombustível”, afirmou.
Para o setor, o avanço para B20 e B25 representa uma das próximas etapas dessa estratégia, desde que acompanhado pela conclusão dos testes e pela consolidação do respaldo técnico necessário para ampliar a utilização do biodiesel no mercado brasileiro.